Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Estilhaços de flores / Jardins de vidraças

Esta semana, tive o prazer de fazer a curadoria de Estilhaços de flores / Jardins de vidraças. É a primeira individual do artista Alexandre Baltazar, que apresenta pinturas em nanquim sobre papel. A exposição fica aberta ao público até o dia 13 de julho na Quadra*, espaço independente localizado no Leblon.

Com pincéis finos e traços aparentemente despretensiosos, Alexandre Baltazar cria uma codificação híbrida entre pintura e desenho. Suas composições de nanquim sobre papel, sempre em preto e branco, dão espaço aos elementos banais e inquietantes do dia-a-dia. Estes elementos aparecem justapostos a palavras ou frases (que soam como poesia, mas têm etimologia e efeito subversivos) revelando a atitude esmiuçadora do artista sobre as situações do cotidiano. Ele é, antes de tudo, um atento observador do seu tempo.

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Como ele mesmo diz, sua mente visita todo dia, incansavelmente, lugares e situações que todos nós conhecemos, mas não botamos reparo. Ao emoldurar imagens ordinárias da vida urbana contemporânea, Baltazar nos obriga a reparar na sociedade adoecida que construímos e nos nossos relacionamentos (igualmente disfuncionais). Suas incursões diárias ora visitam lugares áridos, espinhosos e desconfortáveis, ora lugares doces e ensolarados. Mas Baltazar não é prosaico. Ele é um crítico. E nos provoca o tempo todo.

É essa aposta constante no desconcerto que torna suas obras tão atraentes. Exemplo dessa idiossincrasia é a série “Estilhaços de flores / Jardins de vidraça”, que dá título à exposição. Com o isolamento de objetos cotidianos e a inclusão das frases datilografadas, as obras nos desafiam não só do ponto de vista formal, mas também do narrativo. Elas se revelam exatamente no contraponto entre poema e crítica social, entre política e sentimento, entre banal e absurdo, entre amor e protesto. O mesmo se observa nos dípticos “Parede com olhos” e “Não-verdades”, e no políptico “Tempestade nenhuma vai nos impedir de celebrar um sol de todos”.

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No conjunto dos trabalhos apresentados, podemos destacar dois grupos de componentes recorrentes. O primeiro, composto por grades, arames, cones, câmeras, muros e paredes – elementos limitadores, cerceadores, repressivos, que segregam, obstruem e censuram: distopia. O segundo, composto por escorregadores, gangorras, escadas, carrinhos de compras e um sofá: elementos lúdicos, que misturam consumo e prazer, lazer e tédio, diversão e solidão – utopia. Trata-se de um conjunto que escancara o conflito entre a promessa libertária da contemporaneidade e o efeito desumanizador do capitalismo e da indústria cultural.

Não é exagero dizer que Baltazar faz parte “daquele” grupo de artistas que têm a capacidade de não levar a arte muito a sério. Uma apreciação renovada pela relação entre arte e vida cotidiana faz de sua pintura a expressão do completo tédio com relação à estética como a conhecemos. Há uma economia expressiva nas obras que questiona o próprio fazer artístico: assume a característica auto referencial da arte contemporânea para, ao mesmo tempo, questioná-la. É como se o artista operasse num plano suspenso onde arte, comunicação, filosofia (e um certo gosto pela ironia) se cruzam. Baltazar tem um fazer artístico livre de qualquer entrave, é um artista que sabe utilizar cada sugestão e (sob pena de estarmos sendo reducionistas), se quisermos caracterizar sua arte como protesto, que seja contra o caráter frouxamente improvisado do nosso tempo.

Dois trabalhos são icônicos neste sentido: “Cópia de mim mesmo” e o inusitado “Mature woman worried about the future isolated on white background”. Como ready-made bidimensionais, eles condensam os tópicos do deslocamento de contexto (que transforma o objeto cotidiano em objeto artístico), o questionamento sobre a legitimidade da figura do artista e o (mal) estar na contemporaneidade.

Considero “Mature woman” um trabalho “inusitado”, porque é o único que traz a figura da mulher, nos direcionando para a posição incômoda e reflexiva que é estar no mundo. Há também uma ironia que sobrepõe a tradição da pintura de retrato, com seus fundamentos de personificação e memória, e a generalização impessoal do banco de imagens na internet. Da contextualização histórica pra descontextualização contemporânea.

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Contudo, é importante destacar que essa análise crítica é motivação e não objetivo de Baltazar. Ele deixa claro que o questionamento da arte é reflexo do questionamento sobre a vida, nossos desejos e valores. É evidente que o artista está interessado na multiplicidade de leituras possíveis: pode ser uma história de amor sem final ou um manifesto sobre a urgência de uma transformação político-cultural. Não importa: ele quer (ainda que de maneira inconsciente) gerar envolvimento. Por isso, impregna com enorme sentimento tudo que pinta – embora este seja um sentimento muito mais provocador e ambíguo do que reconfortante.

Como via de regra, ele procura criar situações que nos são familiares. E, se num primeiro momento elas nos fazem sorrir, no instante seguinte, nos atingem como pedradas. Todo mundo, em alguma medida, sente e sabe que há aspectos da existência contemporânea que são inaceitáveis. Mas parece que ninguém faz nada a respeito. Baltazar é uma das poucas exceções. Ele interroga: “você está vendo isso, né?”. A pedra bate e quebra nosso teto de vidro.

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*Visitação de segunda à sexta de 13h às 19h.

 

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LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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