Carolina Lopes Crítica semanal

Amanhã vai ser maior!

— Amanhã vai ser maior! Amanhã vai ser maior!

Arrepio. O mesmo arrepio que sentia, enquanto bradava: dentro da multidão, marchava pela Presidente Vargas, avenida mais importante do centro da cidade do Rio de Janeiro, em junho de 2013. Logo na entrada, nossa voz emplacada em bronze, por Ivan Grilo, como as placas dos monumentos públicos: Amanhã vai ser maior, 2016.

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Parei. Virei-me. Olhei, com certo distanciamento histórico. Refleti. A exposição Junho de 2013 – 5 anos depois, curada por Daniele Machado e Gabriela Lúcio, teve sua abertura no último 2 de junho no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. Trabalhos de 33 artistas que, nas ruas, vivenciaram o junho de 2013 que entrou para a história. Instalações, fotos, vídeos, mobiliários, pixo, fantasias; ocupam o CMAHO com trabalhos que datam o marco das manifestações deste período no país.

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Numa sensação de improviso, a resposta urgente aos assuntos que desde lá só entulham. A mostra é democrática: não afasta pela sofisticação, comum aos espaços de arte, é acessível. O texto curatorial, que não está ao lado da entrada, já indica: contra toda a organização. A exposição não guia, não indica caminhos. Em cartolinas e pilot, todos os textos da mostra e a ficha técnica sugerem descomplicação. Nas legendas dos trabalhos, bio dos artistas. Importa a obra. Importa o artista. Importa o discurso e onde ele se forma. Importa o saber do público. Importa o acesso desse público. Todas as janelas das galerias estavam abertas.

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Em um canto, uma pilha imensa de caixas de lanche. Kit Manifesto Feliz, 2013, do coletivo Vô Pixa Pelada. Os lanches que anteriormente seriam a feliz surpresa das caixas, agora são convertidos em máscaras de gás artesanal e granada adesiva. Imediatamente recordo 2013: no momento de confronto, polícia x manifestante, gás e bala de borracha. Exatamente ali, pelas ruas do Saara, após muito correr, um abrigo enfim: o Bob’s do Largo da Carioca. As conexões entre os trabalhos da mostra e a vida são rápidas: os problemas ali, são os problemas do RJ. Ali, como há tanto se espera nas exposições de arte e nos centro culturais, os sinais são inteligíveis. Estamos em um centro de arte, no centro do RJ, no centro do Saara. Tudo o que há ali, é e precisa ser, não óbvio, mas absolutamente comunicável.

Num extremo da inteligibilidade, os trabalhos ocupam todos os espaços das galerias. Entre uma sala e outra, um incômodo na passagem: um canteiro de obras, é o trabalho de Camilla Braga: Obra em obras, 2016. Extremamente contextualizados, à medida que se percorre os trabalhos, avança-se ou retrocede-se no tempo. Estávamos também lá, nas ruas. Estávamos lá sendo atrapalhados pelas obras, feitas para turistas. Estamos acompanhando o caso Rafael Braga. Estamos no Facebook, acompanhando seus tribunais. É sobre aqui, sobre agora. Na ficha técnica, o nome do prefeito da cidade, Marcelo Crivella, já na abertura, foi rabiscado.

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CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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