Candé Crítica semanal

Pintores Grafiteiros, Grafiteiros Pintores

Grafite é glamourzinho, né? A Arte Urbana que deu certo, que segue a lei. Ele se conecta originalmente com um movimento cultural denso de várias expressões, o Rap. Tem densidade conceitual e formal. É uma das expressões da Pintura com inúmeros graduandos pelo globo invadindo a paisagem cotidiana das cidades. É uma arte comumente figurativa, dialoga com o espaço, é acessível pra produzir e assimilar. E o Grafite está explorando outros diálogos e limites.

Grafiteiros já são artistas contratados pra obras site specific, murais e painéis dialogando com arquitetura e design, objetos de arte, etc. Artistas Visuais que já ocupam galerias faz um tempo, algumas específicas até, com espaço garantido no mercado. As cifras ainda não soam astronômicas, mas entre os das maiores cifras registraram estão, rufem os tambores: grafiteiros brancos. Os Gêmeos, que tem legitimidade do meio pelo berço Rap Paulista, Zezão, Kobra…

A rua é de todos (e de todas?). A maioria dos artistas do Grafite, que não é incomum a relação com pichação e outras intervenções urbanas, tem origens em classes nascidas do conflito urbano. Muitos não abandonaram as intervenções “desaprovadas”. A legitimidade do mercado não define a qualidade ou densidade das obras (Ou é nisso pelo menos que queremos acreditar). Meio enculcado com o cenário nacional, acabei encarando uma exposição de Grafiteiros e Grafiteiras: a CONGENERES. Ela tem curadoria da Camila Camíz e Miguel Alfa. CONGÊNERES não é uma palavra muito usada, mas acessível (velho esquema meio dado pra escolher nomes de exposição). É inteligente como argumento. Permitiu agregar 13 artistas, 7 mulheres e 6 homens, pela inovação não apenas naquilo que deveria ser básico, a equidade de gênero, mas também pela opção curatorial de ampliar a participação independente da raça dos artistas. Sim, escolhas baseadas na qualidade dos trabalhos, que entendam suas propostas. Quando é esta a afirmativa o resultado é como na exposição: uma profusão de artistas negros expondo ao lado de todos os outros. Uma experiência incomum e enriquecedora de equidade. São artistas que atuam no Rio de Janeiro, de todas as regiões da cidade. O que permite um vislumbre do que eles e elas estão produzindo por aqui enquanto pinturas, objetos, fotografias e colagens.

CRUZ é um emergente consistente na Pintura. Sua origem é a Pichação, o Grafite. Hoje avança na Performance, Arte Corporal, Escultura. Sua obra imprime códigos com padronagens afrorreferenciadas. Seu domínio vai além das impressões em qualquer superfície. Ela alia a visualidade do seu trabalho de símbolos únicos como referências de uma ancestralidade nos corpos presentes. O negro presente como o resultado das vidas pregressas e sua marca indelével em nossas realidades. Difícil pra críticos distantes do discurso negro brasileiro entenderem a metade do que os corpos negros conseguem assimilar ao se relacionarem com suas obras só de olhar. Camila Camíz tem um trabalho próximo das ilustrações maduras dos bons livros infantis. Daqueles livros antigos onde verdades humanas são ensinadas metaforicamente aos inocentes. Camadas de cor em pinturas-colagem, repletas das técnicas de impressão das Artes de Rua, com temas modazes de uma vivência feminina da urbe. Miguel Alfa tem um nome referenciado nos estudos astrológicos do ocultismo contemporâneo. Das obras sobre os segredos do africano Hermes Trimegisto e seu legado astrológico e alquímico, um tom intervencionista. Intervenção sensível, de impacto “mágico”. Sígnos que congregam elementos capazes de alterar as rotinas ao seu redor? Magia do Caoz? Todos querem ver mais. Lidia Viber é aquela artista que impressiona no uso das cores. Sua luzes nos levamaos reflexos da noite nas metrópoles nos corpos. Um retrato fresco do nosso trânsito em existências hiper estimuladas. Luzes diferentes das dos trabalhos de Cety Soledad, artista da periferia que traduz um deslocamento das imagens do cotidiano, apresentando um novo olhar sobre identidades, espaços e laços em nosso mosaico de prédios.

A maioria com linguagem bem comercial. Digo aqui no sentido da relação com a visualidade das obras e sua conexão com artigos de arte presentes em galerias de médio porte em todo país. A exposição é mais um asset do Kariok Hostel na Glória. É muito pequena, um defeito já que são 13 artistas, porém despretensiosa no ponto exato de gerar a vontade inevitável de conhecer mais de todos os artistas.

Vamos ficar de olho nesses caras.

CONGÊNERES a vernissage dos grafiteiros cariocas

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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