Crítica semanal Daniele Machado

Atualizações sobre o Belo ou O que pode ser mais Belo que bucetas protagonistas?

Meu primo Samuel, quando tinha por volta dos 10 estava às voltas em minha casa, tirando e devolvendo livros da estante. De repente pegou um mais grosso e ficou por horas em silêncio. Era História da Beleza do Umberto Eco.

– Dani, quem é o Belo?

– Como assim Samuel? Do que você está falando?

– Está escrito aqui nesse livro. Belo com B maiúsculo. Queria saber quem é ele.

Eu esperei todas as perguntas mais complicadas vindo de uma criança. Menos essa. Vocês responderiam o que pra essa pessoinha? Desde então, de vez em quando, me lembro desse episódio e fico tentando formular respostas. Pensei em uma hoje. Pra quem “é das artes” essa pergunta hoje causa um certo bocejo. Se a arte moderna superou a busca pelo Belo, a arte contemporânea então… nem se fala. Michelangelo é belo. Jacques Luis David é belo. Duchamp não. Aleta Valente muito menos. A habilidade técnica deixou de ser uma questão. O Belo deixou de ser uma questão. Restou a paisagem do Rio e a Cordilheira dos Andes.

Ainda assim, resta algo do Belo na arte contemporânea? Tenho o palpite de que resta. No sentido mais profundo e dramático do verbo restar. O Belo está aí sem protagonismo.  Não faria sentido na arte contemporânea o Belo estar protagonista, como antes. Ele é Belo pelas beiradas. Nos limites que nos deixam em dúvida. De um lado nos parece Belo, de outro pode não ser cult o suficiente ver e até mesmo sentir o Belo na arte contemporânea.

A artista Beatriz Lohana vem realizando este ano uma pesquisa sobre carimbar a sua própria buceta. O que pode ser mais Belo em 2018 que bucetas serem protagonistas? O que pode ser mais Belo em 2018 que bucetas carimbadas, com seus contornos claros, evidentes, sem disfarces? Acho isso Belo. Acho também que bucetas, nosso primeiro lugar no mundo fora da placenta, são tão marginalizadas que, apesar da nossa intimidade originária, boa parte das pessoas podem ver esses trabalhos e se pegar descobrindo tantos mil detalhes que podem haver em uma só buceta, entre lábios, pentelhos e clitóris. Ok, Courbet já tinha feito uma buceta protagonista. Porém, Courbet foi apenas mais um homem vestido pintando mulheres nuas. Belo mesmo é uma mulher preta tornando a sua própria buceta protagonista.

E o trabalho feio da Aleta? Feio é uma palavra adequada, melhor que irônico que é chique e não combina com o trabalho dela no instagram. Fazer arte no instagram. Fazer da tosquice alheia arte no instagram. Criar narrativas no virtual. Aqui o ponto de contato com o Belo surge. As pessoas desejam ver o Belo, as pessoas também desejam ver a verdade. Mas é tudo mentira. As pessoas gostam mesmo é de fazer fofoca, sendo verdade ou não. As pessoas gostam é de assistir uma briga, um acidente e tirar uma selfie. Melhor que ir ao museu. As pessoas gostam de ver o Feio e o Belo também. Mais que sobre o Feio. O trabalho da Aleta no instagram é sobre o Escroto. No sentido original mesmo, tão Escroto quanto o saco do macho. Mas com a subversão geral: é uma buceta protagonista escrachando. É insuportável, não? Em uma manchete sincera por aí: Buceta protagonista faz arte escrota e te deixa em dúvida sobre ser real ou não. Se na arte contemporânea não cabe mais procurar o Belo, no virtual não cabe procurar o Real. É tudo virtual no virtual. Ou não? As séries no instagram da Aleta são Feias e Escrotas. Mas uma buceta protagonista, é SEMPRE belo. Fica o recado.

Em meio ao caos dessa semana, entre a greve dos caminhoneiros e o locaute das empresa, com o limite da situação política que nos ameaça e retira direitos após direitos e a cumplicidade sempre presente dos grandes veículos de comunicação, achei pertinente dar uma arejada e falar sobre o Belo. Inclusive ele, o cantor deu uma atualizada buscando o Belo, em um sentido bem próximo de Michelangelo e David. Belo entrou na moda.

Essa série de trabalhos belos da Beatriz Lohana e trabalhos feios da Aleta Valente poderão ser vistos, junto a outros, na mostra Junho de 2013: cinco anos depois. A coordenação geral e a curadoria é minha com a Gabriela Lúcio. E tem a co-curadoria de um time incrível. Anota aí o local, a data e o horário. Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, dia 2 de junho, às 14h. Vai ter arte. Vai ter festa. Vai ter Belo e vai ter Feio. E você está mais que convidado! 😉

#querobucetasprotagonizandotudo

 

 

 

 

 

 

dani

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

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