Camila Vieira Crítica semanal

E o mercado da arte? Como vai?

Durante a semana pensei sobre como resumir, o que, na concepção de Trotski e de André Breton, seria uma “Arte Revolucionária”, como pregam no excelente “Manifesto por uma arte revolucionária e independente”[1], feito em 1935. Só para rememorar, o manifesto fora assinado por Diego Rivera e Breton por causa da forte perseguição soviética à Trotski, que se exilou no México. Discorrer sobre o caráter revolucionário da Arte, contudo, não é possível se não contextualizarmos a produção artística dentro Sistema Capitalista, consequentemente, abrangendo uma dimensão por demais alargada sobre  conceito econômico e político presente na obra dos dois autores, além da questão materialista do marxismo. Contudo, recentemente surgiu uma notícia que pode dar luz a uma discussão que vai além da submissão do artista aos sistema mercadológico das artes: foram descobertos inúmeros crimes que envolvem a construção de Inhotim, desde grilagem de terras até trabalho escravo[2].

Não é novidade, ou pelo menos não deveria ser, que inúmeras obras de arte são adquiridas como objetivo de esconder a procedência de dinheiro sujo, e que há boa parte de compradores de obras de arte envolvidos em pelo menos ocultação de patrimônio, como foi o caso das obras abrigadas em contêineres, avaliadas em mais de 10 milhões de reais, e que foram despachadas dos EUA para o Brasil ilegalmente, em 2014[3]. Esta questão promíscua entre a arte como objeto de luxo e a criação de espaços expositivos destinados à elite, monumentos de pedra à desigualdade social e à exclusão cultural, porém, não vem à tona quando analisamos a produção estética fora do viés dialético da sociedade. Para Breton e Trotski, “ a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução”, contudo, este mesmo artista só é capaz de produzir uma arte revolucionária quando “está compenetrado subjetivamente de seu conteúdo social e individual, quando faz passar por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e quando procura livremente dar uma encarnação artística a seu mundo interior (BRETON;TROTSKI,1935:43).

Uma vez que o dinheiro e configurou no mediador universal e que o Sistema Capitalista exige que se produza a fim de alimentá-lo, o artista, que inicialmente exercia um trabalho individual não relacionado ao mercado, ou seja, improdutivo, agora passa a operar na lógica de exercer o seu trabalho como resposta a uma ânsia do Mercado burguês pela sua produção, ou seja, nesta sociedade, o artista passa a produzir não pela necessidade criativa, mas para gerar objetos artísticos que alimentem  “o mundo das artes’, no qual os equipamentos culturais e museus, se curvam ao Kitsch e a objetos esvaziados de sentido, apenas para abranger as necessidades estéticas de uma parcela da população.

Nós trabalhadores das artes, produtores, teóricos e artistas, devemos sempre estar atentos às incongruências entre o discurso da Academia e dos espaços culturais à realidade do Sistema no qual estamos inseridos, porque a revolução necessária e emancipadora ao meio artístico, passa pela  luta política contra a opressão social e pela submissão da cultura ao dinheiro, pois a verdadeira arte “ não se contenta com variações sobre modelos prontos, mas se esforça por dar uma expressão às necessidades interiores do homem e da humanidade de hoje”, antes, ela precisa “aspirar a uma reconstrução completa e radical da sociedade, mesmo que fosse apenas para libertar a criação intelectual das cadeias que a bloqueiam e permitir a toda a humanidade elevar-se a alturas que só o gênio isolados atingiram no passado (BRETON;TROTSKI,1935:38). Deste modo, enquanto o mundo artístico e o sistema das artes servir à alimentação do mercado e à movimentação econômica do Capital, expor problemáticas sociais num museu edificado por trabalho escravo, soará hipócrita.

[1]  BRETON; André.TROTSKI, Leon; GALVÃO, Patrícia… et al. Por uma arte revolucionária e independente:; tradução de Carmen Sylvia Guedes; Rosa Maria Boaventura. São Paulo: Paz e Terra: CEMAP, 1985. (Coleção Pensamento Crítico)

[2]Lara, Bruna de. DE GRILAGEM A TRABALHO INFANTIL: SURGEM NOVOS CRIMES DE BERNARDO PAZ, IDEALIZADOR DO INHOTIM. Disponível em: https://theintercept.com/2018/06/08/crimes-bernardo-paz-do-inhotim/

[3] Obras de arte no valor de R$ 10 milhões são achadas em contêineres. Disponível em: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/06/obras-de-artes-no-valor-de-r-10-milhoes-sao-achadas-em-containers.html

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

 

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