Crítica semanal Daniele Machado

Curadoria de Guerrilha e as perguntas em torno de 2013

A exposição “Junho de 2013: cinco anos depois” tem um time imenso: 34 artistas, 6 co-curadores, uma realização da equipe do CMAHO com a equipe da Desvio. O título simples e objetivo da mostra deseja apenas ao que se propõe mesmo, sem rodeios de palavras complexas dos intelectuais, sem sentidos ocultos e misteriosos. Apesar de não ser oculto e misterioso, 2013 e os últimos anos não são simples, nem significam o mesmo para todos. Muitas perguntas movem o projeto “Junho de 2013: cinco anos depois”, em especial estas, sendo a última uma afirmação: O gigante acordou? O gigante nunca dormiu? Eram só 20 centavos? Ocupar? Vândalos? É festa ou manifestação? Contra toda organização.

Veja bem, quero falar aqui hoje sobre curadoria de guerrilha e sobre as perguntas de 2013. Estou pesquisando para um livro meio manual meio diário, de como fazer curadoria sem patrocínio, uma reflexão teórica do meu dia a dia no CMAHO e na Desvio. Acho que é importante que as gerações que vem se formando nos cursos de arte entendam duas coisas: 1- estudem produção cultural mesmo que não tenha disciplinas como essas em suas grades. 2- estudem gestão mesmo que não tenha disciplinas como essas em suas grades. 3- vivam experiências de trabalho na realidade da cena cultural do país: sem fomento 3- a única alternativa que tenho encontrado para a ausência de fomento é o trabalho organizado em redes.

O projeto de Junho de 2013 nasceu no dia 17 de junho daquele ano em frente a Alerj. Bombas estouravam os vitrais do Palácio Tiradentes. Cheguei em casa e os vídeos que registraram tudo estavam no facebook. Pensei na hora: quero expor isso daqui a cinco anos. Só não imaginava tudo que viria depois. Nem nos meses seguintes, nem nos anos. Teve de tudo, nossa criatividade pra fazer história é imensa rsrs. Ano passado desengavetei a ideia e começamos a moldá-la juntas eu e Gabriela Lúcio, depois foi chegando o grupo total de curadoria. Pesquisa, pesquisa, pesquisa… Até fecharmos a lista de artistas. 34: expografia da multidão. Achava que era importante trazer o tom confuso, superpopuloso da convivência de diferentes na rua para a galeria. A galeria está lotada meio à lá museus que despertam ódio das galerias contemporâneas fazendo de suas salas reservas técnicas porque o espaço na reserva acabou.

Entre os 34 artistas, está Graziela Kunsch que fez questão de colocar nos convites, ao lado de seu nome,

(participação não celebrativa de 2013)

O trabalho de Graziela na mostra é uma carta que vocês podem ler no fim desse texto. As perguntas que movem o projeto que inclui exposição, publicação, seminário e cineclube, sempre foram em torno da crítica sobre o que vivemos naquele momento. Agora com a carta de Graziela, vez ou outra me pego pensando sobre o celebrativo ou o não celebrativo a partir dos caminhos que foram tomados após aquele mês. Bem, cheguei a algumas conclusões. Para falar sobre elas, insiro aqui outro trabalho presente na exposição. A instalação colaborativa de Barbara Szaniecki com imagens e cartazes de 2013 e dos anos seguintes, a que o público é convidado a participar trazendo as suas próprias fotografias. Algumas das imagens, das manifestação contra o assassinato brutal de Amarildo, estão em destaque nessa crítica. Interlocuções críticas entre design, antropologia, arte e ativismo.

