Crítica semanal Ton Almeida

Coletivismo híbrido e lutas simbólicas – FINAL

 

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Batalha da Castanhola promovida pelo Coletivo Natora.

 

Talvez a maior novidade nas proposições artísticas de caráter coletivo nos últimos anos trata-se de uma participação mais ativa de outros recortes de classe, bem como de outras representatividades discursivas. A hegemonia esmagadora que usa e se apropria dessas ferramentas e tecnologias sociais ainda se refere ao tradicional público cativo dos circuitos, mas é cada vez mais vertiginoso o crescimento de coletivos e redes colaborativas oriundos de periferias, que tratam de assuntos relacionados aos cotidianos e realidades das comunidades em que estão inseridos.

Em São Paulo existe uma coalizão dos trabalhador@s da cultura por entender como se operacionaliza o orçamento público da cidade, e a partir deste entendimento interferir na lei orçamentária anual como modo de gerar mais incidência de políticas públicas que possam atender, por exemplo, demandas específicas dos artistas e coletivos de periferia.  No final do ano passado trabalhadores da cultura da cidade do Rio também começaram uma coalizão deste caráter, com o auxílio dos companheiros de SP, para buscar modos de reagir ao ataque sistemático operacionalizada pela gestão do Bispo Crivella.

Também de SP é a experiência citada no livro “Pedagoginga: Autonomia e Mucambagem” de Allan da Rosa, na qual o autor busca entrelaçar conhecimentos da sua ancestralidade afrodescendente a uma pedagogia de caráter orgânico, onde são gerados encontros inusitados a partir de oficinas e cursos que geram pontes, como é o caso de uma das propostas experienciadas que trata do encontro entre “Literatura, Futebol de várzea e Capoeira Angola”, apontando para um hibridismo temático que vem sendo desenvolvido da relação entre o corpo e a aventura da literatura marginal.

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Os sarais e batalhas também tem sido uma expressão coletiva com forte proliferação em todo Brasil, influenciados em parte pelo surgimento das batalhas de Slam Poesia, as quais reaqueceram as rodas de rua que têm origem no movimento hip-hop. Essas expressões e movimentos também são influenciados por momentos históricos como o das ocupações das escolas públicas, irradiadas em 2016 pelo Brasil. Essa retomada das ruas e surgimento de coletivos reivindicando o direito a cidade à partir de suas pautas identitárias também mantem relação com políticas públicas voltadas para a periferia como a criação de pontos de memória, pontos de cultura e centros culturais direcionados para a juventude em territórios afetados pela violência. Apesar do baixo investimento e da falta de atenção prioritária por parte do estado, percebemos que nos últimos anos diversos coletivos estão surgindo como respostas de projetos sociais, muitas das vezes para sanar deficiências e fazer críticas institucionais, revisando a fórmula que lhes foi aplicada e exigindo mudanças com uma rebeldia mais aflorada.

Em Fortaleza, cidade da qual escrevo, é notória a agitação cultural que estes coletivos tem promovido e como ao passarem a assumir responsabilidades, pautarem lutas, ocuparem espaços, instauram um conflito necessário dentro dos circuitos instituídos. Os corpos em cena são outros e o simples fato de terem espaço reconfigura o que está em jogo. Fazem parte desta leva coletivos como o “Bomja Roots”, “Grupo Teruá” , “As nega”, “Na Tora”, “Raízes da Periferia”, “Aqui tem sinal de vida”, “Coletivo Servilost”, “Foi sal”, “Grupo Nóis de Teatro” dentre outros tantos que ululam das margens e criam redes de colaboração para ressignificar a luta cotidiana.

 

REFERÊNCIAS:

DA ROSA, Allan. Pedagoginga, Autonomia e Mucambagem. Disponível em: <https://issuu.com/tramas.urbanas/docs/pedagoginga&gt;

 

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TON ALMEIDA é artista multimídia, educador, produtor e gestor cultural. Desenvolve, individualmente e em sistema de colaboração com outros artistas, trabalhos de perfomance, instalação, intervenção urbana, que transversalizam técnicas e discursos referentes ao cinema e as artes visuais. Tem interesse nas relações entre memória, identidade, cinema expandido, performatividade, paisagens, território, envolvendo a prática comunitária como ferramenta de luta social.

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