Candé Crítica semanal

Século XXI e eu sendo o único negro do rolê

Neste sábado (2 de junho) rolaram duas aberturas de exposição no Rio de Janeiro. No Centro Municipal Hélio Oiticica tem a exposição fundamental “Junho de 2013: 5 Anos Depois”, com artistas ativistas envolvidos diretamente com a maior passeata da história do planeta no Rio de Janeiro em 2013 (e quem não estava?) e suas subsequentes ondas de tensão entre Povo e Estado. A outra foi um duo dos curadores mainstream Camilo Osório (ex MAM RJ e atual do prêmio PIPA poderoso) e Luiz Guilherme Vergara (Professor da UFF com passagem marcante pelo MAC Niterói) na Zona Sul do Rio de Janeiro.  Exposições “underground“, organizadas por grupos “independentes” que estão construindo “outros espaços” pra arte contemporânea.

Notório o fato de todos os artistas brasileiros terem seu reconhecimento profissional atacado com as políticas recentes adotadas pelo Governo Federal do presidente Temer à economia criativa como um todo. Ataques que afetam diretamente a profissionalização da arte brasileira. Toda a área acaba se tornando meio “underground por obrigação” e vemos curadores grifados agitando eventos “independentes”. Exposições completamente diferentes, óbvio. A primeira tem financiamento público, em um espaço público, com verba de rubrica pública e curadoria da Daniele Machado, a.k.a. Revista Desvio, e Gabriela Lúcio. A segunda é um evento consagrado principalmente por seus curadores grifados, organizado com apoio da Revista Jacaranda, outra publicação “independente” com uma relação íntima e direta com os investidores de arte e galeristas. É neste último que vamos nos debruçar um pouco mais.

foto 2 seculo xxi e eu o unico negro

Todo mundo super “independente”, quase “underground” na arte, né?! Fora a conjuntura austera no contexto do Brasil presente, a arte precisa destes espaços de ineditismo, de engajamento. É o engajamento, a vontade de produzir novos paradigmas, que organiza grupos pra promover arte fresca. É uma área que demanda constante oxigenação, “errância” produtiva, ousadia. Estudos promovidos por artistas com muita vontade e engajamento de levar seus problemas aos espaços sociais de arte. O Mercado hoje demanda umas centenas de artistas em suas pesquisas individuais por sua própria conta lutando com ferocidade por um espaço em galerias comerciais. Se não há o financiamento de pesquisa acadêmica, uma das raras áreas onde artistas conseguem sobreviver hoje no país sem ser filho de alguém, a disputa é cada vez menos profissional. Tanta falta de investimento só transforma a arte no país em uma arte de favoritismos amadores. Uma arte que tenta emular os grandes centros europeus, que é o que vende, não é mesmo? Não é mais tão fácil responder sim a essa pergunta, mas falo disso no futuro.

Os curadores que organizaram suas exposições na Jacaranda estão nesse bojo contemporâneo que se equilibra entre os estalos de chicote do mercado pouco profissional da arte brasileira e a criatividade farta produzida em condições de desigualdade endêmica. Camilo Osório articula obras de artistas reconhecidos pelo Conselho do PIPA, um Conselho de Arte que seleciona por indicação artistas notáveis no país. Um excelente guia de compras, claro. Também um guia de trabalhos que tem contribuído com o conhecimento da arte brasileira, suas reflexões e inevitáveis dilatações. O nome da exposição dele é “Achados e Perdidos” e nela Osório espreme o caldo dos artistas do último prêmio, mantendo acesos os nomes de artistas no circuito com obras dos indicados ao Prêmio. Estão reunidos sob a retórica dos sistemas de auto representação e suas potencialidades.  Uma linha eficaz para reunir trabalhos distintos em processos distantes no tempo e espaço. Criações de artistas egressos de áreas diferentes do país, de várias idades, reunidos sob a alegação acessível da representação. Camilo reconhece uma dimensão pedagógica em sua curadoria (Quem não entende um retrato?). Quando aplica pontos comuns, permite saltos específicos dentro da poética de cada artista. Mantém sua atitude pra arte como elemento do conhecimento humano sem perder-se nas dimensões mercadológicas. Seu trabalho reascende os artistas do PIPA, assegura investimentos do Conselho e permite uma interação direta com a potência das obras expostas.

foto 3 Século XXI e eu sendo o único negro do rolê

Vergara é artista, tem formação que difere do Camilo (que é titulado em Filosofia) e sua linha curatorial é completamente diferente. As exposições são justapostas, as comparações são inevitáveis. Enquanto Camilo curadoria com evidente distância entre ele e os artistas expostos, próximo de um museu tradicional, Vergara invade o espaço expositivo criando uma instalação única com as obras d@s artistas do Programa de Pós-Graduação da UFF e demais convidados. “Interfluxos: Colapso como perspectiva” reúne os trabalhos de artistas que “se distinguem por não buscarem zonas de conforto” sendo agentes “co-criador@s de futuros”. As obras são realmente fresquinhas com cheiro de tinta. A lógica é a de uma exposição com artistas que estão hoje no meio da briga, inseridos no processo incerto de produção dos novos rumos nacionais.

Ênfase no trabalho de alguns como o de Denise Adams. Sua exploração despretensiosa das dores cotidianas, silenciamentos sociais e a busca por uma representação sensível e sincera dos horrores sociais vividos em Mariana, por Marielle e por Matheusa. Tragédias políticas, que mobilizam intensamente o espírito do país em polêmicas das quais convivemos ainda sem respostas apaziguadoras.  “Não fui eu”, o pichador com formação acadêmica, também marcou presença tanto com suas pichações (Já leu meu texto “Sobre Paredes e Muros”? Falo muito mais de pichação lá) quanto com trabalhos que relacionam as políticas criminalizadoras da pobreza com o cotidiano de todos e todas. Quando suas instalações se relacionam com a paisagem da urbe, ele refaz as narrativas de público e privado conectando o papel privado, individual, que cada pessoa é potência, na criação deste cenário coletivo. A paisagem que vemos na urbe é a paisagem que há dentro de nossas casas, dentro de nós.

foto 1 seculo XXI

O Vergara tem aqueles efeitos “boom” em suas exposições e desta vez ele chamou o José Rufino pra montar o sudário da Ditadura Militar brasileira, composto pelas correspondências de Dilma Alves Vieira, esposa de Mário Alves de Souza Vieira (desaparecido político desde 16 de Janeiro de 1970 quando detido pelo DOI-CODI RJ). Pais de Lucinha Alves, ativista dos Direitos Humanos até hoje. Os impactos da Ditadura Brasileira permanecem feridas abertas até hoje. Sua obra continua sendo um marco pra nossa História da Arte. Vale conferir.

Fora eu, outro visitante, o porteiro e a artista maravilhosa que atua no VAV, não haviam negros. Sim, isso mesmo. Quatro negros entre cerca de 150 pessoas. AH! Estamos no século XXI – pra não esquecer. Não tem como defender. Mesmo o PIPA tendo nomeado mais artistas negros este ano, a iniquidade racial é profunda. Está longe de ser igualitário. Os curadores brancos não entendem as dimensões dos trabalhos de artistas negros e negras com profundidade, sem traduções longas ou pontes de diálogo inexistentes. O silenciamento é grande mais uma vez. A dor é vista com beleza pelos estetas brasileiros. Artistas que estão longe da “zona de conforto” não estão na Pós-Graduação da UFF. Na verdade, poucos deles estão na academia. São esses artistas reais, os periféricos negros, LGBTs, mulheres, que produzem o inédito todos os dias através de suas vidas impossíveis.

Partiu rolezinho?

 

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s