Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Exposição-Escola: entre a alucinação moderna e a educação contemporânea

O que é uma exposição? O que é uma escola?

Não bastasse o desafio que é tentar responder a essas perguntas individualmente, os curadores Frédéric Paul (França) e Paulo Miyada (Brasil) se propuseram a pensar o que seria uma “exposição-escola”. Alucinações Parciais reúne obras modernistas do Brasil e do Centre Pompidou no Instituto Tomie Othake (ITO) em São Paulo e configura uma tentativa inusitada de realizar um projeto expositivo a partir de questões da arte-educação (e não o contrário).

O Centre Pompidou possui um acervo de alcance universal e é a primeira coleção de arte moderna e contemporânea da Europa, sendo uma das maiores e mais importantes do mundo. A parceria com o ITO trouxe ao Brasil dez quadros considerados obras-primas da primeira metade do modernismo. Uma seleção que, cronologicamente, começa com Matisse (1900), abrange Braque, Kandinsky, Picasso, Miró, Delaunay, Man Ray, Klee, Dalí e fecha com Fernand Léger (1946).

Embora tenha caráter subjetivo e seja quantitativamente modesta, é um privilégio ter acesso a essa seleção. Não só porque estas obras realmente não costumam sair do Pompidou, mas considerando o contexto geral de desmantelamento da cena artística nacional, sobretudo com os recentes episódios envolvendo a sobretaxa exorbitante cobrada sobre obras de arte pelos aeroportos brasileiros[1]. Enquanto essa questão segue em aberto, vale à pena ir conferir estes “clássicos modernos”. Bem assim, de graça e graças a esforços mais-que-diplomáticos de ambas as instituições.

A seleção brasileira também é, de certa maneira, óbvia – não no sentido de que não envolveu cuidado e pesquisa, mas no sentido de que, compreensivelmente, está alinhada com a proposta de ser um recorte histórico, apresentando nossos cânones: Anita Malfatti, Segall, Tarsila do Amaral, Rego Monteiro, Ismael Nery, Cícero Dias, Flávio de Carvalho, Portinari, Guignard e Maria Martins.

Essas vinte obras são apresentadas em uma expografia panorâmica, sem obstáculos. Os trabalhos são dispostos um ao lado do outro na grande sala arredondada do segundo andar do ITO, criando uma linha contínua (sem início e sem final). Logo que entramos, vemos todas os trabalhos de uma vez. No entanto, produções nacionais e estrangeiras não se misturam na ordem sequencial. Então, embora estejam arquitetônica e temporalmente conectados, brasileiros e europeus parecem se olhar de longe, já que estão espacialmente organizados em núcleos geográficos.

E, claro, num primeiro momento isso incomoda. Mas é aí que entra o ineditismo desta expografia: no centro do espaço há uma arena com pequenas arquibancadas, concebida de modo a incentivar pausas, conversas e trocas. Ou seja, o meio-de-campo entre Brasil e Europa, o link (ou a falta dele) entre contextos, temas e técnicas, o diálogo moderno e/ou atemporal entre as obras, é a gente que faz. Nós, xs visitantes, é que estamos no centro da exposição. Percebemo-nos lá. A expografia é exatamente assim: ao ser aberta, dá abertura para que a gente mesmo pense e crie as relações entre as obras.

Portanto, retomando à questão inicial, a curadoria e o Núcleo de Cultura e Participação da instituição, nos respondem que uma exposição-escola é aquela que reafirma a vocação educativa dos ambientes artísticos. A arena que ocupa o espaço expositivo cria um híbrido de escola e museu, abordando a arte como linguagem expressiva e forma de conhecimento, nos oferecendo tempo e liberdade para reavaliar (e, por que não, rescrever) a história oficial das vanguardas modernas. Além disso, a exposição inclui em sua programação mais de 150 atividades educativas.

