Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Advertência: ao entrar na exposição, você está sujeitx a fortes sensações

“Vem cá e sente o Prazer”. “Sentir a Ausência é o pior, com certeza”.

É domingo e o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP) está cheio. Antes mesmo de “entrar de verdade” na exposição Diário de Cheiros – Teto de Vidro da artista Josely Carvalho, as reações fortes e os comentários em voz alta do público já anunciam que uma experiência (no mínimo) inusitada vai se configurar: “a Ilusão tem cheiro de carambola, vem ver!”. Um aviso na parede lateral alerta: “informamos às pessoas alérgicas ou sensíveis a cheiros que a exposição apresenta uma instalação que explora o sentido do olfato”.

Pois bem, “pessoas sensíveis”. Talvez, seja assim que deveríamos entenderxs e frequentadorxs de exposições. Não mais chama-lxs de “espectadorxs”. Afinal, vivenciamos exposições de corpo inteiro e, como proclamou Oiticica, “o museu é o mundo”. Então, talvez, deveríamos advertir xs visitantes de outra maneira: “você está sujeitx a fortes sensações/emoções”.

Josely Carvalho está consciente disso há tempos e, desde os anos 80, desenvolve trabalhos que incorporam os mais diferentes suportes demandando do público outras corporeidades e posturas na apreensão de suas obras.A artista tem uma produção híbrida: desenho e objeto, instalações com cheiros, vídeos e avatares… A lista é grande. O destaque aqui é para o fato de ela fazer parte do (ainda) pequeno “grupo” da chamada “Arte Olfativa”, termo que, longe de ser ideal, abrange artistas que exploram o senso do olfato em suas criações. Questionando a hierarquização dos sentidos perceptivos nesta alucinante viagem audiovisual que é a contemporaneidade, elxs nos convidam a experienciar outras sensações.

Diário de Cheiros é a ala inicial da exposição, composta por milhares de cacos de vidro amontoados no chão e “caindo” do teto. Cada pedacinho nos conta uma narrativa do passado: antes de quebrarem, eram taças e copos. Objetos que guardam encontros, brindes, festas, as mágoas afogadas, o matar da sede, o alívio no fim do dia, a celebração de mais um ano. Eventos que, de repente, foram momentaneamente interrompidos pela quebra. Uma vez partidos, se tornam pedaços de memória, cacos da nossa história. Ao mesmo tempo, se transformam em perigo: aquilo que corta, que machuca, faz sangrar. Aquilo que precisa ser recolhido com cuidado e descartado sem dó. Vida que segue.

Josely, no entanto, coleciona estes cacos obsessivamente. Eles foram sendo armazenados dentro de uma caixa de papelão, até que um dia, a artista percebeu que lá de dentro saíam odores. Cheiros que ativam lembranças e nos transportam de volta para aqueles momentos quando as taças ainda estavam cheias. Se, inicialmente Josely guardava esses cacos sem saber exatamente por que, a posteriori, fica claro que naquela coleção “caquética” estava um registro do seu cotidiano: um diário sem palavras, mas cheio de memórias vivas.

É por isso que na exposição, bem na frente dos cacos amontoados, ficamos diante de seis potes de vidro que contêm cheiros denominados Ausência, Persistência, Prazer, Ilusão, Vazio e Afeto. Temos que nos abaixar um pouco e, assim, podemos sentir cada um deles. Desenvolvidos pela artista, os cheiros são a materialização daquilo que não podemos ver, mas conhecemos bem. Aquilo que só sabemos que existeporque sentimos. Senti-mentos. Particularmente, chama atenção o cheiro da Persistência: uma gardênia forte, que gruda no nariz e penetra na pele. Afeto é uma delícia: notas de açúcar queimado, cheiro doce e quente; é conforto, desejo, apetite. A Ausência incomoda: mistura de pimenta com fumaça que faz lacrimejar os olhos.

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Estilhaço–era vidro e se quebrou, 2015.

 

Juntos, estes seis cheiros compõem Estilhaçoera vidro e se quebrou (2015),o livro/objeto olfativo que, além de pequenos frascos com as respectivas fragrâncias, contém fotografias em formato de cartão postal. Estes postais têm a descrição dos cheiros acompanhadas de fragmentos de poemas de diferentes autorxs e frases escritas pela própria artista: “você já sonhou com um cheiro?”, “você identifica uma cor a um cheiro?”. Josely quer que a gente mergulhe no seu jogo sinestésico. Mas a caixa-livro é exibida dentro de uma vitrine de vidro. Não podemos manipular: como todo diário, está trancado e protegido dxs curiosxs.

