Camila Vieira Crítica semanal

Um nome apropriado

Sobrevoo é o nome da exposição individual do artista Marcos Amaro, atualmente em cartaz no espaço cultural dos Correios, no Rio de Janeiro. Ao entrar na exposição, somos recebidos pela obra Homem com chapéu, 2016, pintura que, a princípio, não dialoga com as obras expostas, a não ser pelos dizeres “FAB”, no canto esquerdo à figura propriamente dita, que consiste em denotações de um homem com chapéu, por se tratar de uma silhueta não preenchida. A sala de exposição é bastante ampla, o que confere ao visitante a possibilidade de iniciar o passeio pela saleta, à esquerda, ou pelo lado direito. Preferi começar pela saleta. O mote de toda exposição gira entorno do trabalho que o artista faz em ressignificar peças de aeroplanos em desuso, desde as latarias sucateadas até parafusos e outros materiais cotidianos, como colchões e fiações, por exemplo. A sala que escolhi adentrar detém as obras This Window is taken, 2016, De volta para o presente, 2016, e Sharp Emotions, 2016, uma instalação, ao piso, composta por quatro caudas de aviões, soldadas umas às outras. Interessante, portanto, notar que são obras recentes.

Ao sair da sala à esquerda, atrás da parede com o Homem com chapéu, encontramos várias obras sem título, todas feitas entre 2016 e 2017, formadas por objetos pessoais, como fotografias, cintos, cobertores, etc., grampeados em telas, o que consegue um efeito cromático em terceira dimensão, à guisa das bricolagens que Picasso e outros modernos realizaram, colando madeiras, tecidos, e outros materiais comuns à tela – ressalto, porém, que a composição de Amaro não tem a ver com  a linguagem dos modernos, é só a técnica de bricolagem que eu quero destacar neste excerto. Há outras telas na parede contígua, três delas também sem título, que compõem esse rearranjo de materiais integrantes de uma pintura em terceira dimensão. As outras obras, na mesma parede: Êxodo urbano I, 2017 e Forgotten Face, 2016, travam o mesmo diálogo com as anteriores, portando, porém, materiais mais pesados em seus suportes: máscaras de gás, quepes e rodas de ferro. A instalação Opep 24h, forma a parte escultural da sala, feita de tambores de lata e televisões: uma delas abarca um vídeo-síntese do trabalho do artista, enquanto a outra transmite um filme sobre procedimentos aeronáuticos para decolagem. As obras Home Work, 2016 e Caixa quântica, 2016, são as outras instalações da sala principal, que também comporta os trabalhos Respeito Externo, 2016, Coctail do Tom, 2015; Munch de avião, 2016; e Laranja mecânica II, 2014.

Na sala à direita da entrada, o visitante é recepcionado pelas obras Shark, 2016, Drive-Thru, 2015, Next Generation, 2016, Soft Landing, 2016, Blind Ship, 2016, Dispositivos Insólitos, 2016, Flor de Lótus, 2016, Pintura com Estilete, 2013, Não me espere para jantar, 2013, além de duas obras sem título: uma feita em 2013 e a outra em 2016. A partir daqui, já é possível conceber que além da composição cromática das bricolagens e da utilização de materiais descartados como obras ressignificadas, – pela reutilização de aeromodelos e de um possível apelo à consciência sobre o lixo gerado pela indústria aeroespacial –, nada do que nos é apresentado será muito diferente. Continuando pela penúltima sala, a fotografia Silencie of Music, 2013, a instalação de colchões suspensos: Big Brain, 2015 e Vira-lata, 2014, – escultura feita da fuselagem de turbinas aeronáuticas –, fecham o contexto do que nos é proposto. Num corredor pequeno, entre as duas últimas salas, Malevich Latino-Americano, 2016 e Stand Alive, 2016, resgatam os temas anteriores. Rasante, 2016, uma instalação de asas de avião que flutuam no espaço e Taken Off, 2016, uma fotografia de aeronaves abandonadas, são as últimas obras da mostra, que peca pelo excesso de mais do mesmo.

Concluo que a curadoria de Ricardo Resende, consagrado crítico e curador de arte, não foi de todo significativa, pois a exposição assume o caráter de uma retrospectiva de objetos produzidos no ano passado. Saí com sensação de ter assistido a um filme com um roteiro mediano, dirigido por um diretor estrelado: não peca na forma, nem no conteúdo, mas deixa a desejar no que concerne às conexões que a obra do artista poderia engatilhar, para além da matéria e da forma. A mostra decola, mas voa baixo.

 

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Soft Landing, 2016

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Dispositivos insólitos, 2016

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Vira-Lata, 2014​

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

 

 

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