Candé Crítica semanal

Quando estar no Museu é revolucionário

Faz pouco mais de um ano que Carolina Maria de Jesus teve questionada sua obra como possível de ser chamada literatura. Foi na Associação Brasileira de Letras, o “império da literatura brasileira”. Carolina de Jesus foi uma escritora negra favelada que na década de 60 rodou o país em lançamento de seu livro “Quarto de Despejo”. Eleita por políticos da época como um emblema brasileiro, um marco de superação de um Brasil onde até os mais pobres poderiam se tornar respeitáveis criadores. O texto de Carolina é obviamente denso, complexo, relatos diários com muitas reverberações de longo prazo. Lembra outro livro escrita por outra mulher décadas atrás: Anne Frank. Uma garotinha judia morta pelo terror do Nazismo que escreveu diário com os horrores vividos na Segunda Guerra. Literatura, claro. Onde mesmo que um relato pessoal não é literatura?

Ser ou não literatura não altera nada nas existências das falecidas escritoras. Importa pra nós. Mexe com reconhecimento entre os Sistemas de Cultura em nossa sociedade. Ela garante o acesso às Histórias eleitas necessárias de serem recontadas e refletidas. As vozes, no caso, são das vítimas. Pessoas alvo de sistemas opressores. Impressiona por serem tão humanas quanto nós. Humanas ao ponto de nos lançar nessas realidades adversas como em primeira pessoa. São estas narrativas que tem redesenhado a História. De Bell Hooks que sistematiza narrativas das mulheres negras permitindo aprofundamento sobre as relações de raça e gênero às Histórias Vivas de pessoas como Rosa Parks e Marsha P. Johnson. Vidas-Revoluções na forma de fazer História.

Arte tem sido uma das moedas mais usadas na História da Civilização Ocidental. A capacidade de sistematizar em ações e formas as propriedades intelectuais e afetivas do imaginário cultural já foi encarado como marco de elevação social. Se ainda hoje debate-se qual das culturas europeias é a mais complexa e civilizada, quando são culturas fundamentalmente diferentes o debate é lançado ao exotismo extremo. Quando falamos de uma cultura morta, como a Mesoamericana por séculos subestimada quanto a sua capacidade de realização formal, falamos da ausência de testemunhas oculares que possam confirmar ou não hipóteses e interpretações. Mas o problema da Arte como elemento civilizatório não se limita à comparação de objetos entre culturas vivas e mortas. Ainda não desierarquizamos diversidades culturais e, quando lidamos com Arte, lidamos com o reconhecimento institucional do que é cultura e civilização, o que deve ser repassado aos próximos, sobre quem conta as Histórias. É do reconhecimento da humanidade dos corpos não europeus, suas também civilizações, propriedades culturais dos corpos, que as bordas da Arte tem sido redimensionadas.

A História da Globalização e Colonização carregam atrocidades entremeadas nos ossos das sociedades ocidentais. Muitos livros tem sido revistos quando as vozes dos colonizados e culturalmente silenciados conquistaram o poder da fala. Algumas artistas tem sido fundamentais neste processo onde corpo e propriedade são redimensionados como nos trabalhos de Michelle Matiuzzi e Rosana Paulino. Duas artistas contemporâneas que exibem a desumanidade relacionada ao corpo negro, mais especificamente da mulher negra. Corpo que muda a História, como com Marsha e Rosa, que é combustível social de um país, como por toda escravidão. Os corpos contemplados de Debret não alcançam as dimensões profundas das representações de Paulino como em “Amor Pela Ciência” (2016) onde ela utiliza as imagens de mulheres negras obtidas no período escravista colonial. Nela ela questiona como os dados sobre negros eram produzidos e como neles atrocidades eram cometidas irrefletidamente. Abusos naturalizados em humanos desumanizados. É a recondução do olhar sobre o passado, pautado no ineditismo do local de fala, que se torna inevitável no trabalho de Paulino. As formas como estes corpos foram representados e lidos, expostos em Museus e Galerias de todo globo, é que são diretamente atingidas. Uma invasão no imaginário brasileiro fundamental na reconstrução de nossa História. Nenhuma representação racista do passado está incólume.

Se Paulino ocupa as imagens nos imaginários sobre o negro na Arte, Michelle Mattiuzzi incide na tensão política da presença dos corpos subalternizados e silenciados ainda presente nas Instituições de Arte internacionais. Em “Merci beaucoup Blaco” (MBB, 2010) ela traduz em Performance, Literatura e Fotografia as relações que transpassam o corpo da mulher negra frente as narrativas “eurocêntricas egocêntricas”. Mulheres Negras são minorias dentre artistas em Museus. Seus corpos são cerne de violências históricas. Expostas como animais primitivos como no caso de Sarah Barthman, nome eurorreferenciado da famigerada Vênus Negra. Mattiuzzi reconduz Vênus, antiga representação máxima, quase iconológica, do que é a mulher, o feminino. E em seu caso, o ponto de vista único da vivência individual inalcançável ao outro, ela gera outro centro de gravidade onde o poder que gera a experiência não pode ser dissociado da protagonista. Ninguém em MBB narra além do corpo de Michelle. Um corpo vivo, autodeterminado, que afeta, confronta, denuncia e vivencia um mundo real sem espaço para o silenciamento.

É certo que os Museus Modernos herméticos podem estar fadados a autofagia e degradação. Cada vez mais a Arte relacional de múltiplas narrativas deforma limites destas instituições austeras. Trabalhos de Arte como de Paulino e Mattiuzzi travam um debate imperativo que vem renovando a vida nestes espaços da Arte Contemporânea. Da conquista revolucionária vinculada a presença de seus novos ocupantes à investigação criteriosa de inventários e acervos. Corpos audazes e seus saberes formulando os novos conhecimentos que não deixarão pedra sobre pedra das concepções etnocêntricas falidas.

Sim, nestas horas, estar no Museu é Revolucionário.

 

CANDÉ COSTA

 

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school. Instagram @Africanizze | Facebook – Candé  Costa  http://www.cargocollective.com/candecosta

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