Crítica semanal Ton Almeida

Colhendo Rosas em cemitérios virtuais

Na data de escrita desta crítica ocasionou-se uma somatória de coincidências numéricas que acabaram por influenciar a decisão sobre qual assunto discorreria ao compartilhar informações nesta plataforma com @s leitor@s. Tratava-se do dia 11 de abril, aniversário de morte de Ricardo Rosas, que em 2018 somam-se 11 anos de sua morte, além de ser a data da gênese deste que vos escreve. Devido este tríplice acaso numérico celebraremos a produção de um agitador cultural, cujo trabalho empreendido permanece invisibilizado diante do que se hegemonizou dentro do panorama contemporâneo de produção teórica sobre arte no Brasil.

Ricardo Rosas atuou durante a popularização da internet no país, fomentando discussões e atuações principalmente a partir do encontro entre arte, mídia e ativismo. Através do rizoma.net (uma espécie de biblioteca virtual que hospedava grande conteúdo compilado sobre contracultura, hackerativismo, cibercultura, intervenção urbana dentre outras diversas temáticas afins) agenciou em parceria de outr@s colaborador@S, uma curadoria compartilhada de textos referenciais, que influenciaram um recorte de produção de uma arte engajada politicamente, mantendo uma afinação com temáticas contemporâneas em termos de política cultural, além de discorrer sobre metodologias e tecnologias que se desenvolviam em paralelo com o período de sua produção teórica.

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As proposições temáticas dessas compilações buscavam gerar linhas reflexivas de caráter híbrido, agenciando palavras-conceito que orientavam a mistura entre conhecimentos de diversas (des)ordens, tal qual um rizoma que se enviesa por caminhos múltiplos e a partir deste sampleamento e remixagem e nos abria um leque discursivo mutante que se aplicou de modo mais preciso às necessidades reflexivas de artistas e coletivos na virada do século. Uma das compilações, por exemplo, chamada “Neuropolítica”, apresentava artigos de diversos autores nos quais são incitadas percepções políticas a partir de questionamentos filosóficos, que variam desde a explanação sobre o ciberespaço e neuroespaço, à influência da tecnologia em nossos perceptos e afectos e como o corpo, tal qual máquina, operacionaliza programas a partir das relações estabelecidas entre tecnologia e informação. Todo esse arcabouço teórico no qual colaboradores sugeriam textos e acabavam orientando uma rica linha editorial, apresentando autores e discussões pertinentes, que serviu de berço para diversos pesquisadores, ativistas e artistas que se mantinham numa lógica de atravessamento entre fazeres.

Ricardo Rosas também mantinha uma produção textual afinada com sua prática de crítico e curador, passando por temáticas que iam desde o conhecimento a cerca do virtual, das mídias e das novas tecnologias, entendendo a importância de disputa por este espaço como fator chave para a política do século que se iniciara, mas também atentando para as formações coletivistas de artistas e os espaços autônomos de arte que proliferaram de um modo espontâneo a partir dos anos 2000, ou seja, percebendo as potências do virtual sem esquecer da importância dos engendramentos físicos, necessários a manutenção de alternativas sociais contra a lógica hegemônica do circuito de arte e da política institucional.

O domínio Rizoma.net não está mais no ar, mas a produção de Ricardo pode ser garimpada na internet e com um pouco de empenho podemos colher algumas de das rosas de conhecimento que polinizaram mentes e meios. Faz-se necessário uma arqueologia da informação que revise a importância histórica de sua produção para a compreensão de um panorama de arte contemporânea de caráter alternativo, socialmente engajado e antenado com questões relacionadas a produção artística da virada do século. Tratamos aqui do resgate de uma memória recente, esta que mais sofre com o intenso fluxo informacional que nos atropela constantemente. Precisamos escavar as informações e desenterrar alguns mortos para adquirir uma atuação mais consciente de como foi moldado nosso presente.

Segue o link do site VírgulaImagem, de Marcelo Terça-Nada do Grupo Poro,  para acesso à alguns dos textos de Ricardo Rosas e as compilações de textos do Rizoma.net.

http://virgulaimagem.redezero.org/ricardo-rosas-in-memoriam/

 

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TON ALMEIDA é artista multimídia, educador, produtor e gestor cultural. Desenvolve, individualmente e em sistema de colaboração com outros artistas, trabalhos de perfomance, instalação, intervenção urbana, que transversalizam técnicas e discursos referentes ao cinema e as artes visuais. Tem interesse nas relações entre memória, identidade, cinema expandido, performatividade, paisagens, território, envolvendo a prática comunitária como ferramenta de luta social.

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