Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Eu ouvi “amém!”, irmãos e irmãs?

Como se não bastassem todos os ataques a espaços e fiéis de religiões de matrizes africanas que temos acompanhado nos últimos tempos, arrastou-se durante esta semana uma “polêmica” com o Padre Fábio de Melo que “ironizou macumbas” durante um sermão. Na pregação (que foi gravada e disponibilizada no canal oficial da Canção Nova no Youtube) ele disse: “com todo respeito a quem faz macumba, pode fazer, pode deixar na porta da minha casa que, se estiver fresco, a gente come”. Depois de levar fiéis e colegas de batina às risadas, completou: “se você acredita que uma galinha preta na porta da sua casa, com um litro de cachaça e uma farofa de banana tem o poder de trazer destruição, você não conhece a força do Cristo ressuscitado.”

Do lado de cá do altar, estamos cansados de saber que padre nenhum vai querer cachaça e farofa, porque vive com a barriga cheia de pão e vinho. Então, “ironia” é o que eu acabei de dizer. O que o padre “mais famoso do Brasil” fez, tem outro nome: intolerância religiosa. E não teve outro jeito: ele foi se desculpar. Fábio de Melo pediu perdão “a todos que se sentiram ofendidos”, mas o estrago já estava feito.

Essa ladainha é só para lembrar que a discriminação contra tudo que não é branco-cristão é tópico recorrente no Brasil. Há 518 anos lidamos com essa caça às bruxas que (além das próprias) inclui as religiões afrodescendentes e, sobretudo, os povos nativos. E, nesse caso, não estamos falando apenas de discriminação, mas de dizimação. O documentário Ex-Pajé, em cartaz nos cinemas nacionais, traz uma visão renovada, cuidadosa e (por incrível que pareça) bonita sobre os temas da intolerância religiosa, do etnocídio e da conversão forçada de povos indígenas.

Dirigido por Luiz Bolognesi, o longa abre com uma definição de etnocídio: “não é a destruição física dos homens, mas do seu modo de vida e pensamento”, deixando evidente que diz respeito ao extermínio de uma cultura, mais do que à matança de corpos. Mas sua estrutura narrativa não configura um muro de lamentações. Pelo contrário, essa é uma história de resistência – silenciosa, porém, perene.

Como quem senta na margem de um rio e observa a correnteza, acompanhamos o percurso de Perpera, o pajé da tribo Paiter Suruí, localizada em Rondônia. No seu próprio ritmo, ele nos conta que antes da chegada do pastor evangélico, as pessoas o procuravam quando precisavam de conselhos, de proteção, de cura. Mas desde o estabelecimento da igreja neopentecostal no local, seus conterrâneos trocaram as ervas pela aspirina, os rituais pela vacina e ninguém mais lhe dirigiu atenção desde que o pastor disse que “falar com os espíritos da floresta é coisa do demônio”.

Perpera não teve outra saída: “aceitou Jesus”, vestiu a calça social, a blusa branca de botões e calçou os sapatos. É ele quem abre e fecha a igreja. Enquanto lá dentro, os outros indígenas cantam em coro “Jesus é maravilhoso, ele salva, ele cura”, o (agora ex) pajé se senta na porta. Embora esteja em primeiro plano, está desfocado no enquadramento. Embora o pastor esteja pregando, ele está com o rosto virado, observando a natureza lá fora.

Estamos diante de uma comunidade que, no instante do corte de uma cena para outra, passou do contato exclusivo com a natureza à comunicação com as tecnologias contemporâneas e à “descoberta” de que suas almas precisavam ser salvas. Os Paiter Suruí dirigem caminhonetes, cuidam da agricultura usando roçadeiras, preparam refeições no fogão a gás, têm máquinas fotográficas, celulares e acesso à internet – que usam para jogar, interagir e denunciar a invasão de madeireiros nas terras demarcadas. Longe de fazer um juízo de valor sobre estarem melhor ou pior depois da chegada dos brancos, a montagem revela uma noção dinâmica de cultura. Por exemplo: d manhã, vemos um pai que atira em um macaco e acerta o alvo de primeira. À noite, enquanto os adultos jantam a carne, a criança brinca com um jogo de caçador no celular. Ela dá zoom na pequena tela e mira no animal para matar.

Logo no começo do filme, o pajé recebe pelo correio a tese de um antropólogo que havia ido à tribo realizar uma pesquisa. No entanto, a tese está toda escrita em francês. Perpera, que não fala português, sabe muito bem o que aquele estudo significa – que ele foi objeto e não sujeito de sua própria história. E é justamente esse erro que a decupagem e a montagem bem pensadas de Bolognesi não reproduzem. Não há nenhuma cena de depoimento: talking heads não existem neste documentário. A narrativa dos fatos se dá no diálogo entre os próprios personagens e no silêncio das tarefas do dia-a-dia. Porém, há sim o uso de alguns recursos ficcionais: planos de detalhe, ações antecipadas, enquadramentos “perfeitos demais”. Certamente, a equipe de filmagem estava ali: é impossível ignorar sua presença na narrativa. E, em termos cinematográficos, mesmo hoje em dia, isso é uma proeza: explicitar um ponto de vista sem se sobrepor à realidade que se registra. Que bom que estamos encontrando alternativas bem resolvidas (tanto de estética, como de linguagem) para a velha questão da objetividade no documentário.

A montagem paralela é outro recurso explorado de maneira inteligente. Nessa trama subjacente, conhecemos a indígena Kabena Cinta Larga. Ela cuida da roça e das crianças, cozinha e vai à igreja. Um dia, é picada por uma cobra e, como não reage ao tratamento médico, sua família resolve recorrer ao xamã. Ele, de imediato, adverte: “o pastor não vai gostar”. Mas não há como negar: o encontro com a morte nos reaproxima da (nossa própria) natureza. O pajé pode até trocar de roupa, mas nunca deixa de ser pajé. Os conhecimentos e os espíritos não lhe abandonam. Não é à toa que Perpera tem medo de escuro. Ele admite, sem vergonha nenhuma, que só consegue dormir de luz acessa.

Desmoralizado pela autoridade evangélica e desautorizado pela autoridade médica, o xamã parece ser o único a entender que o papa é pop, mas tudo que a cobra pica, morre – a não ser que outras sensibilidades entrem em cena. Tem gente que expulsa demônios de corpos. Tem gente que expulsa corpos de terras. Mas tem gente que consegue uma proeza ainda maior: expulsar os índios de sua própria identidade. Há os que levam os índios para igreja e há os que levam os índios para a bienal.

É “documentário, filme de índio, chatice antropológica…”. As aparências engam e Ex-Pajé é um ótimo filme, delicado e necessário. Acima de tudo, humano. Já levou menção honrosa em Berlin e ganhou o prêmio de melhor filme no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Eu ouvi “amém”, meus irmãos e minhas irmãs?

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Ex-Pajé (Reprodução/Divulgação).

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Ex-Pajé (Reprodução/Divulgação).

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Ex-Pajé (Reprodução/Divulgação).

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Ex-Pajé (Reprodução/Divulgação).

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Ex-Pajé (Reprodução/Divulgação).

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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