Carolina Lopes Crítica semanal

YOU HAVE NOTHING

–…queria perguntar sobre algo que eu li no site de voces… eu nao entendi e esperava que me ajudasse a entender:

“Exposicao/nao exposição. Conversa vespertina que explora a dinâmica do ‘exponível’ e a construção da publicidade inspirada no Lugar/Não lugar, de Robert Smithson. De Não-lugar a Lugar, de Não-exposição a exposição, qual é o topos de Exposição/Não-exposição no momento tumultuado de uma mega exposição?

Silêncio

— Perdão, eu claramente não sou tão esclarecida quanto você.

Ele, o diretor do museu, responde, com uma explicação tão cheia de palavras e tão vazia quanto a frase em questão. A jornalista finaliza a conversa com: — Bem, isso é tudo que temos.

YOU HAVE NOTHING – Obra de arte em neon, que ocupa o plano de fundo da cena, grita.

The Square, filme dirigido pelo sueco, Ruben Östlund, se desenvolve através da construção de discurso para uma obra de arte, homônima ao filme, que passa a ocupar o lugar de um monumento, derrubado para sua instalação. Primeiro em frente ao museu. Posteriormente, passa a ocupar uma galeria, dentro da instituição. O trabalho se trata de um quadrado no chão, e junto a ele, uma placa, com a seguinte frase: o quadrado é uma zona franca onde impera confiança e cuidado. Em seu limite, todos têm os mesmos direitos e deveres.

O discurso institucional que virá com a obra, parece se limitar ao espaço daquele quadrado. O filme, todo o tempo expõe a fragilidade dos discursos da instituição e dos atores do campo da arte. Desvenda também a construção de aparências, como suporte a esses discursos. O diretor do museu, ensaia sua fala, ensaiando inclusive sua espontaneidade aparente naquele momento. Cheio de lateralidades, The Square produz, ininterruptamente, reflexões diversas. Traça paralelos entre o museu e mundo. Dinheiro e pobreza. Cuidado e desprezo. Mulheres e homens. Pretos e brancos. Humano e animal. Exibe, beirando a ridicularidade, a distância abismal entre cada um desses paralelos.

Uma performance parece sacudir o lugar: instituição, curadores e diretores, riquíssimos consumidores de arte. O artista, que parece ter estado recluso, vivenciando o que se tornaria durante a performance, penetra a experiência de ser um animal selvagem. As pessoas, esperando representação, estavam excitadas. A performance torna-se incontrolável. Homem-macaco, ultrapassa os limites da aparência: Sobe nas mesas,  afugenta um artista famoso, amedronta a todos, tenta ‘acasalar’ com uma mulher. Por fim, provoca a quebra de representação daquele público, dizem: — matem ele.

Quase um circo, um espetáculo de palhaço, no melhor sentido desse personagem. The Square, desnuda a instituição de arte. O cubo branco, quadrado, onde impera o discurso e a aparência. Em seu limite alguns têm direitos, outros, deveres. Na tática de criação de um discurso inacessível, impenetrável, desvela sua incapacidade de sustentação de tal. Expectativa: você tem tudo. Realidade: YOU HAVE NOTHING.

 

square

 

 

CAROLINA LOPESCAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s