Crítica semanal Daniele Machado

As patas de vaca do Fundão

A coisa que mais me impressionou ao entrar no curso de História da Arte na EBA/UFRJ foi a arborização da ilha que carinhosamente chamamos apenas de Fundão. Com um jardim imenso e árvore pra todo lado em pleno verão, os cafés no 7° andar da reitoria antes das aulas às 7h da manhã me levavam às mesmas questões todos os dias: como existem tantas árvores e nenhuma com flores ou frutas. E, se a Baía de Guanabara fosse limpa, poderíamos ir a praia depois das aulas. Esse desejo é sobre a proposta de uma universidade. Implica  sociabilidade, beleza, estrutura para que os pilares ensino, pesquisa e extensão aconteçam. Esse é o sonho.

A Ilha do Fundão, é a junção de oito ilhas, localizadas no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro. As três maiores: Ilha do Bom Jesus da Coluna (Que hoje corresponde ao Centro de Tecnologia, a Faculdade de Letras e a base do Exército Brasileiro); A Ilha do Fundão (onde se localiza o Hospital Universitário); e a Ilha da Sapucaia (local da Reitoria, Parque Tecnológico e Vila Residencial). E outras cinco menores: Ilhas do Catalão, do Baiacu, das Cabras, do Pindaí do Ferreira e do Pindaí do França. O projeto de retirar a universidade do Centro foi realizado com sucesso. Entrar e sair de uma ilha não é simples. Engarrafamentos diários. Sem mobilidade aquática apesar da Baía. Professores, técnicos, funcionários e estudantes universitários circulando no cotidiano é sempre perigoso.

Apesar do isolamento territorial e político,  o maior campus da maior universidade do Brasil nos últimos anos tem ocupado as páginas dos jornais não pela excelência da produção acadêmica, mas pelo medo. Sem horário marcado. Qualquer horário, com ou sem sol, tem sido um risco imenso.  São frequentes os assaltos, roubos, furtos, estupros e até assassinato: Diego Vieira Machado, estudante de letras, paraense, negro, gay foi morto em 2016. Até hoje não tivemos retorno sobre as investigações.

A produção de excelência de uma universidade pública que a cada ano se mantem no topo das listas de melhores universidades do Brasil e da América Latina, convive com o medo e resiste ao projeto de privatização do ensino no país que reduz as verbas destinadas a educação. Resultado: salários de servidores sem reajustes, funcionários tercerizados sem salários, bolsas de pesquisa cortadas, cursos sem prédio, incêndios. No mesmo ano em que Diego foi assassinado, o prédio conhecido como Reitoria, que abriga além desta, as pró-reitorias, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (a que o prédio tinha o seu destino original) e a Escola de Belas Artes, sofreu um incêndio. No ano seguinte, outro incêndio, no Alojamento dos estudantes.

Na cidade do Rio, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro tem sido vista pelo Governo do Estado como o projeto piloto da privatização do ensino público. Em uma crise forjada, professores e técnicos passaram um ano inteiro de salários suspensos. A solução proposta para a farsa: privatizar. Ambas, UFRJ e UERJ, seguem com os seus integrantes produzindo com qualidade. Sem praticamente nenhuma estrutura. A pesquisa pública serve ao povo!

Os meses se passaram e na minha primeira primavera no Fundão descobri tudo florido. Em especial, no prédio de Letras, as patas de vaca…

 

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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