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Estilhaço–era vidro e se quebrou, 2015.

 

A segunda área do espaço expositivo é Teto de vidro: dos estilhaços à resiliência. Ali, os cacos são outros: eles reconstituem a memória das manifestações de 2013, quando vitrines e janelas de bancos e lojas foram estilhaçados. A cena dos vidros quebrados são a própria imagem do protesto, do sistema que precisa ser interrompido, das guerras que separam, da violência que machuca. Mais uma vez, Josely junta os cacos: após recolher fragmentos de vidro nas manifestações, a artista os remonta em uma estrutura de aço corten, dando origem à escultura Estilhaços – Memorial às resistências de 2013. Título que se relevou provisório, assim como os protestos daquele ano que – agora sabemos,estavam apenas anunciando uma série de golpes que o povo brasileiro viria a sofrer. Enfim, em 2018, a escultura é rebatizada de “Marielle Franco”. Em meio ao silêncio das investigações, ainda escutamos o barulho dos tiros quebrando as janelas do carro que transportava a vereadora carioca. Josely faz eco a este som que não pode ser calado.

E que cheiro esses estilhaços exalam? Segundo a artista, é o Cheiro da Resiliência. Spray de pimenta com pólvora, poeira, “podreira”, sangue, suor, flores de cemitério. A resiliência se manifesta em seis acordes que podem ser cheirados separadamente. Eles são apresentados ao público nas Ânforas – esculturas de vidro soprado, estrategicamente posicionadas em mesas de ferro. São esculturas delicadas e frágeis. Mas, “apesar do perigo”, foram pensadas para serem manipuladas. É para chegar perto mesmo, tocar e sentir os cheiros: Anóxia, Dama da Noite, Barricada, Lacrimae, Pimenta e Poeira. Todos fortes, todos reais. Cenas completas se formam nos nossos olhos, que fechamos (sem perceber) ao cheirar.

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Ânforas – Exposição Diário de Cheiros – Teto de Vidro, de Josely Carvalho, 2018.

 

A sala de exposição é escura com paredes pretas. As poucas luzes são bem direcionadas para as mesas frias de ferro que guardam as esculturas de vidro. Elas são delicadas, mas esquisitas; bonitas, mas sofridas. Compondo a atmosfera, o áudio do vídeo Memória do som – Memória do vidro (2017). Escutamos vidros quebrando, chamas ardendo, coisas chiando, sopros, pequenos ruídos indefinidos. Não é ensurdecedor, nem excruciante. É estranhamente normal/ambiente. O vídeo é exibido na parede de fundo da sala e releva, de modo poético e abstrato, o processo de produção das Ânforas.

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Exposição Diário de Cheiros – Teto de Vidro, de Josely Carvalho, 2018.

 

Não é crítica negativa dizer que a expografia tem “ares de necrotério”. Pelo contrário. Tudo dialoga perfeitamente naquele espaço que, sem dúvidas, foi pensado com cuidado. É também uma espécie de“mausoléu”, onde enterramos lembranças que queremos afastar, porém, não esquecer completamente. Ao mesmo tempo, temuma atmosfera de “rua após protesto violento”: o tempo fica suspenso e vemos beleza e tristeza naquilo que lutamos para destruir na necessidade de reconstruir. É como visitar uma sala/compartimento da nossa própria memória (pessoal e coletiva): já conhecemos tudo que está ali, mas nunca tínhamos “visto” naquele arranjo. Assim, Josely releva a conexão intrínseca que existe entre aspectos individuais e universais: o pessoal se une ao político, as lembranças afetivas se vinculam às memórias coletivas, a intimidade reverbera na luta social. Tempo e espaço são condensados na experiência única que é criada dentro da exposição.

Aqui, ao contrário da agitação que observamos nxs visitantes na primeira parte, vemos pessoas caladas, concentradas. Há quem feche os olhos, há quem espirre. Há quem puxa o outro para cheirar junto e quem prefere ficar sozinho. É assim mesmo: a multisensorialidade viabiliza explorar diferentes aspectos da experiência humana na arte, incluindo fatores biológicos, políticos, socioculturais e ideológicos.

Esta exposição meche com os corpos. Superadas a assepsia, a anosmia e a apatia dos cubos brancos, nos vemos obrigados a reagir.Como aponta a curadora Laura Abreu, Teto de Vidro é, de fato, “título e síntese da exposição”. Fragilidade e força; transparência e separação. Memória e ação. Olho, nariz e mão. Experiência expandida.

 

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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