Candé Crítica semanal

Notas sobre Arte Negra Contemporânea: Vivência.

Queria ter aquelas histórias de uma infância no Olodum, raspando o Santo cercado de ervas como num “Jardim das Folhas Sagradas” idílico. Ou uma juventude negra roots, cheia de dreads e hidrantes jorrando água nas tardes de Verão. Mas na adolescência eu era muito NERD e jogava RPG. Por conta disso eu ouvi falar em Nietszche, “Assim falou Zaratustra” e entrei em contato com conceito de Vivência. Não foi nos livros da Angela Davis ou da Audre Lorde defendendo Vivência no protagonismo das mulheres negras na luta por Direitos Civis estadunidenses. Não foi nos sambas do Péricles. Não foi a capoeira desde menino. Foi em “Da Escrita Com Sangue”. Parte de Assim Falou Zaratustra. Este foi meu primeiro contato, verdade seja dita. A crueza pedagógica da experiência limite. As inesquecíveis. Estas que ficam escritas em nós.

Erlebnis é o termo alemão para esse “sentimento fundamental e global, duradouro e dominante”. Essa experiência que marca, é única, reformula nossas vidas. É irracional, como Pathos – o conceito grego da Paixão, Dor, da inevitabilidade trágica, das fatalidades, do destino. Na Psicologia está na fenomenologia da experiência, abraçada pelos Estudos da Complexidade. Enquanto aconselhamento, a Vivência deve ser entendida em sua densidade complexa para que possa ser aplicado precisamente no contexto onde é fundamentada. O velho saber bem onde está se metendo.

Vivência é categoria fundamental nas experiências civilizacionais afrorreferenciadas. No Candomblé Keto, um itãm reflete especificamente sobre o peso da experiência. Nele Obatalá molda a cabeça (Ori) humana. Enquanto Ele as moldava, Exú olhava e prestava atenção. Não fazia pergunta, só. Isso durou dezesseis anos. Neste tempo, ele aprendeu tudo, sim, Tudo sobre os humanos. Entendendo o potencial de transmissão de valores culturais através das cosmogonias/mitologias, o conhecimento aqui é um fenômeno do corpo. O corpo que media. É no corpo que conhecemos tudo ao redor. É o que guardamos conosco, em nós mesmos, que nos dá as ferramentas pra lidar com a vida. Quaisquer que possamos desenvolver. É o que nunca esquecemos. Antes do domínio técnico de ferramentas metafísicas, Vivência é a irrazão que torna determinadas experiências fixas. As que importam. As que precisam ser emuladas e repassadas.

Ainda sobre a cosmogonia iorubana no Brasil, reflitamos: Xangô, Deus da Justiça, vivia em guerra. Muito diferente da simbologia pacífica da mulher com espada e balança. Um povo escravizado não pode ter a mesma imagem de justiça do escravizador. Enquanto Exú mostra onde o errado e o certo dependem do contexto. Um conceito bem denso. Vai desde uma moral comunitária que prega todos estarem certos em suas próprias perspectivas. Velhos ensinamentos sobre a importância do diálogo, algo que nos faz certa falta hoje em dia. Chega na fina sintonia da ação certa poder ser, dependendo do contexto, uma atividade errada. Os Quilombos eram ilegais assim como Capoeira, Candomblés, Tambores de Mina, Afoxés e tantos outros. Crimes fundamentais pra nossa identidade. Belos exemplos do certo-errado, errado-certo. Experiências cotidianas das dualidades, hipocrisias, contradições presentes no dia a dia nacional de todo brasileiro.

Sentir na pele. Nas peles negras. Este conhecimento é algo que não se pode apropriar. Tem sido bunker criativo num Mercado de Arte hermético e autofágico. Garante o protagonismo criativo numa linguagem nitidamente ainda não compreendida pelos espaços de Arte. Um exemplo foi o público presente no MAC-Niterói ter achado que o Ayrson Heráclito estava sendo apenas um cara “povão” oferecendo feijoada na abertura de sua exposição “Senhor dos Caminhos” deste ano. Ou o MAM que abrigou a exposição Alimentário (2014) que creditava a origem da feijoada a uma versão de cassoulet quando já era feita em Ifé na África milênios antes… para Ogum – O Senhor dos Caminhos. Michelle Mattiuzzi faz um livro-fotografia-relato pra expôr seu lugar de fala em suas Performances. Os flagelos de terços, uma violação Cristã no corpo negro de Priscila Resende. A experiência de Ancestralidade na visualidade de CRUZ. O conforto nas posições de corpo ocupante/invasor de Lyz Parayzo, viva vida não normativa nos espaços bloqueados aos corpos periféricos. As tangas deliciosas da Igreja Universal do Reino das Bichas de Ventura Profana. Peles Negras em corpos diversos que assinam na Contemporaneidade a complexidade única e tensa nestes corpos, que edificam uma própria linguagem.

Estamos desenvolvendo uma Arte valiosa e ainda incerta. Com apostas no Mercado consistentes. Existem bons fundamentos de uma História Negra já escrita. A luta por ampliação de Terreiros, Tambores de Mina, Afoxés, Batuques e demais africanidades que propiciam uma Vivência afrorreferenciada. O impacto destes espaços tradicionais em vidas negras do presente. Ampliação de protagonismo, sem muitas comemorações. Mas muito desconhecido, pouco diálogo e uma formação geral deficiente que dificulta que códigos culturais africanos sejam identificados e entendidos. O velho Racismo Institucional que procurou exterminar um eixo cultural fundador do país. Raízes das Políticas Eugenistas da virada do século XX que ainda ruminam na sociedade brasileira. Cabe ainda à Arte, aos próprios corpos negros em todos os lugares, à sociedade como um todo… Cabe ainda muito o ouvir estes corpos. Existe muito conhecimento sendo desenvolvido. E só alguns trabalhos foram citados.

Poucos consagrados e consagradas. O corpo de artistas de pele negra seguindo em suas pesquisas cresce a cada dia. E queremos muito mais. Porque cada corpo a menos é um infinito de conhecimento desperdiçado. Necessário frente a falta de pontes que temos numa sociedade dividida.

 

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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