Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Paraíso Perdido

Assistir Paraíso Perdido é mesmo como ouvir música brega. A gente começa achando estranho, meio forçado, duvidando da qualidade e acaba se rendendo e se apaixonando, para terminar chorando sozinho no balcão do bar.

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Lançado esta semana, o filme é dirigido por Monique Gardenberg, que não aparecia desde “Ó Paí Ó” (2007). O que pouca gente sabe, é que Gardenberg também é diretora de shows e DVDs de artistas como Caetano Veloso, Marina Lima e Roberto Carlos. Ela retorna às salas de cinema com um longa bem executado, mesclando seu interesse pelas temáticas das chamadas “minorias” com sua experiência singular na direção de performances musicais.

A música popular (romântica) do Brasil dos anos 1970 e 1980 é mais que a trilha sonora do filme: algumas vezes embala, mas outras, realmente, narra a sofrência dos personagens. A direção musical foi assinada por Zeca Baleiro que emenda um clássico no outro: Odair José, Reginaldo Rossi, Márcio Greyck, Augusto César, Gilliard, Waldick Soriano… E, ui, Johnny Hooker. Além de escolhas menos óbvias como Raul Seixas e Belchior e ousadias estilísticas como “120…150…200 Km por hora”, interpretada pelo próprio Erasmo Carlos. Ele faz o papel do patriarca “José” – o dono da boate “Paraíso Perdido” onde as histórias de sua família sobem ao palco todas as noites.

Outro cantor escalado no elenco é Seu Jorge. Ele dá vida à “Teylor”: motoboy de dia e cantor de noite. Em uma cena no camarim da boate, ele ensaia uma frase na frente do espelho: “quando um artista tem a necessidade de explicar sua arte para o público, é porque um dos dois é burro”. Chupada de Mario Quintana, a citação se torna meio tragicômica na interpretação de Seu Jorge. E funciona. Porque quando falamos de “brega” o preconceito já vem embutido. Você pode gostar ou não. Mas por que o ranço elitista da falta da qualidade? “Se agrada ao povo, não pode ser bom de verdade”. Bobagem. Todo mundo ama, todo mundo sofre. Pouco importa se a canção popular romântica é minimizada na história oficial da música brasileira, já que ela ecoa na nossa memória afetiva de modo tão enraizado.

Mas o cantor que mais brilha no longa é o estreante Jaloo. E que revelação. Na pele da drag queen “Imã”, ele mostra potência e segurança vocais que ainda não tínhamos ouvido. Porém, estamos falando de filme e não de música, . Pois sim, Jaloo manda bem nos palcos da boate e no chão da rua. Um personagem positivo, cativante por ser exatamente quem é. Ele se envolve com Humberto Carrão que, mais uma vez, interpreta um playboyzinho difícil de engolir. Mas dessa vez, ele muda, ele se aceita, e a gente acaba se apaixonando mesmo.

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Completando o dream team do cinema contemporâneo nacional, Júlio Andrade – que tem uma atuação excepcional, encarnando o eterno apaixonado “Ângelo”. Além de Lee Taylor, no papel do policial Odair. É ele quem vai nos apresentando à inusitada árvore genealógica do patriarca José. O elenco, que conta ainda com Malu Galli, Hermila Guedes, Julia Konrad e Marjorie Estiano, está super afinado.

Este time forma uma família que, à primeira vista, parece disfuncional demais, digna de novela mexicana. Mas é aí que nos enganamos. É gente como a gente, que sofre por viver num país como o nosso. A grande diferença é que esse clã familiar se ama e se respeita. Sem ser piegas. Pelo contrário. Sendo simplesmente humano: independente de individualidades, sejam elas de gênero, sexualidade, idade, classe, cor. Juntos e à sua maneira, eles lutam contra a homofobia, a violência doméstica, o machismo e o racismo. Monique Gardenberg está falando da universalidade dos sentimentos. E, apesar de não levar bandeiras, faz um filme-manifesto.

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Pontos para o figurino cuidadoso, que vai do brilho à ponta de estoque. A mesma blusa verde de lantejoulas que serve para reativar a autoestima da mãe ex-presidiária, serve também no seu filho travesti que vai encontrar o potencial namorado. As bijuterias usadas nas performances musicais se repetem discretamente, passando da prima para o primo. No realismo contemporâneo de “Paraíso Perdido” o vintage fica tão atual e o cafona fica tão sedutor… Há uma simbiose de linguagens: corpo, gesto, libras, música, performance… Tudo embalado na fotografia crua e, ao mesmo tempo, sensual de Pedro Farkas.

É surpreende como a direção consegue abordar tantos temas complicados sem se embananar. Existe uma mistura consciente e provocadora entre público e privado, entre marginal e doméstico, que permeia as sequências, costurando política com família, violência com desejo. Então, não se engane: este não é um filme “rasga coração” para você indicar para sua tia. Este é um filme que fala sobre amor e diálogo como formas genuínas de resistência e sobrevivência. “Amor marginal” – como o nome da canção.

 

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Fotos: Fabio Braga/Divulgação.

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

 

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