Camila Vieira Crítica semanal

Que tiro foi esse?

O mês de maio nem bem começou e já é possível determinar que o clipe de Childish Gambino: This is America, será um dos, se não o melhor, clipe do ano, por ser um dos poucos a engatilhar reflexões acerca do papel da mídia, da violência e da construção simbólica do negro na sociedade americana. A primeira cena do vídeo coloca em perspectiva um galpão, aparentemente vazio, uma cadeira e, sobre a cadeira, um violão. Em instantes, um homem: negro, careca, com barba, aparentando ter meia idade, se aproxima e, lentamente, se acomoda na cadeira, dedilhando o violão anteriormente assentado sobre ela. Alguns críticos atribuíram esta cena à gênese do Rock, do Blues, do Jazz e muitos outros gêneros musicais, cunhados pelas mãos de afroamericanos, convenientemente esquecidos; contudo, a semelhança do músico com o pai de Treyvon Martin, (1995-2012), adolescente morto por um vigia noturno, que supostamente o teria confundido com um ladrão, parece deter a narrativa mais correta sobre o que nos é apresentado.

A câmera, a partir de então, se aproxima de Gambino, que começa a dançar. Para muitos a expressão no rosto do cantor pode ter passado despercebida, contudo, a contorção que ele realiza alude a um personagem da série de animação The Boondocks, chamado Uncle Ruckus, um negro que profere falas racistas, quase um capitão-do-mato à gringa, fato que conflui com a vestimenta do cantor: uma calça de modelo idêntico ao uniforme dos Confederados, grupo surgido da Guerra de Secessão (1861-1865), para lutar contra a abolição da escravatura, cuja bandeira até hoje é usada em protestos fascistas, por suprematistas brancos. Já nos primeiros minutos de cena, portanto, é possível refletir que absolutamente nenhum movimento é aleatório: dentro da conjuntura do clipe, tudo possui um signo oculto. E não demora muito para a segunda alusão aparecer: quando o cantor se posiciona para atirar no músico, cuja cabeça fora recoberta por um capuz, sua posição corporal se iguala às retratadas nas reproduções de Jim Crow, personagem criado como um retrato cômico, performado por homens brancos realizando Blackface. A cena apresenta uma execução à queima-roupa, e, apesar da morte violenta, a arma é recoberta cuidadosamente por um pano vermelho, enquanto o corpo, que jaz ao fundo, é arrastado, às pressas, para fora da cena.

A seguir, se unem ao cantor alguns dançarinos, também negros, vestidos como alunos, – o que talvez possa aludir à experiência adquirida nas ruas, em contraste com o que é ensinado nos livros de história. O grupo segue com a coreografia, que ofusca a cena ao fundo: ao chão, duas galinhas, – uma de cor parda e outra de cor branca –, uma garota passando de bicicleta, também vestida com roupas de estudante, e dois meninos em pé sobre um carro: um deles segurando um fotocopiadora. Assim posto, é interessante refletir sobre veiculação dos corpos negros enquanto distração para uma realidade de extrema violência e insegurança vivida por estes mesmos corpos. Como mulher e brasileira que sou, é improvável não pensar sobre construção social da Globeleza: personagem criada para ressaltar a sensualidade da mulher negra – cor do pecado –, a fim de tornar consumível a nudez feminina, por meio da objetificação. A “exaltação” deste corpo feminino ocorre, porém, na mesma sociedade que lhe nega o direito ao aborto e que pouco se importa com os assustadores níveis de violência doméstica e estupro. Destituído do poder de sua própria narrativa, o corpo feminino está, portanto, submetido às narrativas que os grupos de poder – mídia – o atribuem.

O vídeo, não por um acaso, apresenta muitas cenas desconfortantes: há um suicídio, pessoas correndo de um lado para o outro, a presença de carros de polícia, automóveis em chamas, pessoas encapuzadas filmando, imóveis, as cenas que ocorrem abaixo, – o que remete à despersonalização dos indivíduos e aos acontecimentos registrados por anônimos nas redes –, além da aparição de um cavaleiro de vestes pretas, sobre um cavalo branco – simbologia da morte? Todos estes elementos aparecem após a passagem que faz referência ao massacre de Charleston, 2015, no qual nove pessoas negras foram mortas em uma igreja, por um homem branco. A confusão cessa apenas quando o cantor posiciona as mãos, desta vez vazias, de modo a mirar num alvo à frente, que não está na cena. Talvez seja necessário notar que todas as vítimas, até então, foram vítimas de pele negra, mortas a sangue frio, mas que o único momento no qual se esboça algum pânico é quando o alvo pretendido se torna indefinido. O último quadro, em zoom out, exibe a presença do homem encapuzado, vivo, sentado à cadeira, tocando o violão, enquanto Gambino dança sobre um carro de modelo ultrapassado; à direita da cena, em outro veículo, a rapper Sza. Aparentemente, esta cena é a mais difícil de contextualizar, mas, a leitura que faço a partir destes indícios, é a de que o personagem principal incorpora a figura do negro em diferentes épocas, não a real, mas a percebida socialmente, configurando um estereótipo que mascara, ofusca e mata os pretos de carne e osso, aqueles responsáveis pela construção histórica de países não só como os EUA, mas como o Brasil e tantos outros. Essa visão pode ser reforçada pela cena final, que apresenta este mesmo homem negro, outrora autor de tantas cenas violentas, sendo perseguido. O galpão claro é substituído por um caminho escuro, manifestando, ser este caminho, o caminho real percorrido pelas pessoas de pele negra no mundo: aquela realidade feia, que ninguém deseja mostrar.

IMAGENS

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Comparação – cena do clipe ao lado da foto Tracy Martin, pai do jovem assassinado por um vigia noturno na Flórida, quando comprava doces numa loja local.

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Comparação – expressão facial que denota similaridade .

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Comparação: Posição corporal que denota similaridade entre o contexto narrativo do clipe e a ilustração de Jim Crow, criado no ano de 1900 por Thomas D. Rice.

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Figura 4.

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Figura 5.

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CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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