Exposição

Aqui

A exposição Aqui que ocupou a pequena galeria do Centro Cultural Light durante o mês de março foi composta por trabalhos dos artistas Mônica Coster, Gabriel Fampa e Rodrigo Pinheiro. Integrada por quatro obras em vídeo, as relações intrínsecas ao corpo, considerando sua materialidade e o que lhe transcende, ocupam o espaço oco da sala: a complexa coexistência dos fatores físicos e metafísicos da corporeidade, manifesta nos interesses dos artistas e tensionada através do diálogo entre as quatro obras em relação de oposição e complementaridade. Na exposição, costuravam-se contagens regressivas de naturezas distintas, a travessia de um corpo sem ar e as profundezas de um interior orgânico e fluido.

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Como atravessar uma montanha, de Mônica Coster, é um vídeo de 01:50 minutos no qual a artista realiza a travessia do túnel Santa Bárbara, no Rio de Janeiro, sem respirar. O plano sequência, que se inicia com a tomada de fôlego, acompanha sua apneia de dentro de um veículo em movimento até o respiro de alívio. Nessa ação Mônica atenta para o fato de que quando cruzamos túneis passamos por dentro de montanhas. O túnel propõe um lapso em nossa vivência urbana, no singelo momento em que passamos por dentro do relevo da terra. A montanha é um desafio físico e simbólico para o ser humano. Aqui, a artista experimenta a esfera mágica da montanha, fazendo frente à sua grandiosidade com a simples perturbação na ordem da respiração.

00:00:00 é o vídeo de Gabriel Fampa cuja duração coincide com a duração do evento onde é apresentado. A imagem que o compõe é a contagem regressiva dessa duração, qualificando-a como tempo de vida restante do evento e do trabalho em si. De segundo em segundo, esse tempo chega eventualmente a 00:00:00. Na obra, a ciência do tempo restante coloca-se como questão de cunho existencial, no sentido em que se apresenta como materialização do desafio que todos nós temos de enfrentar ao longo da vida: a angústia de ver o tempo passar, a ciência de um fim que se aproxima. No vídeo, essa angústia é contraposta pela afirmação de um tempo presente, uma noção do momento atual. Contrapõe-se a efemeridade situacional com a eternidade do que chamamos de agora. O título do trabalho é, nesse sentido, a indicação da previsibilidade e inevitabilidade do fim.

Aqui, de Rodrigo Pinheiro, é um vídeo de 04:55 minutos, uma tentativa de travessia da paisagem, de fundir-se com a mesma. O filme exibe dois planos que sobrepõe-se: a ação repetitiva de jogar pedras na superfície da água e imagens de um exame médico endoscópico. O trabalho parte de uma reflexão acerca da palavra “aqui”, de como tal designação carrega uma contraditoriedade inerente, pois “aqui” finge dar conta de territórios inabarcáveis. O “aqui” são como as águas onde o trabalho se dá, espaço perfeitamente discernível, no entanto, alimítrofe, de confins inexplorados, mergulho obscuro. A pretensa tarefa encarceradora do “aqui” é algo insustentável, já que, em sua vontade de engolir, morre afogado. O que é o “aqui” do corpo, onde começa e termina? Como o corpo mantém-se apartado de um suposto fora tão distante mas também tão contíguo a nós?

“…”, também de Rodrigo Pinheiro, constitui um trabalho em vídeo cuja realização estendeu-se por 60 dias ininterruptos. O filme apresenta o desenrolar de uma contagem regressiva de dias exibida ao longo do ano de 2017, em um televisor cuja transmissão de sinal via sistema analógico estava por se encerrar. O registro da contagem inicia-se no dia 59, acompanhando-a até o dia 0. O aviso “faltam x dias”, repentinamente exibido no canto da tela, era registrado diariamente e publicado no Instagram do artista às 23:59. A prática-ritual colocada pelo trabalho busca estabelecer um canal de comunicação com o outro lado, com o desconhecido, com o depois, assim como subverte o propósito da mensagem, esvaziando-a de sentido, sem fazer menção à sua origem ou finalidade, definido-a pela incitação do imaginário de quem a vê definhar dia após dia. Para a exposição, propõe-se apresentar os registros da contagem junto de um pequeno televisor de tubo transmitindo sinal algum.

〉 vídeos disponíveis nos sites dos artistas

Mônica Coster: http://cargocollective.com/costerponte

Gabriel Fampa: http://cargocollective.com/gabrielfampa

Rodrigo Pinheiro: http://cargocollective.com/rodrigolapinheiro

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