Carolina Lopes Crítica semanal

Colo de mãe e a virada sobre a desventura

“Eu nunca me senti amado não. Eu nunca tive essa experiência de ser amado, assim totalmente, não.”

Ouvi, ao som da voz de Farnese de Andrade, suas frases que, ininterruptamente ecoam, após a experiência de Farnese de Andrade – Arqueologia Existencial, curada por Marcos Lontra.

A sala é grená; as bases dos trabalhos, rosa. Tudo extremamente escuro e as luzes, pontuais: revelam em cada trabalho de Farnese, vida e morte. Como se entrasse em uma sala de teatro, pronta para assistir uma peça, tanto macabra, quanto sedutora, penetrei o universo denso desse artista. Objetos sobre objetos, corpos sobre corpos. Cada objeto, previamente carregado de história e de memória, está também impregnado com a poética obscura de Farnese. Em uma materialidade que se sobrepõe todo o tempo, tive o espaço invadido por madeiras cheias de marcas, oratórios cheios de esperanças, ex-votos cheios de agradecimentos, bonecos cheios de infâncias. Todos juntos ali, à maneira de Farnese – tive medo.

“Eu fui incorporado por uma entidade, com a finalidade exclusiva de matar saudade daquele ambiente. Se você não aceita a morte como uma transição, o ser humano não pode ser feliz. Quando ele tem a consciência da morte, não há possibilidade de felicidade. Aquela história: a gente não chora a morte do ser que está morrendo, a gente chora a própria morte. A morte que a gente sabe que vai enfrentar.”

De certa maneira, completamente curiosa, me vi familiarizando com aqueles objetos. Enxerguei através, do horror das combinações, das queimaduras, dos aprisionamentos, daqueles bonecos sufocados. Numerosas tentativas de naturalização da morte, eu diria. Chegando a gerar certa aura em torno de seus personagens, partindo da resina como elemento de perpetuação, o artista explicita seu apego. Parece-me, numa insistência ingênua, quase infantil, querer parar o tempo, e aquilo que com ele vem: o fim das coisas e das pessoas. Ou minimamente, tonar isso, que é tão certo quanto doloroso, mais natural e corriqueiro.

“É uma opção, eu não quero de forma alguma, fabricar um ser humano. Eu não sou favorável à procriação não. Eu não acho que é covardia não, acho que é uma espécie de crueldade mesmo. Da minha parte, acho que é crueldade botar uma criatura no mundo. A intolerância que eu tenho por criança, é que a criança perturba… criança é um ser que perturba, um ser que incomoda. Criança é uma tortura né, uma tortura chinesa permanente pras pessoas adultas. Nunca, não teria filho de forma alguma.”

O quarto de uma criança – paradoxalmente, a exposição dos trabalhos de Farnese, parecem remontar esse espaço lúdico, onde esse ser – que é ali uma tortura chinesa permanente – está acompanhado dos seus ajudantes1. Gnomos, fadas, elfos, que o acompanham e, com magia, o ensinam a lidar com cada nova situação. De mãos dadas aos seus ajudadores, Farnese cria eixos, apresenta novas formas de existência. Propõe naquilo que não é, a possibilidade de um ser ideal: entre os irmãos, Cosme e Damião, ele sugere o Doum. Aquele que morreu. O trigêmeo que não sobrevive, mas está – uma existência de outra natureza.

Duas obras na parede, como um retrato de família. Estão ali, o pai e a mãe de Farnese. Sobre madeira, uma fotografia do pai e um ovo de resina, somente. Já a mãe, um retrato, em que o artista também está presente, refletido no espelho e, em uma visceralidade aguda, vermelhos, ferros contorcidos enfiados em madeira. Eram “anunciações”, gestações, a ideia da Vênus e dela, a origem. A grande buceta que, dentro de um grande oratório, é a maior peça da exposição. Imediatamente lembrei-me de A origem do mundo, de Gustav Courbet. Me dei conta da presença poderosa da maternidade, a qual reverenciei.

Como um taxonomista, Farnese aplica aos objetos, o gesto que desejara aplicar aos seus queridos. Macabro! – era o tom dos primeiros pensamentos envolvidos pela atmosfera pesada da poética do artista. Pensamento este, que logo deu lugar ao seu contrário: é por tamanha sensibilidade e afetação, que Farnese produz um mundo onde tudo o que pode ser negativo, já é. Ele antecipa as desventuras. Às anuncia, e as produz. Como numa pegadinha, às surpreende, antes de, num golpe, ser surpreendido por elas.

“A ideia do poliéster, pra mim, seria realizada totalmente se eu conseguisse aprisionar pessoas que eu gosto, dentro de blocos enormes de poliéster e definitivamente perto de mim.”

Deixei o quarto de Farnese e todos os seus ajudantes, com um desejo, único e forte: se assim fosse possível, pegaria-o no colo, acalentaria-o e, passando a mão em sua cabeça, confortaria-o explicando sobre as desventuras da vida.

  1. AGAMBEN, Giorgio. Profanações. Ed. Boitempo, 2007. Pág. 27-32.

 

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Farnese de Andrade – Arqueologia Existencial, 2018.

Foto: Leonardo Ramadinha.

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Farnese de Andrade – Arqueologia Existencial, 2018.

Foto: Leonardo Ramadinha.

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Farnese de Andrade – Arqueologia Existencial, 2018.

Foto: Leonardo Ramadinha.

 

 

CAROLINA LOPESCAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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