Na ocasião em que convidei Barbara para participar do projeto, conversamos muito sobre as pretensões de 2013, em torno das perguntas que orientavam as pesquisas para o projeto que estão no início desse texto. O que esperávamos? A redução do preço das passagens? O passe livre? O aumento dos salários dos servidores da educação? A não aprovação da cura gay? A desmilitarização da polícia? A reforma política? Talvez nosso descontentamento inicialmente parta das nossas expectativas em relação a 2013. Muita energia e pouca vitória? Não tivemos vitórias? Esses eram os desejos das esquerdas. Esquecemos que 2013 só foi assim, porque compartilhamos a rua com vários. Daí que o movimento por exemplo tenha sido deturpado para justificar os endireitamento que temos visto de forma mais radical que ocorreu nas últimas décadas pós ditadura. Mas nós, esquerdas, tivemos uma vitória significativa. Marielle Franco. Sua vitória, quinta mais votada vereadora de 2016, foi fruto da nossa mobilização em 2013. Queríamos alguém como ela, lá, nos representando.

Sonhamos lindamente em 2013. Tinha cheiro de esperança fresca no ar, de luta, de correria. Não sei o dizer o que eu mesma esperava, tinha apenas 20 anos. Não pergunto isso sobre as pautas diretas (muitas) que reivindicávamos. Pergunto mesmo sobre o que nos daria o sentimento de vitória? Acho que só a revolução. Enquanto ela não chega gostaria de conversar com vocês, deixo aqui o “microfone aberto”, sigo nas próximas semanas escrevendo sobre essas questões. O contexto em que estávamos tinham outros fatores, que não deu pra incluir hoje.

 

Carta de Graziela Kunsch

Há uma semana da abertura desta exposição, recebi um convite da curadora Daniele Machado, para integrar o projeto com alguma obra feita por mim, já existente. Não haveria remuneração pela minha participação, porque o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica está operando quase sem recursos e sem patrocínio. Hesitei um pouco sobre como responder a esse convite, até que decidi escrever esta carta.

Ando um pouco incomodada com as celebrações em torno de 2013. Mesmo que se tratem de revisões críticas e não necessariamente comemorativas, parece existir, para alguns grupos de esquerda, a necessidade de marcar os cinco anos daquele momento histórico, quando o nosso presente mereceria, na minha opinião, uma maior atenção.

Também me incomodam uma série de equívocos nas narrativas sobre 2013, feitas por pessoas que não viveram essa experiência diretamente, ou ao menos não a viveram desde seu início. Devo deixar claro que sou paulistana e que escrevo desde a experiência de junho na cidade de São Paulo, que foi muito diferente dos acontecimentos em outras cidades, porque em São Paulo havia um movimento organizado planejando os protestos. O Movimento Passe Livre (MPL) planejou, por exemplo, a cena que viraria capa do jornal Folha de S. Paulo em 7 de junho, em fotografia de Nelson Antoine: a avenida 23 de maio bloqueada por catracas pegando fogo e muitos corpos, carros parados, prefeitura à direita (indiretamente sobre as chamas das catracas) e, ao fundo, o bandeirão SE A TARIFA NÃO BAIXAR SÃO PAULO VAI PARAR. Quem achou que tudo foi um acontecimento espontâneo é porque desconhece o trabalho que dá imaginar e realizar essas coisas. Não houve ensaio ou direção e a maioria de nós éramos desavisados, protestando contra o aumento da tarifa e, aos poucos, outros grupos foram se auto-organizando/realizando ações por conta própria. Mas havia, na base de tudo, muita organização. A única coisa que não partiu apenas do trabalho educativo do movimento, durante seus então oito anos de existência, em escolas e comunidades, mas que é mérito do próprio aumento na tarifa, foi a quantidade enorme de pessoas presentes já no primeiro grande ato central. Desde a fundação do movimento, dizíamos que, a cada aumento, aumentava também a exclusão social. E o que testemunhamos, ano após ano, foi um aumento progressivo das manifestações de rua. Por isso também é errada a narrativa de que a coisa só ficou grande após a quinta-feira 13 de junho. Quem afirma isso muito provavelmente não estava nas ruas nos atos anteriores. A partir daquela noite, caracterizada por muita repressão policial, as manifestações tiveram apoio da imprensa hegemônica e se multiplicaram por todo o Brasil e, em São Paulo, ficaram maiores e mais espalhadas, até mesmo seguindo diferentes trajetos/ruas/direções simultaneamente. Mas isso não significa que fossem pequenas até então. Finalmente, considero equivocado afirmar que, em São Paulo, as pautas eram difusas. Não eram. Mesmo no ato do dia 17, que incluiu muitas pessoas afirmando que não estavam ali apenas por 20 centavos, a ênfase ainda era a revogação do aumento da tarifa, ou os 20 centavos. Somente no dia 20 de junho, que seria o ato de comemoração da nossa vitória, anunciada no dia 19, o MPL perdeu o controle. Ainda lembro da alegria de ver um monte de gente gritando por tarifa zero nesse ato, mas também da tristeza – do horror – de presenciar companheiras e companheiros do MST serem escorraçadas/os por pessoas truculentas de direita e qualquer pessoa vestindo vermelho ser agredida verbalmente por uns playboys de alguma faculdade da região da Paulista. O apartidarismo – não antipartidarismo –, que caracteriza o movimento, foi convertido por oportunistas em antipetismo.

