Camila Vieira Crítica semanal

Bem vindo ao lar: São Paulo é sua casa. Crítica à exposição Junho de 2013, 5 anos depois. Parte I

Devemos celebrar 2013? Com essa pergunta na cabeça, visitei a exposição curada por Daniele Machado e Gabriela Lúcio: Junho de 2013: 5 anos depois, aberta ao público até dia 11 de agosto, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica. Eu tinha 21 anos de idade quando aconteceram, em São Paulo, as primeiras passeatas contra o aumento de 20 centavos na passagem. Ainda não estava na graduação, mas cogitei, naquela época, fazer o ENEM e, como bolsista, assegurar uma vaga numa Universidade de renome. Portanto, mesmo ainda não sendo universitária, logo me senti pertencente àquele movimento cujo mote era militar pela gratuidade do transporte público: o MPL (Movimento Passe-Livre). Trabalhava na República, centro da cidade, e morava num bairro-satélite,- lugar constituído por trabalhadores que, em sua maioria, se deslocam de manhã, para trabalhar, e voltam a noite, apenas para dormir.

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Meia casa, meia vida, 2016: Guga Ferraz

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Talvez seja esse o diálogo que marque a presença das obras: Meia casa meia vida, 2016, de Guga Ferraz, que constitui o desenho de uma paisagem com uma pequena casa amarela, replicada em uma maquete que nos dá a visão do corte lateral da moradia. O menor abrigo #1,#2,#5, 2017, de Ana Hortides, que apresenta três casinhas de diferentes tamanhos: a primeira, e maior, em vidro; a segunda, de tamanho médio, em açúcar; a terceira e menor das casas, em carvão, possibilita discutir a relação de cuidado, embelezamento e de materiais envolvidos na construção, real ou simbólica, do abrigo, dos afetos e da família. Na sessão da Série Mobiliário Maravilha, de Daniel Murgel, Leonardo Barboza e Atelier Sanitário, temos Cadeira ou Braço de Judas, 2016; O pônei, cavalinho ou burro espanhol, 2016; A separadeira, 2016 e Divã com Foices, 2016, mobiliários que lembram a arquitetura de exclusão que se desenha pelas cidades, com muretas, bancos e guias projetadas para ferir ou causar desconforto àqueles que ousem descansar em seus espaços. A última obra que coloco nesta temática é o vídeo Cidade Cinza, 2014, Mariana Florindo, que recorta, em filme, o dia de um céu nublado, em São Paulo; céu de coloração confluente às políticas de apagamento promovidas pelas prefeituras não-progressistas que invariavelmente gestam a cidade, e pelo avanço do concreto sobre a paisagem natural.

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O menor abrigo #1,#2,#5, 2017, de Ana Hortides

Todas estas obras, dentro do contexto exposto, falam a respeito de abrigo, seja do lado de fora, enquanto perspectiva de mais uma moradia, – numa cidade que comporta, em sua maior extensão, cerca de 18 milhões de pessoas-, e das relações conflituosas entre o âmbito privado e o público, entre a posse e a penúria de se colocar em um lugar incabível, reavivado e apagado entre os seus muros, que engolem e vomitam pessoas por meio dos seus passeios, dos terminais e das vias férreas: meros lugares de transição e deslocamento. A casa encarna o projeto, o delírio, a necessidade, o conforto, ou o inverso. Dentro deste contexto, formado pelos objetos semelhantes à temática domiciliar, pode-se inferir que o caos da cidade interfere e é diretamente imiscuído pelas relações desenvolvidas dentro dessa microestrutura, que é a residência.

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Divã com Foices, 2016: Série Mobiliário Maravilha, de Daniel Murgel, Leonardo Barboza e Atelier Sanitário

A exposição, cuja antessala comporta uma tela com os vídeos Turbulência, 2017, de Cecília Cipriano; 1500, 2016-2017 de M.I.A. e Capitão do Mato, 2017, de Nelson Almeida, ressaltam o caráter explosivo das manifestações iniciadas na cidade. O primeiro, apresenta estilhaços coloridos, que, unidos, formam a bandeira do Brasil, mas que se dispersam aos poucos, devido ao som dos tiros destinados aos manifestantes, por parte da polícia, para dispersar os grupos integrantes das manifestações de rua, que, por sua vez, emitem palavras de ordem e ressoam este confronto. O segundo, retrata uma intervenção realizada no Monumento às Bandeiras, 2016, tanto do ponto de vista de sua repercussão na mídia, quanto do registro feito pelo artista, que utiliza a tinta para questionar essa figura histórica, símbolo do avanço paulista pelo interior. Para uns, orgulho, para outros, genocídio. O terceiro vídeo, retrata um helicóptero a sobrevoo. Mídia ou polícia? O título acusa uma caça a um determinado grupo social ou político, sob o conflito de classes que permeia o uso da força bruta empregada pelo Estado contra seu próprio povo, por meio de agentes que são, eles mesmos, pertencentes à base da pirâmide que ajudam a oprimir.

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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