Candé Crítica semanal

Marielle Franco, “Black Lives Matter” e porque estão furiosos com o Museu do Brooklyn

Formada em História da Arte em Yale com especialização em Princeton e passagem pelo curatorial de diversos Über Museus de Nova Iorque, Kristen Windmuller-Luna (31 anos) se torna a nova curadora de Arte Africana do Museu do Brooklyn. Até aí ok, muito rica, muito próspera: Palmas pra ela. O que tem a ver com a nossa vida? Ela foi centro da polêmica onde o “Decolonize This Place” em carta aberta ao Museu diz que ele, ao contratar mais uma mulher branca ao cargo de Curadora de Arte Africana, falhou em sua oportunidade de descolonizar a estrutura do museu. Pra eles a atual “crise pede por uma mais ampla, resposta estrutural” e convocam uma “Comissão de Descolonização” pra repensar estratégias museais.

Descolonização é a it word e sob ela tem uma trama de relações que fundamentam sua posição num dos topos de discussão dos espaços de arte. Não dá pra ignorar, já é currículo de cursos de arte “atualizados” (em alguns chamam de “vanguardas pós-modernas”), eixo curatorial de exposições e tem elevado o preço de alguns artistas negros, mulheres e indígenas que topam essa narrativa por todas as Américas – lembrando que dentre curadores e artistas apenas 4% são negros. A excitação pelas possibilidades de contribuição que as narrativas de povos e grupos marginalizados tem dado à arte (e ao conhecimento como um todo) não escondem as tensões presentes nessas mesmas relações. Sartre escreveu no prefácio de “Os Condenados da Terra” de Frantz Fanon um pouco sobre o momento em que a liberdade negra rompia mordaças:

“Tudo se acabou: as bocas abriram-se sós, as vozes amarelas e negras, continuavam a falar do nosso humanismo, mas apenas para censurar a nossa desumanidade.”

Se na terra do Black Lives Matter as narrativas descolonizadoras exigem vida nas ruas e representatividade nos museus, aqui vivemos na terra das chacinas sistemáticas. “Notícias de uma guerra particular” tem quase 30 anos, “Falcão, meninos do tráfico” é de 2006. Documentários que denunciam o assassinato em massa de negros urbanos com um Estado consciente do problema e interessado em sua manutenção. Em nossa realidade, camaradas, vereadora e juíza são mortas quando tomam atitudes contra os responsáveis. É fácil fazer uma linha desse modus operanti no Brasil desde o período colonial. Tapas na cara dos esperançados por menos iniquidades sociais. Fundamentos brutais de um “manda quem pode, obedece quem tem juízo” tão cotidiano quanto sangue nas ruas. Nosso país de mártires mortos agora também abriga Marielle Franco nesse hall de brilho triste.

Com ela não tinha as velhas desculpas da formação deficiente (bem improvável hoje não haver negros e negras bem formados para todas as posições) que orientou a defesa de Anne Pasternak, diretora do Museu do Brooklyn, sobre a escolha pela curadora branca. Marielle tinha formação sólida tanto acadêmica quanto em vivência da realidade da população – muito superior à média dos nossos parlamentares. Perda irreparável e um insulto à Democracia. É isso mesmo? As quadrilhas vencem?

O exercício para compreender uma das faces fundamentais da arte negra contemporânea é simples: Se pensa negro no Brasil, “vai, tenta ser feliz”.

Marielle semente.

Marielle Presente.

Link da Carta do Decolonize This Place: http://www.decolonizethisplace.org/post/open-letter-to-the-brooklyn-museum-your-curatorial-crisis-is-an-opportunity-to-decolonize 

 

CANDÉ COSTA

 

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school. Instagram @Africanizze |Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

 

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