Carolina Lopes Crítica semanal

A corda da trilha

Como quem segue uma corda deixada para trás, em um caminho desconhecido, é que se embrenha, curioso, através de O colecionador de linhas, de Claudio Paiva, no Museu de Arte do Rio (MAR). Com curadoria de Evandro Salles e Catherine Bompius, a mostra expõe mais de 300 trabalhos do artista.

A obra de Claudio Paiva se apresenta, falando logo em tom de comédia, enquanto também provoca estranhamento, tangendo o surreal. Corpos fragmentados. Cores chapadas. Pêlos. O canto de um cômodo. Deboche! — Diz a visitante.

A escolha que nomeia a retrospectiva de paiva, foi delicadamente acertada. É nítido a condição essencial que ele foi capaz de alcançar em sua obra: é entre dois pontos que estica sua linha e ali, anima as formas. Trazendo-as quase ao estado de sujeitos, elas ocupam espaço, tem corpo, existem.

Ao passo que a linearidade e o sentido cronológico da curadoria conferem à mostra um caráter educativo, acabam também por incorporar certa sensação de esmaecimento do artista. A vivacidade presente na primeira parte da mostra, não se faz tão presente na segunda. É possível ainda, senti-lo indo embora, a medida que se aproximam os últimos trabalhos do artista. No entanto, a obra de Paiva parece independentemente intrépida, e é impossível não entrar em seu jogo, numa construção e desconstrução de sentidos. Palavras e letras, com voz de risada, parecem fornecer uma chave; apesar de não haver fechadura. Exercício para o pensamento ou torres gêmeas provocam pelo enunciado. Compreende-se o trabalho por um sentido, até que, nota-se que se trata de uma fase do jogo: são copos d’água e rolos de papéis com barbante.

Nos trabalhos pretos, segue presente a base e os cantos de um cômodo. Massas profundamente pretas, chapadas, inscrevem o tempo. Tempo-linha, tempo-tinta. Tempoactea. O pensamento de Paiva anunciando-se naquela temporalidade. Na divagação possível, no proveito do ócio, parece efetuar a descoberta visual para uma cena fantástica. Dá formato a conceitos abstratos. voa agora no sentido inverso: a palavra tornando-se forma. Será talvez a necessidade de um chão, a presença contínua das bases, dos cantos? Tamanha a altura possível de seu voo. suas massas disformes ocupam esse espaço de uma sala, de uma esquina; quase uma camada extra de improbabilidade. Nesses cantos, o possível desejo de finitude para tanta invenção. Fato é que, não fosse a corda, marcando os caminhos de o colecionador de linhas, seria possível perder-se por entre as trilhas da imaginação vigorosamente presente de Claudio Paiva.

 

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Exposição O colecionador de linhas de Claudio Paiva, 2018.

Foto: Alezandre Araújo.

 

 

CAROLINA LOPESCAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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