Crítica semanal Daniele Machado

Os Kaxinawa, Ventura Mina e a Princesa

“Os Kaxinawa não estocam a sua produção artística; estão convictos, como muitos outros povos ameríndios, de que objetos rituais perdem o seu sentido e a sua beleza, a sua ‘vida’, depois de usados. Se durante o ritual o banco é belamente pintado e pode somente ser usado pelo(a) inciando(a), depois ele se torna um simples banco, com a decoração desaparecendo lentamente, podendo ser usado por qualquer homem […] entre os Kaxinawa e muitos outros povos ameríndios, o mais importante na vida de um objeto não é que sobreviva a seu produtor ou usuário, mas que desapareça junto com ele: assim como pessoas e outros seres vivos, o objeto tem o seu processo de vida, que acaba com o envelhecimento e com a sua destruição. Às vezes, este processo ocorre pouco depois da sua fabricação, outras vezes não. Mas um objeto em geral não sobreviverá a morte do seu dono. Os objetos “morrem” e, na floresta amazônica, costumam cumprir este destino com uma velocidade muito maior que em outros contextos etnográficos. Quando o corpo se desintegra e a sua alma tem de partir, tudo a que lembra o dono e que pode provocar o seu apego precisa se dissolver ou ser destruído” (Els Lagrou em A fluidez da forma: arte, alteridade e agência em uma sociedade amazônica, 2007, páginas 52-53)

Por vias indesejadas, em 2011 foi reencontrado o Cais do Valongo. As escavações eram parte das obras que prometiam revitalizar a região do Porto do Rio de Janeiro. Já sabemos parte da história que nos custou a realização da Copa e das Olimpíadas na cidade (a outra parte quem sabe um dia…), mas esse texto não é sobre isso. É sobre, pelas vias indesejadas, como foi descoberto um sítio arqueológico da maior importância para nós. Desde lá tivemos as maiores expectativas. Em 2013, O Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), descoberto em 1996, considerado por alguns pesquisadores como o único cemitério de escravos das Américas, passou a receber um pequeno aporte anual da Prefeitura que não garantiria funcionários, mas já cobriria despesas “básicas”. O Cais do Valongo foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como Patrimônio da Humanidade em 2017. No mesmo ano, o IPN ficou desamparado da pequena verba repassada pela Prefeitura. Sexta-feira passada, dois dias antes dos 130 anos da Lei Áurea, circulou a notícia de que o Cais do Valongo pode perder o título, caso a Prefeitura não realize os atos a que se comprometeu com a UNESCO.

Reparar os danos causados a nossos ancestrais por toda a tortura, sequestro, cárcere privado e genocídio, é uma missão impossível. Para tamanha dor não há ação capaz de corresponder. Mas, existem alternativas que podem amenizar o inacreditável. Hoje, 130 anos depois que a Princesa assinou a Lei Áurea, vivemos o pouco esforço do Estado para essa reparação. Não houve políticas de inserção da população descendente de escravos na educação, no mercado de trabalho, no acesso a renda, terras e moradias. As cotas para o ingresso nas universidades não passam perto do necessário. Mas, quero tocar aqui em um ponto específico, o Patrimônio. Este, que legitima a História, distribui pelo território os marcos dos grandes personagens que “marcam” e determinam a vida de toda a população (com raras exceções, todos homens e brancos).

A citação que inicia esse texto, é parte da pesquisa da antropóloga Els Lagrou sobre o povo indígena Kaxinawa. Els faz uma abordagem sobre a relação deste povos e alguns outros da Floresta Amazônica em relação aos objetos: não se pretende a sua sobrevida, a preservação a qualquer custo. Não apenas não interessa, os objetos são abandonados, destruídos após seu uso em rituais ou após a morte de seus donos.

Não apenas nossos ancestrais africanos não tiveram no presente a mínima reparação: os indígenas também. Em 2014, Ninawa Huni Kuin uma liderança dos Kawinawa, cobrava da Fundação Nacional do Índio (Funai) a proteção dos povos indígenas que vivem isolados. O Estado fez pior. Não realizou nem a míseras medidas de reparação, mas toma as terras, as casas, assassina e mantem os genocídios. Se a maior parte dos esqueletos identificados no sítio arqueológico do IPN são de homens com idade entre 18 e 25 anos, também é esse o perfil do genocídio que segue ocorrendo no país: a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado. Ontem se completaram dois meses do assassinato da vereadora Marielle Franco.

A tarefa de escovar a História a contrapelo, a que convoca Walter Benjamin, para construir novas narrativas a partir dos escombros, ruínas, dejetos, fragmentos e destruições tem aí duas possibilidades. Abdicar de forma radical da memória dos objetos ou a luta por outro patrimônio, que não seja o patrimônio da cultura burguesa, mas sim um patrimônio da resistência. Abdicar dos objetos ou lutar por um patrimônio que represente as narrativas da maioria da população? Não sei optar. Mas escavar em busca dos vestígios do passado é uma exigência, é uma luta a que devemos nos engajar. Um exemplo. Que tal o 13 de maio de 1888 da Princesa ser substituído pelo de 1833 de Ventura Mina? Não aprendemos sobre essa data na escola, né? Vá pesquisar sobre a Revolta das Carrancas 😉

 

Foto: Fabio Motta/Estadão

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

 

 

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