Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Dentição

“Só a ANTROPOFAGIA nos une”.
Com essa frase Oswald de Andrade abre o Manifesto Antropofágico, a nossa Declaração de Independência tardia (não que a “original” tenha sido escrita em tempo). O próprio Oswald é o protagonista da pintura “A Herança Asmat” de Daniel Lannes, na qual o escritor aparece protegido por uma espécie de escudo. E Asmat era um povo indígena supostamente canibal. Então, tenho a impressão de que Oswald ficaria feliz com o retrato-homenagem.
“Dentição” é o nome de cada um dos dois volumes da Revista de Antropofagia, onde o manifesto foi originalmente publicado. A exposição individual de Lannes na galeria Luciana Caravello (RJ), pega o nome emprestado e, eloquentemente, traduz a nossa fome de identidade – este desejo que ainda não sei se é da ordem do insaciável ou do indigesto. Com doze pinturas inéditas e uma série de colagens, o artista mastiga referências que vão do baile imperial ao churrasco, de Carmem Miranda à Anitta, do divã à piscina de plástico, saciando nosso apetite visual com um banquete à moda brasileira.
Essas pontes temporais e estilísticas são uma das marcas mais latentes na trajetória de Lannes. Império e República. Moderno e Contemporâneo. Alta e baixa cultura. Bom e mau gosto. Tudo tem valor na História Visual do Brasil recriada de modo crítico e bem-humorado pelo artista.  Nessa narrativa pictórica, histórico e banal ocupam o mesmo capítulo.

O prodígio

A exposição inicia com “O prodígio”: pernas brancas abertas e semicobertas por uma saia amarela parem um homem negro. Ele nasce adulto, porém sem expressão. Uma referência ao nascimento de Macunaíma que, no imaginário da produção simbólica brasileira, é o nascimento do nosso povo. No terceiro e último andar da mostra, vemos “Macunaíma Crop”: um close no rosto sem face do homem recém-nascido. É a cara do Brasil – o país do futuro que nunca chega.
Destaque para “Carrossel Napolitano”, na qual uma mulher bem vestida dança em um baile que parece igualmente luxuoso. Mas as cores fortes, quase-neon, e sua linguagem corporal empinando o popozão, nos fazem pensar que o baile é funk. Já na pintura “Malandra”, a camada debaixo da fita isolante, revela o bronze da loira. E enquanto umas estão quase nuas, outras estão “Dress to Kill”: temos Carmem Miranda vestida com o terno de Dom Pedro I. Digna do tapete vermelho de Cannes, ela demonstra a capacidade de Lannes em amarrar os símbolos que forjam nosso ideal de brasilidade de modo muito naturalizado.

Malandra

A combinação inusitada de personagens poderia sugerir cenas surreais. Mas dada a nossa constituição cultural, no mínimo, particular, elas transmitem, na verdade, uma sensação de possibilidade, de certa verossimilhança. Talvez, inclusive, de retrato social transhistórico. Tem até Dom Pedro II no divã de Freud tratando seu “Complexo de Vira-Lata”.
Se é evidente o interesse de Daniel pela iconografia da história do Brasil, sua experimentação na linguagem da pintura é igualmente chamativa. Os trabalhos apresentados em “Dentição” foram feitos primeiro em tinta acrílica e depois em tinta a óleo, conferindo uma atitude mais expressiva e viva às telas. Com pincéis cada vez mais soltos e camadas mais generosas, Lannes já tem uma identidade pictórica muito particular, desenvolvida ao longo desses mais de 10 anos de carreira.
Dress to kill

Chama atenção a relação entre figuras e fundos. Em algumas telas temos contextos mais abrangentes, em outras, temos apenas “planos-detalhes”. Mas em ambos os casos, os backgrounds estão diluídos, misturados, mastigados. Não há referências, apenas cores e, sob elas, os registros dos gestos do pintor. Um mundo contemporâneo pasteurizado onde interessam mais os protagonistas.
Saí da exposição pensando: quem são nossos heróis? Quem está escrevendo esta história e o que será de nós? “A nossa independência ainda não foi proclamada” – concluía o Manifesto Antropofágico.

*Imagens por Divulgação / Luciana Caravello Arte Contemporânea.

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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