Candé Crítica semanal

Sobre Paredes e Tintas

Tinha uma galera na década de 80 na arte brasileira bem brancona aqui do Sudeste brasileiro que mandava uma nova onda na produção de imagens. Claro, a real do país era aquela de pós anistia, fim da ditadura, década de 80 pesadona que acabou virando em Collor de Melo. Mas a “Geração 80” de artistas foi definida como aquela que pintava motivada pelo “prazer da pintura”. Não é uma unanimidade, tem gente que acha super válido ter uma arte diversa ao ponto de ir além da pura reprodução do panorama político brasileiro e outros só vão na ideia deles serem pelegos mesmo. Daqueles que se venderam ao terrível aparato da arte comercial.

Enquanto isso a pintura da Beatriz Milhazes (geração 80) é vendida por mais de 2 milhões de dólares na Sotheby’s.

Abstrair não é um crime e subalternizar a Arte aos processos Políticos é um derivativo incompleto. É uma manifestação de autonomia frente aos padrões sociais. Uma liberdade Norte inerentes ao conhecimento. Um movimento que permite liberdade de criação e pesquisa artística. Um circuito com suas próprias determinações. São invasões imagéticas com propostas visuais imersivas que conduzem a novos paradigmas. E estamos acostumados a sermos invadidos na paisagem urbana brasileira. Como no caso do “Pixo”.

Sim, pichação (não falo de grafite). Os grafismos quase que hieroglíficos estampados forçosamente nas fachadas de quase toda cidade do planeta. Atividade encarada como crime de invasão a propriedade. Invasões utilizadas como elemento fundamental ao trabalho da pichação quando envolvido com as palavras de ordem e mensagens gráficas que questionam a propriedade privada denunciando iniquidades. Mas vamos além. Pichações políticas são públicas, destinadas a compreensão e diálogo com o máximo de pessoas que as alcançarem visualmente. Pichações também demarcam território e abrangência do poder demarcador envolvido. Estas demarcações urbanas são imemoriais e nascem junto com a urbe. Mas e os códigos gráficos como carimbos espalhados por fachadas em locais dos mais impensáveis? Imagens que inserem “assinaturas” e marcas individuais e dialogam apenas com aqueles “iniciados” na prática da pichação. “Assinaturas” que vão se espalhando pelas cidades, pichadores notórios por estampar sua marca nos locais onde só os alpinistas mais corajosos e temerários ousam chegar. Não ocupam galerias nem tem seu trabalho rentabilizado. Mas contamos com pichadores de trabalho e dedicação impressionantes com marcas por várias cidades e em tantos locais que tornam suas marcações quase onipresentes. São artistas como Ão, Zezão, grupos como Northe Um, que tornam a prática um dos elementos mais férteis da arte urbana hoje.

Um espaço paralelo onde invasões estéticas tem seu próprio sistema de valoração e crítica. Com seus próprios vencedores e avanços e intencionalidades também. Dentre pichadores é comum a vontade da violação de padrões e limites sociais. Ir além dos muros como a explicitação da negação de autoridade e da presença de códigos urbanos onde as normas são incapazes de acessar. Sendo assim, é um espaço possível pra Arte e crítica?

Certo é que as invasões da pichação urbana são elementos fundamentais do trabalho de inúmeros artistas em várias camadas. Certo também é que os pichadores não solicitaram nossa presença crítica ou a reivindicação dos espaços de arte contemporâneos – pelo menos por dentro como vimos na Bienal de São Paulo de 2008. Na verdade, sua permanência como um movimento presente nas ruas das cidades há décadas mostra sua imperecibilidade e resistência.  Alguns conflitos entre pichadores e galeristas em São Paulo em 2012 evidenciam o desinteresse dos pichadores de serem apropriados pelo Mercado de Arte. A Arte usa todo o planeta ao redor como um recurso de imagem. São estes grupos independentes, quase herméticos, como dos pichadores, que apresentam limites bem visíveis à Arte. Limites na capacidade de imersão nos códigos iniciáticos do “pixo”. Limites na utilização das imagens das invasões em fachadas urbanas. A não padronização de elementos formais que crescem em diversidade em renovação criativa submetida as regras próprias.

A Pichação risca nas paredes, pra todo mundo ver, os limites daquilo que a Arte não pode apropriar. Onde só os olhos acessam com curiosidade as formas de um cotidiano múltiplo, complexo, sempre carregando em si um elemento desconhecido nos padrões cinzas das cidades. A arte hoje é global. Mas nem ela com o “pixo” tem vez…

CANDÉ COSTA

 

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s