Crítica semanal Ton Almeida

MONUMENTO AO HOMEM BRANCO

Neste exercício de escrita para a Desvio, opto por dar visibilidade a processos dentro da arte que operem por caminhos alternativos as lógicas institucionais dos circuitos domesticados pelo sistema fetichista e espetacular. O que não impede que também voltemos o olhar para as galerias, os salões e as diversas espécies de cubo branco que extrapolam arquiteturas e instituições. Interessa o artista, ação (gesto) ou trabalho, que consiga gerar jogadas que desencadeiem curtos-circuitos e rupturas estratégicas com o discurso instituído, explodindo a normatividade de algum regimento, corroendo os alicerces das estruturas.

No dia 26 de abril de 2016 ocorreu a abertura do 67º Salão de Abril no Museu de Arte Contemporânea do Ceará. O evento em questão trata-se de um dos salões mais tradicionais, em termos de continuidade, do Brasil. Vale ressaltar que é um desses espaços em que o estado se valida a partir do espetáculo, onde acontecem todos aqueles procedimentos ritualísticos que caricaturam a procedência formal dos espaços de arte. Premiações, hierarquias entre os trabalhos, jogos de ego, autopromoção do estado e seus representantes, conchaves comerciais entre artistas e curadores e etc.

O trabalho proposto por Aline Furtado para aquela edição do Salão de Abril tratava-se de uma instalação que conclamava ações, acionando gestos performáticos por parte dos proponentes e do público, se caracterizando enquanto uma espécie de escultura social (Beuys). Trazia para o espaço da galeria a discussão sobre a prisão arbitrária de Rafael Braga Vieira, catador de latas, jovem e negro, preso durante as manifestações de 2013 no Rio de Janeiro, a partir da ridícula acusação forjada pela polícia de ameaça a ordem pública devido a posse de um Pinho Sol. A partir deste fato Rafael Braga virou pauta e símbolo da luta contra a criminalização da juventude negra e dos movimentos sociais.

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O “Monumento ao homem branco” tratava-se de uma linha em diagonal de frascos fechados de Pinho Sol atravessando o chão da galeria, contendo um texto explicativo sobre a prisão de Rafael Braga e suas implicações de descriminação e criminalização. Um segundo texto apresentava um programa performático que conclamava o público a pegar os frascos de Pinho Sol, sair do MAC e entregar o “artefato” aos policiais militares que estavam num posto localizado no mesmo complexo cultural em que o museu está inserido, observando qual seria a reação obtida deste gesto. A medida que os frascos iam sendo retirados um terceiro texto ia se apresentando em uma linha vermelha sobre a qual estavam.

Alguns frascos foram levados ao posto citado e em determinado momento a polícia chegou ao evento visivelmente irritada, querendo saber o fundamento daquela “brincadeira’’, quem eram os responsáveis e exigindo o devido respeito a instituição policial bem como ameaçando sobre consequências que este ato poderia acarretar em termos legais. Neste momento Aline Furtado, que também é advogada e militante, parte para o dialogo com os policiais  e explicita do que se trata o gesto, iniciando a performance de leitura de alguns dos textos propostos pelo trabalho, instaurando o curto-circuito institucional, utilizando a “legitimidade” do espaço de arte para “deslegitimar” a arbitrariedade da polícia. Parte do texto citado diz:

 “Sua cor diz, sei de cor o crime cometido. A materialidade da prova é a própria história, seu corpo conta um conto esdruxulo. Surrealista, no chulo sistema escravista o preto é eloquência…

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A escultura social se estabelece de modo compartilhado entre público e instituição. As peças estão dadas no tabuleiro e cada gesto desencadeia a trama proposta. Performer, público e instituições desempenham seus lugares sociais, esquematizando esta diagonal que os atravessa, reconfigurando suas respectivas funções, expandindo o entendimento sobre um dado social que está em jogo, estabelecendo novos parâmetros éticos e estéticos para uma simbiose entre arte e política.

Links de vídeos de “Monumento ao homem branco” no 67º Salão de Abril:
I- https://www.youtube.com/watch?v=IFk60M91R6A

II- https://www.youtube.com/watch?v=nJ5wsp49gyo

III- https://www.youtube.com/watch?v=XNIpBSD7654

IV- https://www.youtube.com/watch?v=Wt95p4VYk-g

V- https://www.youtube.com/watch?v=RHNOxnOiNjw

 

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TON ALMEIDA é artista multimídia, educador, produtor e gestor cultural. Desenvolve, individualmente e em sistema de colaboração com outros artistas, trabalhos de perfomance, instalação, intervenção urbana, que transversalizam técnicas e discursos referentes ao cinema e as artes visuais. Tem interesse nas relações entre memória, identidade, cinema expandido, performatividade, paisagens, território, envolvendo a prática comunitária como ferramenta de luta social.

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