Camila Vieira Crítica semanal

Victor Arruda: O artista está presente

Há duas maneiras de adentrar a exposição “Arruda, Victor”, atualmente em cartaz no MAM RJ: a primeira, observando a obra-aviso, alocada na fachada à esquerda do texto curatorial, que assevera não ser permitida “ a entrada de pessoas da classe-média (pobres, só a serviço)”,2009, ou à direita do texto curatorial, onde figura um neon “Em homenagem às vítimas do dinheiro”,2018, seguido por uma foto do idêntico letreiro reluzente, dessa vez, alocado em um barco, e um vídeo, que retrata a cena equivalente à capturada pela foto, porém em movimento. Nota-se que a curadoria de Adolfo Montejo provoca uma reflexão de acordo com eixos que são possíveis identificar na obra do artista. Adentrando-se a partir da direita ao texto curatorial, as obras configuram uma estética de charges sociais, as quais retratam relações de poder não somente de classe, mas de gênero e de cor, configurando um tipo de análise psicológica do aspecto freudiano da sociedade de classes. Os aspectos socioeconômicos das personagens acompanham contextos que vão desde possíveis relações de trabalho: “salário mais justo”, 1975,  “na cozinha”, 1975, “Dr. Jorginho”, 1975, a causas de prazer “Amor sexo e diversão”, 1975; “O seu grande sonho”, 1975, “A jovem viúva, 1975, e críticas ao preconceito de classe e à alta sociedade “Madame gosta”, 1975; “As vítimas que se fodam”, 2009.

A “fase amarela”, de Victor é marcada pelas obras “adoração do unicórnio”, 1992; “Pintura Amarela com abstração geométrica e cena homoerótica em homenagem a Kafis”, 1992; “Fora e dentro”, 1992, entre outros. As cores remetem ao contraste entre o noturno e o diurno, o espaço privado e a intimidade conjugal. São quadros feitos dentro de uma perspectiva bidimensional, de aspecto quase cubista, apresentando as diversas facetas dos corpos nus que, talvez por conta das posições de subordinação ou do contraste entre o amarelo e os cinzas pálidos que dão conta de um jogo entre luz e sombra, transmitem mais a ideia de um gozo proibido e momentâneo do que amor. Seguindo por este caminho, o visitante pode notar que a gradação entre os amarelos e os cinzas continuamente decresce, de modo que confrontamos, por conseguinte, a “fase cinza” de Victor Arruda; fase mais introspectiva e consequentemente psicológica: “O sonhador”, 198-, “Day e Night”,198- e “Hierarquia”, 2000. Há um contraste, importante lembrar, quando ultrapassamos essa fase introspectiva do artista, pois o aspecto fauvista de Victor logo explode em vermelhos violentos e as linhas, outrora definidas, desta vez se esgarçam entre figuras eróticas “Tarsilão”, 2001 e desenho multicores que tratam de homenagens a diversos artistas: a própria Tarsila, Paul Klee, Picasso, Ismael Nery, etc. Nota-se que Victor Arruda jamais se furta a determinar suas principais influências, e há, neste aspecto, um núcleo formado por homenagens.

À frente das homenagens, composto por “Caleidoscópio”, 2013, “Porta”, 2000 e um puff, feito por volta dos anos 1980, o espaço é tomado por objetos e quadros que demarcam a grande influência da Pop Art na obra de Victor. “You are Still alive”, curiosamente próximo ao núcleo de homenagens, possui um tema aproximado de “Diário”, 1977 e “1 e 3 anúncios”, – releitura bem-humorada das três cadeiras de Joseph Kosut-, obras que mais claramente apresentam o artista enquanto narrador autor, em primeira pessoa, revelando sua inquietação concernente à morte e a chegada à terceira idade. Novamente, a fase cinza do artista é demonstrada através de figuras que, hora bem definidas, garantem um diálogo onírico entre o artista com ele mesmo “A conversação”, 1998, ora dramaticamente expressionistas, “Composição com três figuras sorrindo”, 1989, transmitem o aspecto sombrio do estado de espírito humano, diante de seu mal-estar na civilização.

O último núcleo, a partir do circuito traçado no texto, constitui o das obras-narrativas, cujos títulos estão em acordo com a mensagem que trazem: “Na arte não se pode mais falar sobre tudo”, 2015, “Se as imagens não falam por si, falam por quem?”, “Crianças bem comportadas não cospem na cara de políticos corruptos”, 2009. Talvez não seja possível deixar de citar a irreverência do artista e a verve crítica que conduz o seu trabalho, seja nos temas que concernem à homossexualidade, seja na clara alusão às camadas de discurso que regem as relações entre as classes. O conjunto de obras constitui um excelente leque de referências à História da Arte e promove uma reflexão bastante apropriada sobre o discurso moral presente na sociedade, em contraste às hipocrisias diárias, íntimas e familiares ao contexto brasileiro, tão acostumado às missas de domingo e ao despudor dos carnavais. Como nos alerta o artista “há certezas que devem ser promovidas a dúvidas.”

 

001

Adoração do unicórnio”, 1992.

002

As vítimas que se fodam”, 2009.

003

A conversação”, 1998.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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