Camila Vieira Crítica semanal

Matador de passarinho

É preciso estômago para adentrar a exposição Terra em chamas, individual de Vítor Mizael, artista visual e museólogo. Segundo o texto curatorial, elaborado por Paulo Gallina, a exposição “explora e discute as origens do momento presente de nosso país ao criar uma representação ficcional para a flora e fauna desta nação indômita” e “trata das vidas contemporâneas e do estado atual das coisas”, através de um tipo de questionamento que implica nas identidades forjadas pelas nações. Por isso mesmo, enquanto visitante, eu me afasto dos textos curatoriais. Explico: curiosamente, se observarmos o folder da exposição, nos depararemos com um obra não intitulada, feita entre os anos de 2016 e 2017, que mostra uma paisagem natural, retratando, em primeiro plano, um lago circundado por uma vegetação nativa, com montes rochosos ao fundo. Algo similar às paisagens retratadas pelos pintores holandeses quando tomaram contato com a exuberância brasileira, no século XVII. O dado inusitado, contudo, é que a imagem do folder não corresponde à obra que está afixada na segunda sala da pequena galeria, que compõe o hall da Caixa Cultural: o artista realizou uma intervenção recente.

Aí entra o quesito “estômago” da exposição: é possível que o visitante monte, primordialmente, uma relação entre aquele retrato nativo brasileiro, magistralmente realizado por Rugendas, Debret, entre outros, e, num piscar de olhos, confronte a instalação composta por pássaros nativos taxidermizados, de asas abertas, içados, desprovidos de sua exuberância vital – uma vez que mortos –, e desbotados, devido à luz intensa dos bastões que circundam a coluna principal da sala; desmontando, deste modo, toda e qualquer relação que o título da mostra pretenda aludir. São eles, os pássaros, que de alguma maneira invalidam a proposta curatorial: nada alude a uma paisagem natural ressignificada ou “uma simbiose ao mesmo tempo estranha e fascinante”. Na realidade, a mostra tem muito a ver com a exposição de documentos históricos da coleção de Olavo Setúbal, que está no Itaú Cultural de São Paulo, chamada Brasilianas. Mizael, curiosamente, é paulista.

Fora da sala, quase não se notam os vasos de barro, que abrigam as espadas-de-São-Jorge, vizinhas, em seu espaço vital, de duas lanças de ferro, igualmente plantadas, como dois soldados que guardam a porta do local de entrada. A primeira imagem  que me chamou a atenção ao passar pela porta,  porém, não foi a instalação-mortuário içada na coluna da sala, mas um pássaro, preso por uma tesoura, pelo pescoço; obra também sem nome. Infelizmente não há descrição da espécie deste ou dos outros muitos pássaros empalhados que “revoam” a sala. E, mesmo as plantas medicinais, ao chão, não atingem um ar natural, por causa da iluminação fria do espaço. Além disso, os desenhos que evocam a observação técnica e científica das espécies – as “teorias consagradas” Darwinianas, rememoradas pelo texto –, não se ligam nem aos pássaros taxidermizados, por mais que se tratem igualmente de uma composição de plantas e pássaros, nem àquela que seria a segunda parte do discurso: o sincretismo cultural.

Prefiro não tratar do “tríptico” composto por três telas que estampam, individualmente, um índio, uma mulher mestiça e um negro encobertos pela folhagem nativa, – Segall já o fez –, antes, opto por questionar os tecidos, pendurados à parede da segunda sala, que, amarrados de forma a aparentar se tratar de máscaras africanas, ou algo que remeta a isso, fazem espelho a uma reprodução do famoso quadro da Independência brasileira, pintada por Pedro Américo (1886-88). Em cada um dos personagens do quadro há uma pequena imagem, tridimensional, de um orixá. Provavelmente o artista tentou inserir à obra o questionamento a respeito da presença dos negros na construção da cultura brasileira, em contraste com a ausência de sua figura nos retratos históricos do país. No entanto, essa composição não está em consonância com aquele quadro, lembram-se dele? Cuja paisagem de um lago possui, no centro, diferentemente da imagem reproduzida no folder, mais um pássaro, de asas abertas e bico rígido, como num mergulho ao revés, num cenário triste e pálido. Notei na obra de Vítor Mizael, portanto, uma assimilação derrapante entre os primeiros retratistas do Brasil-colônia e a Arte Contemporânea, com um escopo bastante modesto, para não dizer pobre, pertinente à tratativa dispensada à cultura afro-brasileira e principalmente, ressalto a falta de tato da curadoria ao selecionar obras que não assimilam o caráter desta Terra em Chamas que se pretendia inicialmente, pois a “atualidade” não está presente nem discursiva, nem materialmente na exposição, que choca, mas pelos motivos errados.

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s