A gravidade do nosso momento atual começou a ganhar forma em 2013, mas isso é culpa unicamente da pior elite brasileira, junto da empresa que monopoliza todos os meios de comunicação. Discordo radicalmente da narrativa de alguns setores petistas sobre 2013, que culpam o MPL pelo início do processo de golpe que ainda estamos vivendo; e discordo da narrativa de alguns setores de movimentos autônomos e de outros grupos de esquerda, que colocam a culpa do golpe nas políticas antipopulares do governo Dilma. Havia sim medidas antipopulares: a ocupação militar de favelas do Rio de Janeiro, a ocupação militar do Haiti, a criação da “lei anti-terror”, os investimentos/desvios absurdos na Copa/nos ginásios padrão FIFA, toda repressão durante a Copa, o benefício a empreiteiras no programa Minha Casa Minha Vida, a expulsão de populações indígenas e ribeirinhas para construção da hidrelétrica de Belo Monte, entre outras. Mas não foi por isso que Dilma ou o PT foram atacados, por quem vestia verde-e-amarelo. Também não foi por corrupção, ainda que essa tenha sido a principal justificativa pública. O que incomodou quem comandou os processos que levaram ao golpe foram as políticas de bem-estar social do partido. E os acontecimentos de junho, ao colocar no horizonte a tarifa zero no transporte público, apontaram em uma direção antimercantil. Ao reivindicar mais investimento social, a pressão desde a esquerda apontou na direção de conter o mercado. Aí está a única possibilidade de leitura crítica do papel do MPL: o fato de termos ativado, no sentido oposto, energias destinadas a desfazer – via congelamento do gasto público, terceirização e reforma trabalhista – os avanços obtidos na década lulista.

Até pouco tempo, sempre fiz questão de pontuar as conquistas à esquerda de junho de 2013, como resposta a quem afirma que “2013 não deu em nada” ou a quem coloca em 2013 toda a culpa sobre a ascensão fascista. Tarifas de transporte foram reduzidas em aproximadamente 200 cidades brasileiras, o que faz uma diferença brutal na vida cotidiana da população. Em Maricá, cidade com mais de 100 mil habitantes, o sistema de transporte público passou a ser tarifa zero. Aqui em São Paulo, o então prefeito Fernando Haddad se viu obrigado a dar uma série de respostas às ruas, tendo a principal delas sido o passe “livre” estudantil (“livre” entre aspas, por ainda ser restrito ao trajeto casa-escola e ter número de viagens limitado).

Também sempre fiz questão de pontuar os desdobramentos à esquerda de junho de 2013, sendo o mais emocionante – novamente falando desde São Paulo e desde a minha própria vivência – a ocupação de escolas por estudantes secundaristas, no final de 2015. Essas ocupações foram comemoradas inclusive pelos mesmos indivíduos petistas que atacam o MPL, que desconhecem (ou ignoram) a participação de diversas/os militantes do movimento nesse processo.

