Candé Crítica semanal

Por que Arte custa mais que o seu rim?

Nem sempre, né?! Mas as quantias são vultuosas. Lidamos com carros, casas sendo dadas em quadros de gente viva. Montantes ainda mais escandalosos capazes de comprar pequenos países são dados em quadros de gente morta. Lembra da obra de arte mais cara da história (até a última semana, pelo menos) que custa mais de 1,5 bilhões de reais? Um Leonardo Da Vinci, “Salvator Mundi“, leiloado no final do ano passado na Christie’s em Nova Iorque.

Objetos caros lembram sempre mercado de luxo. Como uma bolsa grifada ou uma hospedagem num hotel estrelado. São itens que entram nos bens de consumo de uma vida de alto poder aquisitivo. Tem uma galera que chama esse grupo de “incentivadores da arte”. Eu chamo de consumidores. Arte pode ser encarada como elemento decorativo pelos estetas, que transmite, por espelhamento, um elemento identitário elaborado por um especialista, no caso o/a artista que assina a autoria. Para os consumidores, uma galeria de arte é uma “Camicado pra ricos”, como aquele vídeo da Hyped Content Brazil com vários salários mínimos nos “looks top” da gurizada nerd que bombardeou a internet semana passada. Mas queremos chegar aos valores estratosféricos. Sim, fica mais caro ainda. Artistas bem colocados conseguem vender seus quadros (um dos intens privilegiados pelos colecionadores por sua “tiragem única”, “originalidade”, lalalá) por preços de carros populares e apartamentos – sem encalhar mercadoria.

 

Por que Arte custa mais que o seu rim FOTO 2

Arte é uma mercadoria específica porque entendemos que ela é uma manifestação cultural identitária dos povos onde ela é produzida. Mostra nossa relação sensível com espaços, territórios e nosso conhecimento acumulado. Sendo assim, ela é parte da educação das novas gerações, da dinâmica cotidiana da sociedade e possui valor imemorial. Sim, isso mesmo, algo a ser mantido como uma evidência de nossa manobra humana pela Terra. Tem todo papo filosófico, mas em capitalistês bom e simples: arte é um bem que não desvaloriza. Um ou uma artista eleitos pela História da Arte nunca perderá seu valor imaterial. Tendem, a cada transação, a se valorizar mais e mais. Um ótimo negócio para os consumidores mais ricos investirem seu dinheiro ocioso com garantias de valorização de médio prazo. São propriedade imaterial humana, mas também são objetos precificáveis e, segundo a lógica do mercado, precisam ser competitivos. O que faz galeristas e marchands (pronuncia-se marchãnd e significa negociante em francês, mas não deixa de ser uma revendedora Avon mais habilitada), rodarem o planeta atrás de alguns colecionadores querendo um Caravaggio por quantias exorbitantes. Quanto valem as ideias de Platão? Estamos chegando lá.

É imaterial e da humanidade, mas como é privado? A defesa da propriedade individual desse bem imaterial todo é a responsabilização pela preservação das obras. E daí as relações diretas entre o mercado e a esfera pública. Pois é, o Estado. Este mesmo que vive salvando as empresas da falência pra preservar os interesses dos empresários. Vide a Greve dos Caminhoneiros atual no país com denúncia de Locaute e apenas os interesses dos empresários atendidos. O Estado é a ama de leite do Empresariado Republicano.

Os museus entram validando a coisa toda e elegendo artistas pra contar a História humana. Além disso, museus comumente preservam coleções individuais. Isso mesmo, museus públicos abrigando obras privadas que foram adiquiridas sob alegação de preservação de item imaterial. Fora que a aquisição de um museu reflete diretamente no mercado de arte elevando preços de artistas a quantias estratosféricas. O currículo do artista conta. Suas mostras, exposições, obras em acervos museais nos centros de arte internacionais, elencam autoria na História da Arte como um intelectual na Filosofia. O curador também conta, quanto mais grifado, ou quanto mais legitimado, melhor.

Todos estes elementos associados à ideia de originalidade das obras e a aura quase sacra que os objetos de arte costumam receber. Assim como a formação do artista que passa a ser relacionada ao virtuosismo dos visionários. Engraçado como isso é antigo. Milhares de anos atrás os povos ameríndios já relacionavam a mão dos artistas como guiadas for forças sobre humanas. Continuamos nessa, privilegiando o objeto em vez das experiências que temos em nossos corpos, e isso, bom, encarece a coisa toda. Em geral artistas tem apenas uma formação direcionada ao pensamento e produção criativa. É um trabalho – ponto. Fetiches, fetiches, fetiches. Valor… muito diferente de Custo.

Ainda estamos longe de atacar a credibilidade dos pintores renascentistas, assim como os novaiorquinos do século XX, mas a Arte Contemporânea joga com títulos ainda em consolidação na história humana. As apostas em artistas seguem regências similares ao do mercado de ações. Muitos corretores do mercado financeiro paulista migraram para o mercado de arte nas últimas décadas. O jogo é mais competitivo quando a produção artística nacional passa a participar do jogo internacional de valores. A maior inserção de galerias nas feiras internacionais de arte, hoje as novas rainhas de faturamento em arte, tem elevado o preço dos brasileiros (lembram da Beatriz Milhazes que citei em artigos anteriores?). Um reconhecimento da participação nacional na História da Arte? Gosto da frase do Don Thompson:

“Quando o martelo bate, o preço se transforma em valor e este se inscreve na História da Arte.” – em O Tubarão de doze milhões de dólares: a curiosa economia da arte contemporânea de 2012.

A arte tem aquela legitimidade de salvaguardar a Cultura da Terra em suas expressões. Os museus? A preservadora de patrimônios. Como se sua inserção perpetuasse a existência em outras vidas. Acreditamos nas coisas que sobrevivem a nós, que dizem quem somos por refirmar quem fomos. Objetos… dizem que todos eles valem mais que seu rim.

Será?

CANDÉ COSTA

 

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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