Camila Vieira Crítica semanal

A simbologia do Cabelo

Num primeiro momento, foi impossível interpretar se a coleção de objetos expostos na mostra “Luz com Trevas” poderia configurar uma instalação, um site specific ou se todos eles formavam núcleos separados que, uma vez unidos por um tema, formariam uma coesão com o mote proposto pelo título. Notei, após essa primeira confusão, que todas as alternativas estavam corretas. Curada por Lisette Lagnado, essa “antiexposição”, realizada no Espaço Cultural do BNDES, acompanha o glossário alegórico do artista Cabelo, ao longo de suas mais de duas décadas de produção. Compositor, cantor, artista visual e, segundo a biografia descrita no catálogo, criador de minhocas, Cabelo é, sem sombra de dúvidas, um artista que tem como linguagem a mistura de gêneros musicais, credos, cores e signos, todos necessários para a criação de uma obra que, mesmo em circunstância de retrospectiva, não possui linearidade, mas entrecruza, muito claramente, diga-se de passagem, todas as influências socioculturais que acompanharam o desenvolvimento e a construção do estilo  que o artista manifesta.

Ao descer as escadas do hall principal, pois a sala de exposição está no subsolo, o visitante consegue visualizar que a cor predominante do espaço expositivo é o vermelho, e que os vídeos, os sons e os objetos dispostos ao longo do salão ou formam um contexto religioso, ou sexual. Outrossim, é possível notar que muitos dos diálogos travados entre os diferentes núcleos, – nenhum deles separados por paredes –,  têm um quê de rua e de manifestação contra a opressão de classes, porém a questão religiosa, – acentuada pela presença dos Exus –, é a tese de maior destaque. Segundo a tradição do Candomblé, para haver conhecimento, a mediação de seres superiores, que habitam os reinos espirituais, se faz necessária. Deste modo, o Exu, entidade que entende todas as línguas, que abre os caminhos e que tem o sêmen da vida, encarna o mensageiro, o conhecedor e o Ente fecundo incumbido de orientar a humanidade. Por sua vez, a apropriação inevitável promovida por meio do sincretismo cultural, legado pela Igreja Católica, pintou essa figura como similar ao Diabo: foi a Serpente, personagem cristã do Mito da Criação, que incentivou Eva a comer o fruto proibido, sendo a serpente, portanto, a responsável pela expulsão do casal primordial do Éden. Devido a essa contradição, há muitas representações de Exus e de serpentes ao longo da exposição, que, como o título elabora, são símbolos concomitantes de luz e de trevas, perfeitos exemplos para destacar que desde as cavernas, o nosso mundo é um mundo simbólico.

Os diversos “ovos-bomba” e as camuflagens – presentes desde os tapetes pendurados até as barracas de campanha dispostas no circuito –, têm a ver com a construção dos mitos de criação e destruição, uma vez que o ovo é o símbolo máximo do nascimento, do novo, da vida que está por vir, mas que também pode servir de casulo a criaturas peçonhentas e a surpresas indesejadas. A Grande Explosão, teorizada pelos cientistas,  foi a responsável pela existência de milhares de astros, estrelas, galáxias e, consequentemente, de ambientes favoráveis ao abrigo de sistemas orgânicos. Entretanto, explosões também podem devastar, suprimir e impedir a existência, sendo a morte e aniquilação, uma das faces desse Caos necessário ao Cosmo, como explica a Física Quântica. Para haver estabilidade, é necessário a instabilidade; para haver luz, é preciso trevas; para a vida, a morte. Mediante a confusão surgida devido a essas composições nucleares que se entrecruzam na exposição, os sentidos são chamados à superfície, inevitavelmente, os padrões, as analogias e a bagagem cultural do visitante entram no debate, configurando uma das exposições mais didáticas que eu pude visitar, sem necessidade, contudo,de um texto de parede sequer.

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

 

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