Carolina Lopes Crítica semanal

I can’t get no satisfaction

Um bloco cinza no chão: é o trabalho de Felix Gonzales-Torres. Uma quantidade aparentemente incontável de folhas, de mesmo tamanho, mesma cor, talvez, a mesma imagem. É para pegar? Pega-se. Embaixo, a mesma imagem. Será a mesma imagem abaixo ainda? Pode-se levar mais de uma?

Ela o convida para sua casa e, em sua sala, deixa-o só.

A mesma exposição, dois lugares. Esse obscuro objeto do desejo, acontece nas galerias da Fortes D’alóia & Gabriel, em São Paulo e no Rio de Janeiro, a Carpintaria. Provoca desde o primeiro contato: desejo, frustração. É impossível alcançar sua totalidade. Curada pelo canadense Philip Larratt-Smith, a parte carioca da mostra reúne trabalhos de 8 artistas contemporâneos.

A partir do filme de 1977, homônimo à exposição, de Luis Buñuel, artista surrealista espanhol, Esse obscuro objeto do desejo se apresenta sinuosa, como Conchita, personagem do filme. Interpretada por duas atrizes, que se revezam nas cenas, Conchita é a materialização da ambiguidade. É ou não é? É esta ou aquela? O que é isto que se vê? Dá o tempo da dúvida. Dá o tempo do avanço ao próximo ponto de vontade.

Como em um transe, é possível passar horas mirando a mão que se insinua em Erotisme, vídeo de Rivane Neuenschwander. Mais do que a produção de um duplo, o trabalho se desdobra em sinais variados. Personagem principal dos primeiros contatos entre corpos: uma mão, sua sombra. O alfabeto em LIBRAS. Para cada letra, uma palavra do universo erótico. Possivelmente, movimentos de mão e sombra estejam separados. Tudo ali é a mesma coisa? Os sinais estão dissociados?

Fácil lembrar de Uma e três cadeiras, de 1965, de Joseph Kosuth, artista conceitual, americano. Entre foto, definição do dicionário, e objeto, tudo ali é cadeira. Embora talvez nada seja cadeira. Comum à linguagem, vemos no vídeo de rivane, providos de certa ampliação, sua independência. Estamos constantemente envoltos entre os envios e recepções de sinais que, em estado de saída, podem ganhar novos sentidos. Encontramo-nos então em condição flutuante: inseridos nesta atmosfera misteriosa, ambiente em que o querer só se dilata.

Embalados pela curadoria, muito sofisticada e econômica, é possível sentir o ritmo sedutor entre as obras. A cada esquina, mantém-se o estímulo. Um jogo de velar e desvelar: aproxima e afasta. Haircut, de Wolfgang Tillmans, estende diante de nós, em uma fotografia de quase 2m, uma grande interrogação. A nuca de um homem, que acaba de cortar os cabelos. Ainda vê-se os pequenos pedaços de fios, caídos sobre as orelhas. Aguarda-se então o momento da virada. A revelação do rosto, do corte. Deve-se tocar-lhe o ombro? Assim como no filme originário da mostra, as obras dão algo, mas dão parte. Não se sacia o desejo. Curioso é que, nesse mecanismo ‘vai e vem’, há também uma espécie de breve contentamento. Uma resignação com o que se “tem”. Em Haircut, é possível tomar como privilégio, a possibilidade de ver na nuca, a parte que nunca será vista, com tamanha clareza, por seu dono.

Emparelhados, uma bola de couro, que despeja seu conteúdo através de um rasgo, e um celular que, no chão e conectado à tomada, exibe uma mosca que agoniza, também no chão. Aqui e ali, um tipo de êxtase. Sabe-se agora, por vias do rasgo, do que aquela bola é feita. Talvez se construa, naquela imagem terminal, a narrativa de alívio que levou a mosca ao seu estado atual: o tapa. gozo. prazer sombrio, mórbido. Em um misto de euforia e desapontamento, o objeto do tesão, se é que se sabe qual é, dá passos para trás, na mesma medida dos passos que se dão em sua direção.

Em desarranjo de sentidos, chega-se ao trabalho de Roni Horn. Parece um continente azul. Parece conter água. Parece estar gelada. Não há outro querer, que não o toque. Sabe-se que estão sendo enganados os olhos, é preciso mãos. Como em um retorno a infância: só é possível confiar no tato. A vontade do mergulho agora é tanta que, que já não se sabe de fato, se estamos falando de desejo, ou de necessidade. Certo é que, embora forte o querer, não se pode tocar. Em linguagem internacional, ouve-se, nos pensamentos, uma frase que se repete nesse encontro com a vontade. Compartilha-se em Esse obscuro objeto do desejo, o sentimento do Rolling Stone, Mick Jagger que, mesmo em muito tentar, parece não atingir o estanque de sua ânsia. Pensamos juntos: I can’t get no satisfaction.

 

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Esse obscuro objeto do desejo, 2018.

 

 

CAROLINA LOPESCAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

 

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