Carolina Lopes Crítica semanal Política

Ana Mandieta e a Terra do Nunca

12 anos de idade, uma menina e sua irmã. Junto à elas, um grande grupo de crianças sendo deslocadas, de sua terra natal, Cuba, para os Estados Unidos. Se trata de um exílio, que tem por nome Operação Peter Pan. Ana Mandieta, artista cubana, teve sua infância e vida, marcadas pela operação americana, de ‘salvamento’ de milhares de crianças cubanas.

Entre fotografias, performances, vídeos, esculturas, Mandieta é uma importante artista latino-americana. Ligada à arte conceitual, arte feminista, land art, seu trabalho tratava de assuntos que estavam na agenda, à sua época e ainda hoje. Cheia de pautas legítimas, Mandieta conheceu a morte prematuramente. De uma trágica queda, rumores de suicídio, apesar de fortes indícios de assassinato: no momento da queda, Mandieta brigava com seu marido na época, artista minimalista americano, que foi julgado e absolvido pelo possível crime. Muitas vezes ouvi sobre a obra do marido de Mandieta. Diversas aulas, seu nome e sua obra citadas. Tive aula sobre o período dos anos 60/70 na última semana, e o marido de Mandieta foi novamente citado. Nunca, em momento algum, ouvi em alguma aula, dos cursos que faço sobre história da arte, o nome Ana Mandieta. Estou quase no fim da graduação de história da arte, e este nome não foi ainda mencionado em nenhuma das aulas. Eis aí uma questão da pauta dela mesma, que até hoje perdura.

Como gravura, Mandieta se põe nua, e imprime nas superfícies, seu corpo. Ocupa, com materiais orgânicos, os espaços xilogravados com sua forma. Flores. Galhos de árvore. Sangue. Corações de animais. Fogo. Ritualisticamente, falava de deslocamento. Investigava identidade e lugar. Identidade e gênero. Em trabalhos como a série Arbol de la vida, 1977, Flores en el cuerpo, 1973 e Death of a chicken, 1972, dialoga corpo, espaço, pertencimento, identidade. Na série Silueta, traz à discussão o lugar deste corpo, amputado de sua raiz. Um corpo que no ato performático, se coloca. Por meio do contato forçado ao território, um ritual de passagem, como os ancestrais: Mandieta decide e promove sua colocação. Sela, oficializando tal intervenção, hora delicadamente, hora drasticamente, assim mesmo como se dão as relações. Mandieta transforma o não lugar: seu lugar.

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Centro de comunicação e discurso, é o corpo se situa, para Mandieta. Em trabalhos que pontuam sua presença física e performática no mundo, expõe seu fascínio pela natureza e o corpo como tal. Potencializa o feminino, reverenciando as práticas mágicas primitivas. Promove a fixação deste corpo como força. Coerentemente, falava em alta voz sobre violências contra mulher. Em Rape Scene, 1973, Mandieta pesa a realidade, como uma bigorna, sobre o corpo feminino. Uma fotografia em que, Mandieta está debruçada sobre uma mesa, em um cenário caótico, nua. Escorre sangue em suas pernas. Faz referência a um estupro que aconteceu na Universidade de Iowa, onde estudou. E  estende a referência às mulheres que, ou sofreram, ou têm seus corpos coagidos à possibilidade de tal violência.

Ana Mendieta, Rape Scene,1973, Moffit Street Lowa City, Lowa

Há também, na obra de Mandieta, algo de inocente, quase infantil. Como uma criança, subverte padrões de regimento social e cultural, ultrapassa estruturas, fomentando uma nova. Como a Monalisa de bigode, Mandieta transplanta pêlos, da barba de um amigo, para seu próprio rosto. Produz um bigode: se é preciso outro corpo, outra performance, para representar poder, ela cria. Em anedota, em humor, ela ridiculariza os signos. Revira os lados. Profana a ‘santa’ figura masculina. Se a  operação que promoveu o deslocamento da pequena Mandieta é Peter Pan: o lugar para onde foi levada é a Terra do Nunca. Ana Mandieta tem a fé que cabe a imaginação de uma criança, para vislumbrar, exigir e fabular a liberdade ao corpo oprimido. Esta semana uma vitória: na mesma América Latina de Mandieta, na Argentina, o aborto foi legalizado e instituído como serviço público gratuito. Há que se acreditar!

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CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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