Candé Crítica semanal

O “Filme do Século” que você ainda não viu

Você conhece o Spike Lee? Não, ele não é chinês. Não, ele não descende do Bruce Lee. Ele é muito mais poderoso! É o cineasta estadunidense consagrado, um dos que instituíram o be-a-bá do cinema negro afro americano – pro planeta. Seus trabalhos, influenciados profundamente pela arte negra americana – ele já abertamente assumiu admiração e diálogo com Basquiat, Toni Morrinson, Edy Boone e Terry Dixon –, elevaram as narrativas negras ao mainstream da crítica cinematográfica.

Vou falar de “BlacKKKlansman”, seu trabalho mais recente, e não tem como explicar o porquê sem contar uma história. Spike foi sucesso de crítica desde o início, mas ganhou notoriedade com um curta metragem enxuto chamado “The Answer”, em 1980. O curta conta a história de um roteirista negro contratado pra reescrever o roteiro de “The Birth of a Nation” (O Nascimento da Nação, 1915),  filme fundamental à cultura estadunidense, o primeiro a ser exibido na Casa Branca, e que faz um evidente ode ao racismo e seus grupos promotores (a.k.a. Ku Klux Klan). O tapa na cara que o Spike deu com seu curta foi tão forte que a fuça branca americana rodou que rodou que até hoje não parou nem pra respirar. O debate promovido por Spike em seus trabalhos são fundamentais. Calçaram no senso comum alguns dos conceitos fundamentais ao panorama multiculturalista americano contemporâneo como vivência, local de fala, blackface, apropriação cultural e racismo institucional. Sinto a falta de um Spike Lee no Brasil todos os domingos ao ver blackface no Faustão ou todas as vezes que o eugenismo do Monteiro Lobato é esquecido por “conveniência”…

 

O Filme do Século que você ainda não viu

 

Spike Lee já estava no lucro com esse trabalho, mas ele continuou levando a complexidade estética produzida pela tensão racial histórica ao amadurecimento evidente em seus enquadramentos e fotografias inesquecíveis. Tanto em filmes ícone da cultura negra mundial (alguém lembrou de “Malcon X” de 1992? Também indico “Irmãos de Sangue” de 1995, “Febre da Selva” de 1991 e “Faça a coisa certa” de 1989), quanto em filmes que apresentam a estética do conflito de Spike Lee em outras linhas de transversalidade  – como a incrível homenagem após 11 de Setembro em “The Concert for New York City” ou no blockbuster “Old Boy” de 2013. São narrativas amadurecidas, com foco nos indivíduos, apresentando as tensões dos mesmos em novos contextos onde as dimensões de público e privado tornam-se fluidas frente à complexidade dos corpos contemporâneos. Uma visão que extrapola a fundamental questão racial, ainda com muitos tijolos a serem edificados quanto ao seu entendimento e extensão, e se situa no conflito presente dos corpos do agora. Corpos repletos de passado e confrontados com uma realidade sem as seguras narrativas cosmogônicas incontestáveis.

Tudo é um pouco antiguinho. Seus trabalhos de maior sucesso de crítica, os com foco na questão racial, tem mais de 20 anos. Mas Spike Lee tem uma trajetória consistente. Seus trabalhos se desenvolveram, assim como sua linguagem do conflito. Ele foi para as séries de TV, e desde já indico também a série “She’s gonna have it”, com uma protagonista artista negra e seus dilemas pessoais bem próximos aos corpos negros jovens urbanos. E agora produziu um novo filme que tem tudo pra estourar o planeta.

“BlacKKKlansman” é o novo filme abusado do “S.PAI.ke”. Fresquinho, do forno e que já causou rebu em Cannes  – falam que o filme é um dos mais relevantes da carreira dele –, o filme conta a história do policial Ron Stallworth, o negro que se infiltrou na Ku Klux Klan. Sim, a mesma do “The Birth of a Nation”. O mais legal é que “The Birth of a Nation tinha outro nome quando foi criado: “The Clansman”. “The Clansman”? “BlacKKKlansman”? Estamos entendendo? O trabalho do Spike Lee é um starter pack de como funciona a América. “BlacKKKlansman” desenvolve, agora em longa metragem, os temas do curta “The Answer”: a formação dos Estados Americanos como uma história de tensão racial fundamental. Uma tensão entre discursos de ódio e seus impactos à democracia.

“The Birth of a Nation” foi lançado na Geórgia, Estado estadunidense há poucas horas de Charleston, cidade da Carolina do Sul – estados vizinhos geograficamente –, local do massacre na igreja Metodista que vitimou 9 pessoas negras em 2017 e do atropelamento de ativistas pró igualdade racial com dezenas de feridos e um assassinado ainda no mesmo ano. Ambos ataques promovidos por grupos racistas contra pessoas negras. Ataques abertos de grupos fortalecidos pelas políticas austeras de Donald Trump, o presidente formado pelo Klan.

É uma afronta óbvia aos membros dos grupos racistas a história onde um homem negro e um judeu branco são suficientes pra superar todo Klan. O panorama racial, cenário instituído no imaginário mundial pelo cinema estadunidense, é ponto de partida de “BlacKKKlansman” que apresenta à comunidade internacional a fragilidade nas políticas austeras por todo globo fundamentadas em racismo e xenofobia (as fronteiras intergalácticas instituídas por Trump, o BREXIT inglês, as políticas agressivas com estrangeiros promovida na União Europeia como um todo são apenas alguns exemplos). Luta por território, recursos, mas principalmente pelo direito à liberdade, vida e cultura – historicamente arrancada com covardia das nações africanas e hoje estendidas ao tratamento xenofóbico dado aos imigrantes nos países mais ricos. Políticas baseadas em medo e privilégio, em falácias racistas e xenofóbicas, que se opõem às pesquisas científicas.

O momento não pode ser mais oportuno. Em nosso país vemos o fenômeno global dos discursos dissimulados, das fake news, que se utilizam do ódio cotidiano para mobilizar vontades sociais. Como Trump, presidenciáveis adeptos das políticas racistas fundamentais à construção do cotidiano brasileiro se fortalecem pelo ódio em vez do profundo debate dos problemas nacionais. O filme apresenta a fragilidade do discurso de ódio através em suas instituições: disfuncionais, frágeis, baseadas em medo e ignorância. Mesmo que o ódio tenha se mostrado poderoso, em Spike, a justiça é possível e depende apenas de um bom plano, aliados e uma boa dose de ousadia.

CANDÉ COSTA

 

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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