Crítica semanal Daniele Machado

Entre ideais e o capital: nós, profissionais das artes

Escrevo esse texto no início do dia 1º de maio de 2018. Data simbólica de luta de todos nós trabalhadores que enfrentamos bravamente a dura rotina de venda da nossa força de trabalho. Entre muitas conquistas ao longo das décadas temos vivido graves retrocessos, em especial, com a Reforma Trabalhista que entrou em vigor ano passado. Durante esse processo tenso me lembrei do encanto com que descobri Ricardo Rosas, seus textos e sua atuação que fomentava discussões preciosas. Ricardo foi um militante pela internet como espaço democrático. Entre as possibilidades que ela trouxe enquanto ainda era novidade no Brasil estavam os debates em fóruns e listas de e-mails no início dos anos 2000.

Entre 23 e 24 de setembro de 2005, na lista de e-mails Coro (Coletivos em Redes e Organizações) o artista Gavin Adams enviou um e-mail com o título Como passar um elefante debaixo da porta¿ em que a partir do texto de Rosas Hibridismo coletivo no Brasil: transversalidade ou cooptação? discute a posição dos artistas na cadeia produtiva da arte. No trecho que desejo comentar, Gavin analisa um fenômeno recente naquele momento em que empresas para enxugar gastos e aumentar os lucros despede funcionários e os recontrata como microempresas que fornecem os mesmos serviços dos antigos funcionários por menores custos, passando os encargos trabalhistas para a empresa contratada, que é o mesmo trabalhador de antes. Tal fenômeno é deslocado pelo autor para os sistemas de arte contemporânea onde os artistas, inclusive ele próprio, ao não mais produzirem objetos de arte que se enquadrem no circuito galerias-museus, se tornam prestadores de serviços.

Nesse quadro o artista de sucesso viaja pelas principais cidades do mundo como “freelancer, percorrendo o mundo como convidado, turista, aventureiro, crítico temporário da casa, ou pseudo-etnógrafo”. Artistas de práticas nômades, desapegados ao trabalho de estúdio e artistas coletivados percorrem o circuito de instituições com projetos únicos, não circuláveis. O que teria sido pensado como estratégia para subverter as imposições do capital, se tornou uma armadilha e não impediu a cooptação. Para Gavin “a presença do artista se torna um pré-requisito para a execução/apresentação da obra. Portanto, é o aspecto performático da presença – não a quantidade ou qualidade do trabalho – que se torna valiosa e é alugada. Esta é a nova mercadoria, esta sim circulável e comercializável” e os artistas passaram a ser microempresas competindo pelo mercado, disputando prestígio e reconhecimento pela melhor marca.

A lógica da fábrica foi substituída pelo trabalhador livre, livre inclusive dos poucos direitos que se tinha. Uma lógica ainda mais perversa em um setor que nunca teve seu trabalho de fato reconhecido, legitimado e recompensado. Apesar desse trecho do texto de Gavin abordar de forma direta os artistas, atinge a todos nós profissionais das artes. Afinal poucos são apenas artistas, apenas críticos, apenas professores, apenas produtores, apenas curadores. Somos um pouco de tudo, seja movidos pelo desejo, seja movidos pela necessidade.

“A flexibilização do trabalho, o fim das carreiras etc. são frases que resultam no cancelamento de direitos trabalhistas”. Esta frase de Gavin pode ter sido encarada como exagero há treze anos atrás, hoje é determinante sobre a vida de todos nós. Por enquanto, irreversível. Após estes anos assistimos, presenciamos e participamos do projeto marca pessoal nas redes sociais. Não basta ser profissional, tem que compartilhar sua vida, seus amores, seus desejos, seus sonhos, com todos.

Na cidade do Rio de Janeiro experimentamos um pouco de otimismo às vésperas dos megaeventos que passaram por aqui. Museu de Arte do Rio, Museu do Amanhã, Casa Daros, fomento através de editais públicos e privados, todos se somaram aos equipamentos já existentes e traziam, entre muitas expectativas, novas vagas de emprego. De encontro tínhamos as primeiras turmas formadas em cursos recentes nas áreas de artes das universidades como História da Arte e Conservação e Restauro na UFRJ, Artes na UFF e Belas Artes na UFRRJ. Hoje temos um cenário de geral de corte de vagas, instituições, bolsas e editais. E nem faz tanto tempo assim.

Fato é, no capitalismo, não há escapatória: os boletos chegam todo mês. Este pequeno trecho do texto de Gavin, a que me lembro pontualmente nessa data do 1º de maio e nas situações desesperadoras de boletos, desempregos, empregos com salários incertos, calotes em editais, foi trazido aqui com o objetivo de lembrar de outra novidades desses últimos anos: o fim da organização dos profissionais. Seremos cooptados, não há escapatória, mas há brechas e resistências das altas às baixas esferas. Mas isso só é possível se nos organizarmos, acho que é esse o recado que o 1º de maio traz todo ano.

Que não nos esqueçamos jamais do “uni-vos” e lutemos sempre por ele!

Obs 1: Em dezembro deste ano, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica será inaugurada uma exposição e lançada uma publicação sobre o Ricardo com a minha curadoria e a de Ton Almeida. Corrigindo: Ricardo não apenas fomentava, continua fomentando, pra sempre.

Obs 2: Essa análise continuará em algumas sessões de críticas. Sempre às quartas 😉

Obs 3: MARIELLE E ANDERSON PRESENTES! HOJE E SEMPRE!

 

 

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

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