Crítica semanal Ton Almeida

Coletivismos híbridos e lutas simbólicas – Parte 1

“Se o termo arte ganhou seu significado moderno no século XVIII, então qualquer tradição de oposição a ele tem que datar deste período – ou ser posterior a ele.

Na Grécia antiga e na Europa Medieval, a categoria arte cobria múltiplas disciplinas – muitas das quais foram rebaixadas ao status de “habilidade” ou “especialização”. Aquelas que mantiveram o título de arte são agora praticadas por homens (sic) “geniais”.
A arte tomou o lugar da religião não apenas como a definitiva – e eventualmente inacessível – forma de conhecimento, mas também como a mais legitimada forma de sentimentalismo masculino. O artista “homem” é tratado como um gênio, por expressar sentimentos que são tradicionalmente considerados “femininos”. “Ele” constrói um mundo no qual o homem é transformado num herói por demonstrar sensibilidades “femininas”; E o feminino é reduzido a um papel insípido e subordinado. A “boêmia” é colonizada por homens burgueses – dos quais alguns poucos são gênios, e a maioria deles, excêntricos. As mulheres burguesas cujo comportamento lembra o dos gênios masculinos são consideradas histéricas – enquanto proletários de ambos os sexos que se comportam de tal maneira são simplesmente rotulados de loucos. A arte, tanto na prática quanto no conteúdo, depende de gênero e de classe – embora seus apologistas defendam que ela seja uma categoria universal, o que simplesmente não é verdade. Qualquer pesquisa sobre os frequentadores de galerias de arte e museus demonstra que a apreciação da arte é algo restrito, quase exclusivamente, a indivíduos pertencentes a grupos de maior poder aquisitivo.”

Assalto à cultura –  Stewart Home

 

Meu exercício nesta coluna será o de voltar o olhar aos “modos de fazer” na arte contemporânea, que objetivem criar pontes relacionais entre lutas cotidianas e outras atuações simbólicas dentro do organismo social, iniciativas que agenciam correlações de forças para além do circuito e sistema tradicional de arte, que objetivem romper com os círculos viciosos da caretice do cubo branco e de estéticas que se apartam da vida se colocando em patamares intelectuais inalcançáveis. Interessa mais o  que almeja não ser cooptado pelas lógicas institucionais que se operacionalizem dentro do defasado e moribundo mercado, ações que engendrem sua caminhada constituindo perspectivas de atuação poético-política que evaporam e se desfazem antes que seus gestos sejam capturados, sem agir de modo condescendente.

Na parte citada acima da introdução de “Assalto à cultura” há uma explanação simples e precisa, a qual resume diversos problemas sobre como se operacionaliza a arte em seu modo convencional e sobre os critérios em jogo que perpetuam um modo de fazer que solidifica uma estrutura milenar de opressão. Apesar de uma maior diluição das formas, da aparente acessibilidade de outros recortes de classe e de pautas identitárias, sabemos que ainda é somente uma brecha esquizofrênica no que representa a superestrutura, ou melhor, talvez o que acontece é a “permissão” cujo um percentual discursivo se execute para que pareça que a arte tem contemplado um patamar socialmente engajado. No entanto ao pobre que continua dando murro em ponta de faca e insistindo em operar enquanto trabalhador da arte, permanece a perspectiva de que fazer esse tipo de atividade é loucura, sonho, coisa fora da realidade, algo da ordem do inútil, do que não é considerado trabalho moralmente digno.

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Perfomance e Cartografia realizadas pelo Coletivo Aparecidos

Políticos em parceria com o Coletivo Curto-Circuito.

Neste sentido, percebemos que atuar sozinho é bem mais difícil, e até mesmo depressivo, ou impossível. Precisamos aglutinar nossos corpos em coalizões discursivas para conseguir gerar embates e ir pra um enfrentamento consciente onde há perspectivas bem desenhadas, tais como uma programação de uma guerrilha simbólica, onde tenhamos uma proposta que exploda o que já não dá mais, o insustentável jogo hierárquico, egoísta e hedonista do sistema moribundo. Vale ressaltar que a proposição de “ajuntamento” aqui tenta enviesar-se por outras éticas e estéticas, que transbordam as pautas da arte e se contaminam de problemas da vida cotidiana, mantendo atenção as demandas do caos em que estamos imersos, e observando, dentro das iniciativas que já foram desenvolvidas em nossa história recente, no que ousamos e fomos bem sucedidos gerando curto-circuito e desestabilizando a máquina, e no que erramos e fomos absorvidos e transformados em cultura de mercado. Quantos discursos tem sido apropriados por marcas e produtores para serem transformados em moedas simbólicas para a aceitação de um produto?

Há uma sugestão sobre erros táticos das iniciativas coletivistas no texto “Hibridismo coletivo no Brasil: transversalidade ou cooptação?” de Ricardo Rosas, onde ele discorre:

“O que exatamente atrai os planejadores de campanhas publicitárias em incorporar grupos cuja atuação no espaço público se aproximaria muito mais da contestação a valores dominantes e do ativismo que da promoção de uma marca?

Minha hipótese aqui é de que isso se deve em parte a uma falta de clareza nas propostas, à ausência de uma posição mais assertativa que evidencie o motivo tratado, o que está sendo defendido, o problema abordado. O grande problema do “hibridismo temático” não está exatamente na vaga mistura de arte com tecnologia, de política com diversão, mas na falta de uma pauta clara, de uma agenda mais direta, pois a indeterminação do foco é o que permite, acredito, a fácil cooptação pelo mercado.”

Passada mais de uma década da publicação do texto em questão, perpetua-se a apropriação das lutas e pautas pelo capital, sua característica de cooptar e absorver está sempre afinada e atenta. Do mesmo modo os coletivos, agrupamentos e coalizões que se reivindicam em oposição tem pouco entendimento de como atacar o inimigo, não situando uma programação mais precisa de combate. Faz-se necessário uma coalizão de forças realmente determinadas que possam criar redes de solidariedade amplificando a autonomia, reivindicando uma estética de criatividade rebelde e subversiva, onde avaliemos passo a passo a estratégia para não cair no eterno retorno da cooptação.

 

REFERÊNCIA:

Hibridismo coletivo no Brasil: transversalidade ou cooptação?. Disponível em: <http://www.forumpermanente.org/event_pres/simp_sem/pad-ped0/documentacao-f/mesa_01/mesa1_ricardo_rosas&gt;

 

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TON ALMEIDA é artista multimídia, educador, produtor e gestor cultural. Desenvolve, individualmente e em sistema de colaboração com outros artistas, trabalhos de perfomance, instalação, intervenção urbana, que transversalizam técnicas e discursos referentes ao cinema e as artes visuais. Tem interesse nas relações entre memória, identidade, cinema expandido, performatividade, paisagens, território, envolvendo a prática comunitária como ferramenta de luta social.

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