Crítica semanal Daniele Machado

Sobre empregos dos sonhos e o capitalismo

Esses dias conversava com um grande amigo que é um designer incrível sobre os nossos ideais de trabalho e a realidade que o capitalismo nos cansa todos os dias. Uma conversa que pode se aplicar a qualquer área de atuação, mas falávamos das artes como um todo. Dos amigos que nunca foram empregados. Dos amigos que foram muito bem empregados nas suas áreas, foram demitidos e nunca mais conseguiram o emprego bom na área. Do amigos empregados fora da área. Dos amigos empregados dentro da área, mas com salários desatualizados e com uma estrutura que inviabiliza a realização de trabalhos mais complexos. Isso nos leva a outra questão.

A arte caminha em uma linha onde o balanço da caminhada faz com que os corpos individualmente ou em grupo oscilem entre as demandas do mercado e os seus próprios desejos. Não que não haja um encontro entre os desejos e as demandas do mercado, mas falo sobre as pequenas utopias que nos move todos os dias a realizar apesar de tudo – este apesar de tudo que nem por isso deixa de se aproveitar das nossas utopias. Não estou aqui romantizando a precariedade do baixo orçamento da cultura e da arte, estou apenas dizendo que apresar disso, seguimos tentando realizar o possível, não queremos parar. Por outro lado, o mercado se aproveita disso. Não vamos parar mesmo, então suportaremos condições ainda piores de trabalho, não há qualquer respeito em relação a isso. Isso nos leva a outras duas questões.

A primeira. Não se trata apenas da desvalorização do nosso trabalho pelo mercado, pelo poder público, mas também pelas pessoas. Nos últimos anos, há um senso comum nas redes sociais em que qualquer pessoa se sente apta a fazer comentários sobre artes, filosofias, ciências políticas, histórias. Se você discorda e argumenta baseado em estudos, você é arrogante ou petista ou os dois. Ninguém fará isso com um engenheiro, com um químico. Essa desvalorização pública não é de agora, apenas sinalizei que tem estado dessa maneira por esses últimos anos.

A outra questão é que esse pensamento de que qualquer um pode fazer também é fruto de uma prática real assim. Com salários irrisórios e uma estrutura precária sempre bem presente nas história das artes do país, muitas instituições dependem de que quem ocupe suas chefias – seja de direção, curadoria, arte-educação, cenografia, museologia, administração, etc – não dependam do seu salário podendo passar meses sem recebê-lo e utilize suas redes de contatos para prover a estrutura que não existe. Que se profissionalizaram simplesmente pela vivência, por crescer jantando com os quadros que a maioria vê pelos livros – ou nem vê – , nas paredes. como Bourdieu investiga sobre o habitus em A distinção. Ou seja, pessoas ricas, “bem nascidas” como dizem.

Ficamos com poucas opções para ter uma carteira assinada, mesmo que isso já não tenha tanta importância. Para quem é graduado e não pensa em seguir carreira acadêmica, ser arte-educador. Para quem pensa em seguir a carreira acadêmica ainda tem algumas poucas bolsas para cursar mestrado e doutorado, com a esperança de ter uma vida de conforto algum dia ao passar em um concurso para ser docente em uma universidade pública. Não quero aqui menosprezar ser arte-educador ou a carreira acadêmica. A academia é o nosso refúgio. Quero questionar serem as únicas opções reais e ainda MUITO restritas, mas mais acessíveis, para quem não é rico e não pode simplesmente viver com um salário atrasado em um emprego.

Os nossos ideais não coincidem especialmente com o local que ocupamos como latino-americanos no mundo. Somos latinos, indesejados, escórias. Só produzimos precariamente. Protagonizamos processos no mundo que lidam com a precariedade. Essa é a nossa especialidade. Desde que li o discurso de Kynaston McShine sobre a sua curadoria na mostra Information ocorrida no Museu de Arte Moderna de Nova York em 1970, nunca mais esqueci quando retomo o assunto precariedade. A exposição marcada como pioneira na produção de arte conceitual, reuniu muitos artistas periféricos no mundos, não europeus e não estadunidenses como Hélio Oiticica e o argentino grupo Frontera. McShine justificou que esses artistas se adequam bem a prática da arte conceitual, que se beneficia da precariedade para o seu pensamento.

Compreender as expectativas de trabalho em confronto com a nossa localização no mundo é fundamental. Talvez os ideais nunca cheguem. Não chegam nem nos países “desenvolvidos”, quem dirá a nós, em “subdesenvolvimento”, “terceiro mundo”. Por que chegaria por aqui? A precariedade é nossa especialidade, ex-colonizados. “Da adversidade vivemos” dizia bem Helio Oiticica. O Método Destrutivo está entre nós. É um modo de lidarmos com nossas imagens, com a nossa bagagem coletiva de imagens. Destruimos, retornamos ao zero, para começar tudo de novo. Manipulamos as nossas memórias recortando-as. Deslocamos as matérias da sociedades, denotando-as novos significados: Ruínas em Construção. Nos são estranhas, deve ser por isso. Parecem abandonadas, mas estão em construção, apesar de serem ruínas.

Acredito que reinventar nossos modos de produção seja a única opção diante desse cenário. É um processo complexo, mas que suspeito que dará certo. O que não é mais possível, é que diante da restrição de orçamento todos recebam como cobram: a empresa dos adesivos, da iluminação, recebe a gráfica, a assessoria de imprensa, o revisor… menos os artistas. Não é mais possível manter em dia diversos gastos, mas nem sequer pensar sobre os artistas, que também pagam as suas próprias contas. A reinvenção é necessária pra já. Não será fácil. Mas sem isso, será impossível profissionalizar com consciência as artes. Nossos mare é malditus, seguimos com a utopia. Incansáveis, mas sem ilusão. Somos o que somos.

 

Imagem: Latin vtopia 01/ 02 (2017) de Cyanogaster Noctivaga

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dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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