Camila Vieira Crítica semanal

Por um espaço para abortar

Finalmente, há espaço para abortar na Argentina. Não trato do espaço físico, porém, mas do espaço que nós, mulheres, necessitamos para falarmos e sermos ouvidas, para termos nossas pautas e nossos ensejos presentes nas ruas, nas casas, nas mídias. Há dois modos de se pensar o aborto: primeiro, como promiscuidade, falta de caráter e como pecado, segundo, como um direito legítimo, como cuidado consigo e como uma responsabilidade assumida de que, naquele momento, gerar uma criança não é a melhor opção. Lembro que, durante a 31ª Bienal de São Paulo, o coletivo boliviano “Mujeres creando”, composto por mulheres de diferentes afazeres e classes, que lutam pelo fim do patriarcado e pelo direito de escolha, trouxe, por meio de um útero-instalação, “Espaço para abortar”, a fala de brasileiras que, anônimas, porque criminalizadas pela prática de abortar, contam suas histórias, os seus medos, e situações que tiveram que enfrentar antes e depois da interrupção da gravidez.

Nesta época, 2014, eu já havia assistido ao documentário “O aborto dos outros , de Carla Gallo, e já sabia as estatísticas sobre a morte materna no Brasil, em decorrência dos procedimentos clandestinos, contudo, não há como negar que ainda hoje existe uma bolha entre aqueles que conversam sobre o aborto enquanto direito e entre aqueles que reproduzem o discurso machista provindo da sociedade patriarcal, ressaltado pela moralidade religiosa e pelas doutrinas que negam o sexo, o prazer e todo o tipo de relação social que extrapole a conduta de uma obra ficcional, histórica, metafórica e feita por vários autores, em diferentes épocas, escrita há cerca de dois mil anos atrás. Foi importante que um coletivo desse conta de trazer essa pauta a um dos maiores eventos de Arte do mundo, pois, além do caráter internacionalizante, o Útero expôs uma demanda no centro da sociedade paulistana, num mega-evento frequentado por milhares de pessoas.

MujeresCreando_C

Isso faz pensar a respeito da produção artística brasileira sobre o tema: ainda falta romper barreiras. Precisamos falar sobre o aborto combativamente, ativamente e diariamente. Não é a população católica que impede que o aborto seja legalizado no Brasil, fosse isso, Irlanda e Argentina não o fariam, nem o machismo, que existe neste e em todos os outros países, inclusive aqueles nos quais o direito ao aborto foi conquistado. Concordo com Marília Moscovich, a quem eu sigo desde duas previsões sobre os desdobramentos de 2013: o que falta ao Brasil “é um movimento feminista ousado e combativo em relação a essa questão, que não tem medo de falar as coisas com todas as letras, que não tem medo de realizar ações diretas”, nós feministas, precisamos deixar de nos pautar pelos outros, como oposição e colocarmos as nossas reivindicações em debate.

É necessário, como aponta Marília, ir além dos PLs, pois, mesmo dentro da lei, ainda há medo. Não se orienta sobre o aborto seguro, mesmo que não seja crime falar sobre ele. Há protocolos internacionais sobre o assunto, no entanto, nacionalmente, não se fala a respeito da interrupção da gravidez, dos protocolos, nem dos medicamentos. É necessário causar tensão, é necessário abrir esse diálogo à sociedade, não somente como o direito ao corpo, mas o direito à voz e à escolha, e isso, passa por coletivos feministas mais enfáticos e mais claros a respeito dos procedimentos que envolvem a ação de abortar e a uma rede de apoio que ofereça suporte às mulheres que optaram por isso. Precisamos de mais úteros em Bienais, precisamos de cartazes, de cartilhas e de manifestos dentro e fora das Instituições artísticas, pois o diálogo é construído socialmente e essa construção social depende de referências, de projeções, e de outros acervos imagéticos e dialógicos, que não os diariamente propagados pela hegemonia dominante, dos quais todas conhecemos bem.

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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