Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Quanto mais correntes compartilhamos, mais acorrentados ficamos

Esta semana, me deparei com uma corrente das “artes visuais” no Facebook que me deixou mais incomodada que o normal. Lia-se: “a ideia é inundar as redes sociais com imagens de arte para gerar conteúdo cultural e contrariar o excesso de selfies e as publicações muito violentas”. Dá para questionar muita coisa nesta proposta que, apesar de parecer cheia de boas intenções, é carregada de problemas. A começar pela definição de “conteúdo cultural”, passando pelo entendimento de que arte não é “violência e, muito menos, selfie”, chegando no problema da legitimação de discursos sem embasamento que geram “engajamento”.

Enfim, entre tantos aspectos, gostaria de destacar a intenção (contraditória) de combater “excesso de imagens” com “inundação de imagens” e o reducionismo conceitual de que a “arte é imagem”. Este questionamento leva em consideração a hegemonia do “visual” tanto na cultura e na sociedade, como nas artes. Isto é, o excesso de imagens e informações e seu consumo imediato e fragmentado na contemporaneidade. Afinal, o próprio entendimento do campo das artes como “artes visuais” e da curadoria como um “ponto de vista” indicam para o problema da hierarquização dos sentidos com a supervalorização do olhar, em detrimento de outras possibilidades perceptivas e políticas que impactam a fruição das obras e a vivência das exposições.

Esta é, precisamente, uma das proposições de Hans Belting em “O fim da história da arte”. O autor aponta que: “a história da arte se reduz rapidamente a uma história da visão. Além disso, encerra um conceito ingênuo de realidade: um conceito de realidade visível que é duplicado na ilusão da imagem.” Em outras palavras, ao se desprender de murais e paredes e ao extrapolar os limites das molduras e do interior das instituições, a arte passou a requerer outros “sentidos” para sua fruição. Assim como a contemporaneidade trouxe a perplexidade e a incerteza em relação ao que pode ou não ser definido como arte, trouxe também a impossibilidade de emoldurar as práticas artísticas e curatoriais apenas dentro de uma experiência contemplativa ou de observação. Mais que “ver”, é preciso interagir, se relacionar, questionar, viver a obra de arte.  Não por acaso, este também o contexto no qual os artistas e a academia começam a se interessar de modo mais pragmático e transdisciplinar por temas como corpo, sensação, emoção, gestos e afetos.

Então, como romper com as restrições de sentidos e significados e explorar as sensações inusitadas proporcionadas pelas artes, atuando com o conjunto de nossas possibilidades? Trata-se, fundamentalmente, de questionar a sensibilidade vigente. Susan Sontag propõe que, “no lugar de uma hermenêutica precisamos de uma erótica da arte”. Em “Contra a interpretação”, ela chama atenção para “sentidos outros”, visando, uma retórica “mais descritiva que prescritiva”. Para Sontag, estes “outros sentidos” estariam sendo subjugados em favor de um modelo cognitivo-cartesiano, que se consolidou quase que exclusivamente na visão como a maneira privilegiada para interpretar o mundo. Segundo a autora: “a arte hoje é um novo tipo de instrumento, um instrumento para modificar a consciência e organizar novos modos de sensibilidade”.

Se, de fato, existem vícios e protocolos sobre como “ver” uma obra de arte e uma exposição, deveria ser do nosso interesse pesquisar e propor outras maneiras pelas quais podemos nos relacionar de “corpo inteiro” com as expressões artísticas. Seja dentro ou fora do Facebook. Em última instância, sugerir outras maneiras de nos relacionarmos com o mundo. Por meio da ou para além da internet. A arte é, precisamente, uma dessas maneiras. Mas me parece que, quanto mais correntes compartilhamos, mais acorrentados ficamos.

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Crédito da imagem – Reprodução/Revista Philos.

ludmilla

 

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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