Não à toa, a primeira obra que vemos é “A estudante” de Anita Malfatti. Isto posto, fica evidente não apenas a sugestão de nos colocarmos na posição de educandos, mas também a lembrança de que a vanguarda significou, entre outros, o rompimento com a academia. Fica a provocação: se experimentação e ruptura são a base para a expansão do campo da arte, deveriam ser também para o campo da educação.

Detalhe_ A estudante_Malfatti

Anita Malfatti – A estudante.

Tarsila do Amaral está presente com “A feira II”, que decorre de sua jornada de “redescoberta do Brasil”, um dos motes do nosso modernismo. Vale a lembrança de que ela foi aluna de Léger em Paris e que, anos depois, o francês ganhou o grande prêmio da III Bienal de São Paulo em 1955. Ele está representado na mostra com o hipnotizante “Adeus Nova York”.

Detalhe_Adeus Nova York_Leger

Léger – Adeus Nova York.

Outro brasileiro que viveu na França, Rego Monteiro, com sua paleta terrosa e inspirações indígenas, participa com o imponente “Atirador de arco”.  Fazendo o caminho inverso, Segall – o estrangeiro mais brasileiro, aparece com o vivaz “Menino com lagartixa”. Portinari e Guignard não podiam faltar: “O lavrador de café” e “Léa e Maura” são obras-primas com rostos e corpos familiares.

Cabe destacar a escolha dos curadores pelas obras de Cícero Dias, Ismael Nery e Flávio de Carvalho, que exploram o delírio, o “Sonho Tropical”, a “Fábula”, o inconsciente, o enigma, a provocação religiosa e o “essencialismo”. Temas que, muitas vezes, foram eclipsados das narrativas mais tradicionais da modernidade brasileira.

Fechando o trio das três mulheres presentes na mostra, Maria Martins reina absoluta: “Tamba-Tanjá” é a única obra escultórica da exposição. Talvez, por isso, pareça um pouco deslocada na expografia (da mesma maneira como Martins esteve na historiografia da arte nacional durante algum tempo).

Entre os representantes europeus, Matisse abre o século já com ares fauve. Flutuamos para o cubismo que aqui, voil lá, não é representado por Picasso, mas por Braque, com “Natureza-Morta Com Violino”. O espanhol, por sua vez, comparece com “Arlequim”, que brinca, sem sorrir, de estar inacabado. Kandinsky vai abrindo caminho para a abstração e faz companhia para o “Rítmico” de KIee. Enquanto Delauney, fica (sempre) no meio, com sua “Torre Effeil”. O surrealismo está linda e ecleticamente representado com Miró, Man Ray e Dalí – de quem a exposição empresta o título: “Alucinação Parcial – Seis Imagens de Lênin Sobre um Piano”.

Se por um lado, a seleção das obras constitui uma viagem rápida (e, de fato, alucinante) pela primeira metade do século XX, por outro, a expografia nos permite tempo e nos convida à reflexão. Talvez, um espaço físico um pouco maior, iria dar aos visitantes mais respiro frente à densidade de trabalhos tão emblemáticos. Mas o desenho da exposição cumpre o que promete: colocar arte e educação no mesmo patamar. E, se por um lado, o vínculo estreito entre curadoria e educativo pode soar didático, por outro, atende uma demanda necessária no nosso país: a formação e o engajamento do público.

Alucinações Parciais se configura, portanto, como um todo ordenado e flexível no seu espaço. Ao articular funções polivalentes, é capaz de, ao mesmo tempo, acolher um recorte histórico tradicional (e necessário) e dinamizar questões curatoriais e educativas da atualidade.

[1] https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/ministerio-da-cultura-se-reune-com-anac-apos-tarifas-exorbitantes-cobradas-por-aeroportos-sobre-obras-de-arte.ghtml

 

Vista frontal das obras nacionais

Vista parcial das obras nacionais.

Vista parcial das obras nacionais

Vista parcial das obras nacionais.

Vista parcial das obras do Centro Pompidou II

Vista parcial das obras do Centro Pompidou.

Vista parcial das obras do Centro Pompidou I

Vista parcial das obras do Centro Pompidou.

 

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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