Crítica semanal Ton Almeida

Do “Salão de Abril” ao “Quintal de Outubro”

A crise configura-se como o momento de uma ruptura, instaurando um novo paradigma de existência, a partir da entrada de uma informação que desestrutura os alicerces do que estava estabelecido. Pode ser coisa criada pra beneficiar uma determinada classe ou casta, jogando os ônus do processo para a multidão atordoada. Também pode ser uma reconfiguração do tempo, uma nova expressão do “zeitgust”, acarretando mudanças de economia, processos políticos ou alguma transição histórica, filosófica e social que sacode o inconsciente coletivo.

O Salão de Abril é um dos eventos de arte mais tradicionais do Brasil, completando este ano a sua 69ª edição.  Apresentado como uma espécie de termômetro sobre como se configura o pensamento a cerca de arte contemporânea no Ceará, sempre surge carregado de polêmicas e contradições. É uma espécie de vetor que, mais pela exclusão do que pela escuta e aceitação, apresenta diálogos entre os setores de produção artística da cidade de Fortaleza e os poderes institucionais em vigência.

 

 

Performance ocorrida durante o Quintal de Outubro e os participantes da exposição

Em 2009 um grupo de artistas, estudantes de arte e produtores independentes de Fortaleza organizaram o “Quintal de Outubro” , utilizando a máxima “Se você dançou no salão venha brincar no quintal”. A pauta maior de discussão deste período tratava da difícil acessibilidade de artistas da cidade ao Salão de Abril. A maioria dos salões eram compostos quase que em 90% por artistas de outros estados e regiões, o que menosprezava a efervescente produção cultural que ocorria na cidade a partir da estruturação de cursos superiores de artes visuais e da primeira leva de formações de centros culturais como os Cucas , Centro Cultural do Grande Bom Jardim, Escola de Artes e Ofícios e Instituto Dragão do Mar. A partir da disponibilidade de um salão vazio dentro de um restaurante no centro da cidade e da chamada efetuada pelo Coletivo Traços Aleatórios cerca de 30 jovens artistas compartilharam uma curadoria inclusiva e fizeram esta brincadeira jocosa. A iniciativa contava ainda com uma organização autônoma que dividia durante cerca de um mês os turnos de exposição entre os artistas para fazer o acompanhamento do espaço e a mediação junto aos visitantes.

Em 2017 a Prefeitura de Fortaleza não se manifestou em relação ao Salão de Abril. A gestão foi “empurrando com a barriga” e acabou não liberando recursos para a realização do evento. Artistas, Educadores e produtores da cidade mais uma vez se organizaram e fizeram a “68ª Edição do Salão de Abril – Sequestrado”. Desta vez uma nova configuração estava estabelecida na cidade de Fortaleza, contando com alguns espaços de arte de caráter autônomo, ateliês e “caseliês” e galerias de arte. A partir de algumas reuniões e da movimentação de todos estes espaços e agentes se constituiu uma integração de atividades que vieram por culminar numa das edições mais efervescentes dos últimos anos do referido salão.

 

Atualmente está em vigência o 69º Salão de Abril que desta vez traz mais um novo conflito em pauta: a atual gestão da Casa do Barão de Camocim. Espaço que desde a fundação da Vila das Artes foi prometido como local que sediaria a Escola de Artes Visuais de Fortaleza e serviria como parte do corredor cultural que constituiria a Vila. Apesar da ocupação da primeira e da quarta turma da Escola de Realização em Audiovisual da Vila das Artes, o espaço só foi “restaurado” para uso do evento Casa Cor.  Este ano como “mea culpa” a produção do salão trouxe discussões sobre resistências, desculpou-se publicamente quanto a não realização da edição anterior e parabenizou os artistas e produtores pela iniciativa do “Salão Sequestrado”.

Resta nos perguntar o que podemos fazer diante de crises e conflitos, quais os caminhos mais eficientes e potentes para gerar tensionamentos que alarguem a percepção e o modo de fazer, que desestabilizem os vícios institucionais e a condescendência diante do poder quando ele responde afirmativamente a demanda mínimas,quando não pauta o mais potente e usurfrui dos discursos de resistência para validar seus vacilos em forma de novas recompensas ou esmolas culturais mal negociadas,atravessadas de modo duvidoso. Para além do poder vigente também nos cabe enquanto classe trabalhadora entender quais nossas reais necessidades, reivindicando isto em forma de política cultural consolidada. A crise de um modelo sugere a superação da fórmula e aponta para uma perspectiva mais ousada, em que os cordões umbilicais são cortados e a liberdade criativa pode dançar outras coreografias.

 

 

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TON ALMEIDA é artista multimídia, educador, produtor e gestor cultural. Desenvolve, individualmente e em sistema de colaboração com outros artistas, trabalhos de perfomance, instalação, intervenção urbana, que transversalizam técnicas e discursos referentes ao cinema e as artes visuais. Tem interesse nas relações entre memória, identidade, cinema expandido, performatividade, paisagens, território, envolvendo a prática comunitária como ferramenta de luta social.

 

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