Crítica semanal Daniele Machado

Pequenas histórias das artes

A história pode ser vista de várias formas, mas ela é ensinada no currículo escolar como uma linha, em permanente progressão. Na ponta estão os países desenvolvidos, o Brasil talvez esteja pelo meio. Talvez alguns países latino-americanos estejam mais frente do Brasil como Uruguai, Argentina e Chile. Talvez outros estejam mais atrás. Grandes personagens unem a todos. Muitos deles sentados em cavalos por praças das cidades. Talvez 99% homens. O “poder” de nos conduzir é passado de mão em mão, nem sempre de forma pacífica. Boa parte deles são militares. Quando não são, permanecem a postos e caso necessário podem intervir. Seguem soberanos. Entram ou saem pessoas do poder, seus arquivos não podem ser acessados. Esse tipo de história não cabe a quem é periférico nesse funcionamento todo. Ou seja, a maior parte da população. É um tipo de história importada, dos países protagonistas que colonizaram outros países. Lembrando que o Brasil faz parte do grupo dos que foram colonizados. Logo, por que aspirar a história universal?

Por que aspirar uma história como essa sobre a arte brasileira? Fatos principais que movem a produção de arte em todo o território IMENSO do país? Geralmente no eixo Rio-São Paulo. Geralmente nas capitais. Geralmente homens. Geralmente nenhuma surpresa. Por que não desejar e trabalhar por histórias das artes pequenas?  Do tamanho que elas precisam? Histórias das artes ao invés de História da Arte. Que se conectam entre si não em uma linha contínua, mas em uma constelação. Umas se conectam, outras se conectam em outros ponto sem tocar nas primeiras. Protagonizando elas, qualquer um. Em especial, qualquer uma que tenha chances remotas de estar no outro tipo de história.

Se a questão fosse apenas essa, uma opção metodológica formal, escolher entre uma única linha e pequenos pontos que se aproximam e se afastam, seria bem simples. O ponto principal é que estamos falando de poder, dominação e representatividade. Bem simples: a outra história não está no currículo escolar em vão. Não se passa anos da vida escolar estudando história e arte dos países europeus por um equívoco. Assim é porque seguimos dominados, em outras esferas. Qualquer tipo de tentativa de construção da nossa autonomia, não pode não passar por esse ponto. Mudar as narrativas que contam sobre nós. Mudar também a expectativa que temos em relação a pesquisa. Estudar objetos sem pretender a totalidade, a verdade.

A metodologia total serve a contínua colonização do conhecimento. Não basta tornar os nossos eventos protagonistas, os nossos personagens protagonistas. É necessário colocar como se faz isso. É necessário construir metodologias próprias, modos próprios de produzir conhecimento. Pois bem, um exemplo. A discussões em torno da verdade são inconclusivas. Ela não existe. É uma disputa. Se constrói. Se desconstrói. Mas isso é inquestionável na história. Há documentos, é verdade! Documentos se interpreta, mas são incorruptíveis. E aí temos o Brasil, com uma população que em 2018 tem 8% de analfabetos, e voltar décadas bem próximas o número aumenta. Nos anos 1980 eram 20%. Em 1960 eram 40%. Como desejar construir verdades com esses números? É incompatível. Versões é mais coerente. A verdade não pode ser dita, apenas escrita. Uma história que se constrói a partir da escrita não nos serve.

“Quem não essas pessoas? Não conheço ninguém que está nessa lista” disse alguém muito importante sobre Junho de 2013: cinco anos depois. A exposição mescla artista mais conhecidos, com mais trajetória, com artistas menos conhecidos, começando agora. Então, nem tinha gente desconhecida totalmente. Mas fato é que a maior parte da lista da equipe da mostra é desconhecida. E isso não é uma ofensa. Não se pretendeu contar a história de Junho de 2013. Mas fazer um recorte desse momento, em conversa com momentos anteriores e posteriores, a partir da visualidade, da escrita, da experiência, da escuta, da sensação. Uma história pequena, que se pretende a exatamente aquilo que está ali. A única coisa possível, quando não se pretende a totalidade que não busca o que fica nas bordas. Inclusive que bom que você não conhece ninguém, ótima oportunidade para conhecer quem você não conhece. Tem tanta gente produzindo… realmente é impossível conhecer todos. Essas oportunidades de conhecer mais alguém são maravilhosas. Que o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica esteja cada vez mais cheio de gente desconhecida! Quer conhecer também? Venha visitar! Tem outras mostras com mais desconhecidos pra você conhecer 🙂

Pequenos personagens só podem protagonizar pequenas histórias. E o SÓ aqui não é enclausurador, mas libertador. Hoje fazem 5 anos de uma manifestação na Av. Presidente Vargas. Na grande história temos a copa. Nas pequenas nos recordamos desse dia. Que apesar de toda a violência praticada pelo Estado, de toda a deturpação que se fez posteriormente sobre esses dias de junho daquele ano, foi um dia muito especial. Um monte de gente sem importância estava nas ruas. Esses personagens jamais poderiam conduzir a todos na grande linha. São pequenos. Viva nós!

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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