Crítica semanal Ton Almeida

Por mais organismos

Colonias de Fungos

 

Artistas são aquel@s que assinam e proporcionam um produto chamado de obra ou trabalho. “Artista” e “Obra” são etapas de um circuito, estando inseridos numa lógica da institucionalidade e mercado ou existindo de modo solitário e isolado, sem inserção e participação aparente, ainda assim são oriundos de uma educação que permitiu que esta virtualidade possa se executar.

Nosso modo de produção ainda se ampara numa perspectiva industrial, de encadeamento e subdivisão de funções. Sustentada por lógicas de profissionalização, especialização e reconhecimento. Também temos processos um pouco menos maquinais que acabam por viabilizar uma maior capacidade de aceitação dos afetos, tornando toda a lógica aparentemente menos burocrática. No entanto o mesmo que permite a fruição de algumas liberdades estéticas também executa o favorecimento de castas nepotistas de privelegiados. É a lógica da “patota” e da classe favorecida. Assim mantem-se a engrenagem circulando em funcionamento.

O discurso teórico da classe muitas vezes aparenta um rompimento com esta lógica e aponta para soluções ao se estabelecer de modo visceral e rebelde, mas a ruptura de fato quase nunca acontece. Estamos mergulhados no vício acadêmico e na tradição hierárquica. Abaixamos a cabeça para os senhores dos feudos artísticos: Estado, Instituições de ensino e empresas patrocinadoras. Não sou profeta ou visionário para apontar soluções eficazes mas há o desejo de algo mais tesudo e potente do que este jogo de cartas marcadas. Não se trata de reivindicação por fazer parte da economia e ter uma fatia do bolo, apesar de que talvez fosse gostoso tacar um dedinho na cobertura. Trata-se mais de um cansaço e preguiça de ter que enfrentar as mesmas estruturas chatas, os mecanismos de sociabilidade por reconhecimento, as disputas por inserção, a competição por qualidade e excentricidades e etc .

Seria necessário irmos além de uma revisão e do processo crítico. Modificarmos toda a pedagogia da coisa e avaliar o que de fato interessa ao tentar mergulhar na estética como algo que cabe ao mundo enquanto zona de conhecimento e atuação. Desprogramar a máquina e acionar o organismo, tentando tornar isso mais fluído e possível de atravessamentos da vida que não estejam amparados apenas por um circuito. Não precisamos sustentar o que não acessamos em plenitude. Melhor seria formar bolor, agindo como fungo e bactéria, corroendo e se apropriando, criando outras colônias, permitindo-se a experiência de não ter de fazer parte, debandando.

 

ton 3

TON ALMEIDA é artista multimídia, educador, produtor e gestor cultural. Desenvolve, individualmente e em sistema de colaboração com outros artistas, trabalhos de perfomance, instalação, intervenção urbana, que transversalizam técnicas e discursos referentes ao cinema e as artes visuais. Tem interesse nas relações entre memória, identidade, cinema expandido, performatividade, paisagens, território, envolvendo a prática comunitária como ferramenta de luta social.

 

 

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