Hoje, sou mais cuidadosa ao falar sobre 2013. A história está sempre em movimento e o nosso contexto atual é extremamente preocupante. Foi por isso que, antes de começar a redação desta carta, pedi para a Daniele que, na lista de artistas/ativistas/etc. da exposição, junto de meu nome viesse uma inscrição:

participação não celebrativa de 2013

Não tenho, hoje, nada a comemorar. Aqui em São Paulo irá acontecer outra exposição em torno de junho, chamada “Junho sendo”. Organizada por pessoas do MPL ou próximas ao movimento. Até colaborei um pouco no projeto, enviando um arquivo de panfletos e outros materiais da minha época de militância e o vídeo que me pediram, um excerto de A.N.T.I. cinema da manifestação de um ano da revogação do aumento da tarifa em 2013, ocorrida em 19/6/2014. Mas ainda que junho tenha tido momentos maravilhosos e desdobramentos igualmente intensos, esse junho não é mais. O golpe sim, “está sendo”.

Testemunhar a destruição do Partido dos Trabalhadores é testemunhar também a destruição de uma série de políticas públicas, conquistadas com lutas de décadas. Engana-se quem pensa que o golpe foi apenas contra uma presidenta ou contra um partido. O golpe é contra toda a população, principalmente contra a população mais pobre. Era preciso frear o processo de maior qualificação de trabalhadoras/es, do contrário seria cada vez mais difícil explorá-las/os.

Sou professora em uma das universidades federais criadas no governo Lula, em um bairro periférico da cidade de Guarulhos, com diversas/os estudantes negras/os nas salas de aula. Os cortes promovidos pelo governo Temer, que até aqui reverberam principalmente nas bolsas de permanência estudantil (as que garantem moradia, alimentação e transporte de quem sem esse tipo de auxílio não poderia estudar), já estão provocando evasão escolar. As favelas do Rio, que já haviam sofrido intervenções em governos petistas, durante o golpe vivem esse processo de maneira acentuada, como afirmava Marielle Franco, antes de ser assassinada (ver por exemplo seu texto “A emergência da vida para superar o anestesiamento social frente à retirada de direitos: o momento pós-golpe pelo olhar de uma feminista, negra e favelada”).

Quem estiver participando desta exposição ou lendo esta carta até aqui, poderá elencar outras tantas retiradas de direitos em andamento ou já consolidadas. E refletir sobre a falta de reação contrária a essa retirada de direitos pelas classes populares, por anos submetidas à despolitização, pelo próprio PT, que deixou de realizar as ações que caracterizaram o surgimento do partido.

Mas, reforço, caso não tenha ficado claro até aqui, que a minha posição não é antipetista. Devemos reconhecer as boas políticas do lulismo – bolsa-família, PEC das domésticas, novas universidades federais, cotas nas universidades, pontos de cultura, editais de cultura, ensino da história e cultura afrodescendente e indígena, comissões da verdade e políticas de reparação da violência do Estado, reforma psiquiátrica, reforma agrária (ainda que insuficiente), entre outras –, e saber diferenciar certos governos de outros. Não é tudo a mesma coisa.

Sobre como proceder daqui em diante, para além de junho de 2013 e para além dos cincos anos depois de junho de 2013, somente cada uma/cada um pode saber.

Da minha parte, além de atuar como educadora e de vez ou outra escrever textos como este, estou engajada desde 2016 na Clínica Pública de Psicanálise, onde damos escuta a pessoas que estão precisando falar, por motivos diversos, entre eles racismo estrutural, machismo, misoginia e as diversas violências cometidas pelo Estado e pelo mercado. Uma proposição artística, ainda que vá levar muito tempo para que seja reconhecida como tal.

Acho que era isso que eu tinha a dizer, ou ao menos o que consegui produzir, em poucas horas (a própria duração da abertura da exposição). Queria ter dedicado algumas linhas à defesa de Rafael Braga, preso desde 2013, mas espero que outros trabalhos da exposição façam isso com a dignidade que ele merece. Também desejo solidariedade a Lula. Apesar de ele achar que junho ou o MPL foram arquitetados pela CIA, ainda é o meu candidato à presidência.

Que rememorar a intensidade daqueles dias nos firme no tempo presente, na vida cotidiana, porque é só no agora – nem no passado nem no futuro – que podemos agir.

Peço que esta carta seja impressa em papel simples e colada na parede com durex.

Graziela Kunsch
São Paulo, junho de 2018

 

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

 

 

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