Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Finalmente, Claudio Paiva

Está escrito no sagrado manual do jornalismo que não devemos, em nenhuma circunstância, fazer propaganda. Para nada, nem ninguém. Obviamente, isso vai contra os precedentes éticos do ofício jornalístico (pode não parecer, mas isso existe). Então, vou (ab)usar da brecha social do gênero colunismo e da licença poética da crítica de arte contemporânea, para gritar: corram para ver a exposição “Claudio Paiva – O colecionador de linhas” no Museu de Arte do Rio (MAR)! Quando esta coluna estiver no ar, será o último fim de semana que a mostra vai estar em cartaz (a visitação é até o dia 03 de junho).

Esta é a maior e mais completa individual de Paiva já produzida. A partir da doação de obras por parte de sua família e do amigo Cildo Meirelles, a exposição é organizada pela (também amiga e) maior estudiosa de sua obra – a curadora Catherine Bompuis, em parceria com Evandro Salles, diretor criativo do MAR. Finalmente. Porque entre figuras como o próprio Cildo, além de Umberto Costa Barros, Antonio Manuel, Artur Barrio e Luiz Alphonsus, o nome de Cláudio ficou meio esquecido, apesar de ele ser um importante representante desta geração de artistas que promoveu transformações tão significativas entre os anos 70 e 80. É um desses hiatos da recente história da arte brasileira.

Até podemos tentar explicar o porquê dessa lacuna e, talvez, muito esteja relacionado às dificuldades que o artista enfrentava em sua vida pessoal, sobretudo, em relação aos problemas de saúde. Mas, definitivamente, não vem ao caso. A exposição se situa no eixo curatorial que o MAR está tentando construir de revisões historiográficas, conferindo a Cláudio Paiva o lugar de destaque que ele merece. Mais um caso de “antes tarde do que nunca”.

O colecionador de linhas” apresenta, pela primeira vez ao público, o corpus da sua obra. Foram escolhidos trabalhos dos diversos momentos de sua trajetória — dos anos 60 até seu falecimento em 2011. Mesmo tendo uma produção ininterrupta durante todo esse tempo, seu trabalho tem sido muito esporadicamente mostrado. Esta exposição, no entanto, reúne mais de 200 obras entre desenhos com suportes e técnicas variadas, as geniais “instalações de bolso” e vídeos de entrevistas inéditas com depoimentos sobre o artista. É uma dessas mostras raras que não apresenta nenhum trabalho “mais ou menos” ou descontextualizado. De série em série, uma produção é mais interessante que a outra e, realmente, não ficamos cansados.

Foto Alexandre Araujo_Divulgacao MAR

Incorporando influências do conceitualismo, do concretismo e da arte povera, a obra de Claudio Paiva é, em muitos sentidos, radical. Para o artista, “o desenho é um projeto em si”. Ele tinha uma grande lucidez sobre o pacto intrínseco e semiológico existente entre linha, cor e palavra. E, surpreendentemente, consegue transparecer isso de modo direto para o público que toma contato com sua obra. Saindo da esfera simbólica e social, ele depura seus desenhos até a instância icônica, nos abordando com uma simplicidade formal-perceptiva e nos seduzindo com seu humor. Trata-se de um humor muito “mineiro”: certeiro, porém, jamais ofensivo. Carismático, mas irônico. Assim, ele desconstrói a realidade, nos apresentando estruturas primárias que são chaves para o questionamento sobre o estar no mundo contemporâneo e, ao mesmo tempo, chaves que abrem portas para o seu universo pessoal, revelando nuances de sua personalidade e de seus afetos.

Serie Nave_Foto Alexandre Araujo_Divulgacao MAR.jpg

Destaque para a série “Naves” que é constituída por desenhos baseados em uma única linha reta e horizontal. O que poderia ser simplório, tem caráter quase fenomenológico – tamanho é o poder da sugestão na obra de Paiva. Além das tradicionais técnicas de grafite e guache sobre papel, outros trabalhos têm suportes inusitados, como lápis de cera sobre lixa. Inclusive, há uma série inteira de desenhos sobre lixa dedicada à galerista Luisa Strina. Saímos na dúvida se é homenagem ou crítica, mas as composições são fantásticas.

Serie Luisa Strina_Foto Alexandre Araujo_Divulgacao MAR.jpg

Ademais, do conjunto das obras apresentadas, desprende-se a noção geral de que não há diferença entre palavra e desenho. Afinal, eles têm a mesma “matéria-prima” que é a linha. Sendo assim, imagem e poema são o mesmo. O poema escreve a imagem. E a imagem desenha o poema. Verbal e não-verbal deixam de ser instâncias separadas, criando um signo muito mais rico em sua fruição.

Foto Alexandre Araujo_Divulgacao MAR2.jpg

A partir dos anos 70, Claudio começou a explorar também a relação entre palavra e objeto. Segundo consta, ele chamava suas primeiras esculturas de “poemas em três dimensões”. Essas esculturas acabaram se transformando e ficando conhecidas como “instalações de bolso”. Copos americanos, velas, caixas de fósforo e fita crepe são usados de maneira duchampiana, evidenciando que renomear é transgredir em todos os contextos. Usando pouquíssimos objetos, Paiva cria obras como “O descanso do paralelepípedo” e “O Colecionador de nada”, constituindo uma espécie de “acervo de pequenos contrassensos cotidianos”. Como por exemplo, “Armadilha de tempestade” que nada mais é, do que um copo d’água vazio exposto sob um pedestal.

Instalacoes de bolso_Foto Alexandre Araujo_Divulgacao MAR.jpg

Seu humor transparece também em “Cuidado com a navalha, Vicente” – que é título de um desenho e de uma microinstalação. No desenho de guache sobre papel, Paiva usa amarelo e vermelho para descrever a cena de “alguém” que escorregou no azulejo e acabou cortando a orelha fora. Na instalação de bolso, isolada numa cúpula de vidro, vemos uma lâmina de barbear fincada num sabão de barra. Bem que Cláudio avisou para Vicente ter cuidado, né… Sob o mesmo princípio, Paiva emoldurou uma página da caderneta de compras-fiado do Ziraldo em uma padaria do interior de Minas Gerais… Fica a impressão de que, seja quem fosse, membros de sua família ou da classe artística, famosos ou anônimos, os afetos e as críticas de Paiva nunca ficavam guardadas dentro dele.

Guerra Fria_Foto Alexandre Araujo_Divulgacao MAR.jpg

E, como se não bastasse toda a propaganda, aproveito para fazer campanha também: um catálogo dessa exposição seria um importante material de pesquisa, preservação e continuidade da obra de Claudio Paiva. Sair de uma individual com mais de 200 obras com a sensação de que ainda há muito a ser visto, é coisa rara. E dá mesmo vontade de levar o Claudio para casa e tomar um café com ele. Então, não percam a oportunidade.

Fotos: Alexandre Araujo / Divulgação MAR.

 

ludmilla

 

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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