Carolina Lopes Crítica semanal

nosso norte é o sul

um repentino abraço. como esses, dos amigos de infância, de quando não se vêem há muito. é uma corrida, um baque e um envolvimento de braços, apertados. sem fazer diferença onde bateu; de frente, de lado, de costas: a energia só pode ser familiar. é o seu irmão de vida.

estive de férias na última semana e, em viagem à buenos aires, fui de pronto conhecer o museo de arte latinoamericano de buenos aires, o malba. não havia ainda pensado sobre, mas assim que entrei para ver as exposições, foi esse abraço. é claro, estava em um museu dedicado à arte produzida na américa latina. é como visitar um familiar, mesmo que distante. estava cheio de fotos de família nas paredes. aqueles mais famosos, cujas histórias todo mundo conhece. outros, sendo apresentados àquele momento. uns primos novos, umas tias aventureiras, uns tios cheios de histórias. verboamérica era o nome da exposição, toda produzida com obras do acervo do malba. eram tarsilas, lygias, helios, maria martins, anna bella geigers, entre fridas, martas minujins, jorge da vegas, pedro figaris, oscar bonys. ao lado, exposição sobre o peronismo. é o lugar, território, chão e sua história que dão sentido àquela visita.

saí dali com a sensação de de volta pro meu aconchego, do gugu. pensando no quanto, sendo brasileira, sou também latino-americana. voltei percebendo a possibilidade de estar entre irmãos que, assim como nós, carregam em sua origem histórica, uma colonização. parti para o museo de arte contemporanea de buenos aires, o macba. ali, do lado de onde estava hospedada, um bairro relativamente pequeno de buenos aires, san telmo. um museu de arte contemporânea, colado em um museu de arte moderna, que está em reforma, prestes a reabrir. e quando se entra, o museu se apresenta com a exposição: latinoamerica: volver al futuro. parecia aquela voz de mãe, quando a gente chega a ser adulto e, todas as recomendações, estranhas na infância, passam a fazer sentido. é ela falando: fica junto dos seus irmãos, eles são sua família.

para além dos museus, era forte nas ruas. o assunto lá se repete a todo instante: somos latinoamérica. américa latina. latino-americanos. a evocação por mim ouvida nas exposições, nos trabalhos e nos textos curatoriais, bem remetidos e destinados, me trouxe para o sítio desta reflexão. pensei lugar, ouvi milton cantando: “eu sou da américa do sul”. talvez pelo tamanho. talvez o idioma. há a impressão de que o brasil está, de alguma forma, isolado desta condição: a de fazer parte da américa latina. não se houve, com a frequência necessária, discursos neste sentido. buenos aires, apesar de manter tanto de seus colonizadores, em muitos aspectos, me pareceu não perder de vista sua condição, que antes feriu sua terra. e vê, com olhos abertos sua condição atual, que desdobra do fato de ter sido colônia. ela diz, repetidamente: olha pra você. você é jovem, que acabou de conseguir liberdade. você tem outra sensibilidade. produz outras artes. você não pode sofrer comparação com os outros, mais velhos, mais experientes, sobreviventes. você tem que crescer, a partir de suas raízes. você precisa saber quais são essas raízes. você precisa valorizar cada uma delas. você precisa curar, cada uma delas.

começaram os jogos da copa do mundo, enquanto estava lá. assisti aos primeiros jogos, primeiro argentina, depois o brasil. ouvi a mãe falando aos irmãos: lá na rua, ninguém pode machucar vocês, protejam um ao outro. e torci pela argentina, peru, méxico, uruguai. américa latina, em todos os jogos que assisti, como pelo brasil. é isso: se um chorar, também chora o outro. se rir, também o outro. para nós, irmãos latino-americanos, o mundo só pode fazer sentido quando olharmos daqui, de baixo. no malba, uma citação de joaquim torres garcia, artista e escritor uruguaio, dessas que viram o mundo de cabeça para baixo: “nosso norte é o sul”.  

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato

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