Crítica semanal Daniele Machado

Números importam

Números de público são exigidos para justificar orçamentos nas instituições e projetos de arte. Bons números de público = Boa gestão. Maus números = Algo não vai bem. Ao longo dos cinco anos de trabalho que venho realizando no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, onde comecei como estagiária voluntária e hoje atuo como curadora, o assunto números é um desafio permanente. Entre muitos debates sobre esta questão, me deparei com duas situações que me marcaram sobre o que definitivamente trabalhar para tentar se diferenciar. Em uma, foi feita a pergunta “Qual o impedimento de realizar uma exposição sobre Kandinsky no CMAHO?”. E na outra “De que adianta um evento experimental com desconhecidos em início de carreira quando se pode trazer 500 pessoas através de figuras já reconhecidas com público próprio?”. Essas duas perguntas me levam a outra:

Gerir pra quem?

Acho que é uma boa pergunta para pensar sobre instituições de arte, números e formação de público, especialmente as públicas ou que recebem algum financiamento público. Quais números de fato importam?

Em uma perspectiva histórica sobre a formação do pública de arte no Brasil, é importante resgatar aqui a trajetória do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A socióloga Sabrina Parracho Sant’Anna no livro Construindo a memória do futuro: uma análise da fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (2011) defende a diferença entre o MAM-RJ e os de São Paulo e Nova York, apesar das comparações superficiais. Enquanto os dois últimos tinham uma gestão que reafirmava a visibilidade dos profissionais já consagrados, o primeiro apostou em um projeto institucional que tinha o ensino como pilar, materializado em um dos três blocos do projeto arquitetônico do museu – o Bloco Escola -, junto a aposta em inserir no circuito os profissionais que iniciavam suas carreiras, muitas delas no próprio MAM-RJ e que hoje são referência na história da arte brasileira, como Sabrina cita, em especial, os Neoconcretos.

Essa aposta é um risco em vários aspectos. Requer sorte e alguns bons amigos que trabalham nas grandes mídias, para convencer o público não-especializado de que vale a pena vir conhecer artistas ainda periféricos, não consagrados para a história da arte. Requer mais tempo de trabalho por lidar com a inexperiência desde a escrita e a pesquisa dos projetos até a sua realização. Requer paciência especialmente no sentido didático, para não simplesmente corrigir os erros, mas ensinar como corrigi-los e porquê estão errados. Requer também abertura para se adaptar para as novas configurações de tempo, espaço e vivência, que podem levar, muitas vezes, a novos processos de trabalho. Inventados ali, juntos, de acordo com o novo que chega, invade e retira todas as certezas.

A deficiência dessa reflexão sobre números, projetos e a prática no cotidiano de produção na formação universitária dos cursos de arte é grave. Após décadas da constituição de sistemas e circuitos de arte no país, em que os cargos de gestão foram ocupados por pessoas ricas e apaixonadas por arte ou por pessoas de outras áreas que diante dos poucos cursos existentes no país se especializaram somente na pós-graduação, passamos pelo momento em que as primeiras gerações que de fato tiveram a sua formação voltada para esse ofício estão ocupando essas cadeiras. É uma vitória esses novos cursos universitários. Há um menosprezo geral em torno das artes sobre a formação universitária, mas ninguém fala para um engenheiro, um advogado ou um médico que qualquer um pode realizar os seus trabalhos. É necessário sim profissionalizar os sistemas e circuitos de artes, inclusive para tentar pelas brechas gerar novos empregos e dar conta das turmas que se formam em busca de vagas. E é necessário também que essa discussão esteja presente nesses cursos, em mais de uma disciplina, não dá mais para chegar alheio a esse debate complexo no dia a dia do trabalho. E, especialmente, no ponto de que gestão não é feita e pensada apenas por quem é o gestor, mas por toda a equipe das instituições.

Por fim, é claro que os números importam. Como chegar a eles é que está o desafio. Porém, que sejam números desejosos e felizes. Encerro este texto muito triste pelo assassinato de Matheusa Passareli, estudante de Artes Visuais da UERJ, artista, pesquisadora, ativista LGBTQI, que possuía um #corpoestranho em uma sociedade que excluí, destrói, agride e assassina a todos e todas que não se enquadram na norma. Infelizmente sabemos que a mobilização em torno da busca de Matheusa trouxe a informação de seu assassinato, mas a maioria dos corpos estranhos são dados simplesmente por desaparecidos e nunca mais serão encontrados por terem sido assassinado. Infelizmente esses números não importam.  Meus mais profundos sentimentos para sua família, que nem o direito a despedida do velório foi concedido. Força para todas e todos nós!

Matheusa presente! Hoje e sempre!

 

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

2 comentários

  1. Vai ver, é porque Kandinsky é um pintor de verdade, enquanto esses “artistas periféricos” são contemporanoides que ninguém aguenta e que só conseguem relevância em um espaço financiado publicamente como o CMAHO, sem preocupação com os números, sem real cobrança de performance?
    Tenho certeza que quando o CMAHO passar a expor artistas mais materiais, mais figurativos, mais realistas, mais autistas, mais até mesmo reacionários, mesmo que periféricos, os números mudarão. Afinal o CMAHO é muito bem localizado.

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