Crítica semanal Ton Almeida

Coletivismos híbridos e lutas simbólicas – Parte 2

“O ofício de arquitetar, de calcular efeitos, de planejar ações como quem planeja uma campanha de marketing, uma invasão, um assalto ou uma festa-surpresa, de pensar nos mínimos detalhes, de aplicar seu virtuosismo e conhecimento estético em minúcias que às vezes podem fazer grande diferença, de pensar ações que fujam do óbvio por terem justamente sido pensadas e calculadas, é o que pesa.

O ativismo brasileiro muitas vezes incorre na obviedade, da mesma forma que boa parte da arte que se diz política. Uma mensagem eficiente pode ser passada sem necessidade do panfletarismo rasteiro. Muitas vezes um conceito bem pensado e realizado pode dizer mil vezes mais que uma barulhenta passeata.

Se criadores de agências de publicidade podem burilar conceitos a serviço de um sistema que usa a criatividade para vender sabão em pó, por que os coletivos de artistas não podem fazer uso de conceitos de uma forma tão ou mais inteligente que as tais “indústrias criativas”?”

Notas sobre o coletivismo artístico no Brasil
Ricardo Rosas

Coletivismos são estas aglomerações de corpos pensantes e atuantes que ocorrem de modo espontâneo ou programado, influenciados por algum “sacolejo social” ou pela proposição de um programa de ações. Não é coisa tão recente quanto aparenta mas de tempos em tempos é reformulado seu uso e a opinião pública supõe que isto é um novo surgimento da prática. Tanto nas Artes Visuais como em outras linguagens e manifestações, existe uma “tradição” de organização coletiva quando se faz necessário amplificar discursos e gerar solidariedade para alcançar um objetivo comum.

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Movimento Anti-Globalização em Seattle, 1999

O que mudou na virada do século foi uma maior apropriação deste conceito de hibridismo dentro destes organismos. Talvez influenciado fortemente pela cultura política surgida após as manifestações anti globalização que ocorreram em Seattle (1999), na qual houve a convergência das mais diversas bandeiras e pautas associada a uma “nova estética de luta”. A coisa vazou para além da tradicional luta da política institucional, partidária e sindical, e se contaminou de uma ética mais relacional de grupos que tiveram seus discursos soterrados pelos políticos profissionais e a militância tradicional. A mistura proposta neste bojo aglomerava conhecimentos e táticas de campos distintos e pouco relacionais até o momento botando na salada linguagens artísticas, novas táticas de comunicação, hackeamento do uso de dispositivos tecnológicos, maior inserção de múltiplos discursos identitários, “manifestejos” que quebram a lógica da caretice das manifestações já defasadas em suas execuções. Esta salada não surge do nada e remete a uma percepção política referente as transformações culturais ocorrida a partir de 1968.

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Maio de 1968.

Existem dois problemas táticos que aparentemente estão começando a se tornar mais incômodos, ou perceptíveis, nos últimos anos e têm cada vez mais sido discutidos e revisados. O primeiro é um problema de classes e diz respeito a apropriação destas práticas e discursos mais exclusivamente pela classe média e seus representantes, o que faz com que tanto a lógica coletiva como a utilização dos temas, recursos e linguagens acabem por equacionar a balança pendendo para situações de caráter pequeno-burguês, favorecendo um recorte específico de classe e perpetuando a lógica opressiva que queremos combater. Isto não quer dizer que a margem do jogo não teve direito a sua fatia, mas que é óbvio que as táticas e informações chegaram primeiro aos que têm privilégio. O que tem mudado é que a periferia está atenta e com mais entendimento do seu lugar de fala e querendo tomar de assalto o que lhes é seu por direito.

O segundo problema diz respeito a lógica ativista que acabou por reduzir a atuação política ao conceito de atividade pontual de lutas específicas sem pensar numa construção de base contínua. Não adianta estar nas ruas pelo período da atividade em jogo, a construção tem que ser gradual e avançar dentro de um proposição estratégica, de preferência em rede e objetivando gerar o dialogo entre os mais diversos grupos. Neste sentido tem se construído todo um rebuliço por se afirmar a continuidade dos processos e buscar uma maior consolidação das propostas, partir de uma maior apropriação dos discursos para que não se esvaziem em contradições na prática cotidiana.

REFERÊNCIA:

ROSAS, Ricardo. Notas sobre o coletivismo artístico no Brasil. Disponível em: <http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2578,1.shl&gt;

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TON ALMEIDA é artista multimídia, educador, produtor e gestor cultural. Desenvolve, individualmente e em sistema de colaboração com outros artistas, trabalhos de perfomance, instalação, intervenção urbana, que transversalizam técnicas e discursos referentes ao cinema e as artes visuais. Tem interesse nas relações entre memória, identidade, cinema expandido, performatividade, paisagens, território, envolvendo a prática comunitária como ferramenta de luta social.

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