Carolina Lopes Crítica semanal

a arte esteja convosco

sentados em poltronas de vime meio velhas, via na mesa um monte daqueles cadernos azuis. canetas sem tinta. papéis com telefones importantes, ajuntados em um saquinho. muitas, muitas caixas com obras de arte. conversamos sobre tudo. pouco sobre arte. falamos de cigarro, de estudos. conversamos sobre a falta de hábito de leitura. falamos da dificuldade inicial para a absorção de certos textos, da necessidade de uma preparação prévia, com outros textos. falamos de jurujuba, de um bom peixe que é possível comer por lá. falamos do meu avô, um paraibano danado de quase 100 anos que dança forró mais do que qualquer um. falamos de são gonçalo, av. dr.march, santa catarina, 516. falamos sobre desenhos, exposição, documentários. falamos sobre redes sociais, celulares. falamos sobre, e percebemos o tempo.

semana passada visitei o ateliê de um artista. um dos grandes, imensos. talvez o maior entre os artistas brasileiros vivos, na minha opinião. geralmente fala de coisas grandes. em voz claramente audível, apesar de se utilizar de signos não óbvios. seu assunto, sua voz, sua forma, são compreensíveis. no sentido de que sua obra, no encontro com a pessoa, pode encontrar lugar e promover diálogos.

entendi — a beleza de sua poética está exatamente na vida. não saiu dela: nem a obra, nem o artista.

venho pensado vigorosamente sobre o quanto o lugar da arte é inacessível. não falo dos trabalhos, das obras, e sim, dos discursos. são museus, galerias, críticos, teóricos, que como se falassem em latim, esforçam-se em tornar a arte cada vez mais distante do mundo. o cubo branco, por si só, esteriliza o objeto de arte. retira-o do mundo, de onde ele veio. o mundo não está na galeria, a galeria não está no mundo. como se transcendesse sua natureza, o objeto artístico, vive uma espécie de ‘unção’. é envolvido em uma nova forma de aura, uma consagração. e assim como um santo objeto de uma igreja, há premissas para sua aproximação, contato e troca. demanda do público uma sensibilidade experimentada. requer conhecimento teórico, sobre sua história. é preciso ser catequizado.

diz-se: o debate é necessário, mas ele ainda se dá dentro desse espaço, que é inacessível aos pagãos. essa reflexão logicamente se dá em escala mundial, mas penso especialmente no brasil: não estudamos arte na escola, não estudamos filosofia. como apreender um objeto de arte contemporânea? como entender o texto curatorial? como traçar paralelos e diálogos, onde só escuto e não entendo?

na partilha entre os objetos e as pessoas, as sensibilidades estão limitadas pelos cotidianos, pelas sobrevivências. lugares onde a arte não alcança. não estou aqui dizendo de sua inutilidade, é o contrário. como abarcar o mundo e suas pessoas, de forma que o acesso seja alargado? como o objeto de arte pode voltar ao mundo de onde veio, e pode com ele conversar? como é possível a pessoa do mundo e sua realidade, assim como é, estarem no lugar da arte, sendo protagonistas, donos das vozes, participando dos diálogos, compreendendo, a partir de suas experiências, e compartilhando dos discursos.

desde o começo, e agora não é diferente, a arte sempre esteve sob tutela da burguesia e de um grupo de sacerdotes que, com a ajuda do templo, mediam sua presença no mundo. e como já desconfiava, vendo ali no ateliê desse artista, sua manjedoura, soube de fato: a arte é das pessoas, e para as pessoas voltará — Ela está no meio de nós.

 

por-que-o-papa-insiste-no-latim

 

 

CAROLINA LOPESCAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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