Crítica semanal Ton Almeida

Caminhares Periféricos – Nóis de Teatro e a potência do caminhar no teatro de rua contemporâneo

 

A periferia de Fortaleza esteve em festa na tarde do último domingo, dia 25 de junho de 2018. Mais precisamente o território do Grande Bom Jardim, no qual o grupo Nóis de Teatro realizou o lançamento do livro “Conexões Periféricas – Nóis de teatro e a potência do caminhar no teatro de rua contemporâneo ” em sua sede no bairro Granja Portugal.
O “Nóis” já se tornou um dos grupos de teatro de rua mais referenciais de Fortaleza. Em atuação a mais de 15 anos busca sempre refletir sobre a formação e ocupação do espaço público urbano, os conflitos de classe e a constituição da periferia e do sujeito periférico.
Surgido como um grupo de teatro igreja católica do bairro Granja Portugal, fazendo representações de temas clássicos da liturgia católica, utilizava o espaço da igreja como aporte para ensaios e talvez ai tenha surgido a primeira conexão com o espaço da rua. Desde seu cerne já havia uma proposta de teatro popular, de caráter acessível e horizontal. A rua acabou despontando como algo inevitável, espaço de debate público onde não havia a repartição entre público e palco. No decorrer do tempo outras temáticas foram se tornando pungentes para os membros do coletivo e o rompimento com a igreja acabou sendo inevitável.
Seu primeiro espetáculo desenvolvido chama-se “A Granja”. Partindo de uma pesquisa sobre a formação do bairro Granja Portugal o coletivo amplifica o discurso de luta contra o poder provocando um debate público bem no estilo teatro fórum de Augusto Boal e o Teatro do Oprimido. O figurino e objetos de cena criam toda uma ambiência instalativa de caráter orgânico, em movimento constante de construção e desconstrução, é uma algazarra que movimenta o espectador-participante a um posicionamento diante dos fatos expostos.

 

“Todo camburão tem um pouco de navio negreiro” é o segundo espetáculo desenvolvido pelo grupo e narra a saga de Natanael, uma espécie de anti-herói periférico, jovem negro que a contragosto da mãe resolve seguir a carreira de militar. O espetáculo é dividido em três atos e mostra os preconceitos sofridos por Natanael desde a sua infância, o que o leva a vontade ocupar um poder e se tornar militar, saindo da situação de oprimido para opressor, redirecionando seu ódio de classe contra a própria classe. A inteligência instalativa do grupo neste espetáculo se demonstra nas representações dos orixás que vão acompanhando a trajetória de Natanael. Um lindo cortejo para Oxalá já no começo do espetáculo, Iemanjá e Oxum aparecem como entidades grandiosas sobre o público a partir do uso de pernas de pau. Assistir ao “Nóis” é estar diante de um espetáculo discursivo com forte teor de rebeldia mas também se deliciar com imagens e símbolos muito bem construídos, cheios de potência criativa e identidade periférica.

 

O grupo tem também um jornal bimestral intitulado “A Merdra” no qual fazem debates partindo de especificidades sobre o território em que estão inseridos, abordando temáticas políticas e culturais contemporâneas de um modo amplo e horizontal. O jornal também faz chamadas para colaborações em cada edição e caso haja o interesse é só ficar atento às chamadas no instagram do grupo.
Atualmente o Grupo Nóis deTeatro é um dos coletivos com atuação mais potente e organizada na capital cearense. Mesmo diante dos desmontes das políticas culturais conseguem permanecer ativos com sua sede estruturada, organizando eventos para movimentar culturalmente a Granja Portugal, fazendo o lançamento de um livro sobre sua trajetória e preparando um novo espetáculo intitulado “Despejadas”, protagonizado prioritariamente pelas mulheres do grupo.

 

Desejo longa vida ao grupo e muita merda no seu caminho, que o lançamento deste livro seja mais um passo importante na longa trajetória por se trilhar, apontando sempre para a potência do agir coletivo, resgatando nossas raízes ancestrais e atiçando a revolta popular com inteligência, carisma e criatividade periférica. Continuem ativos e pulsantes para que possamos aprender com a jornada de vocês a como estabelecer redes e conexões entre as ideias e a atuação prática, que a rua vos abrace, devore e rumine suas ideias explosivas.

Contatos com o grupo Noís de Teatro:
BLOG: http://noisdeteatro.blogspot.com
FANPAGE FACEBOOK: Nóis de Teatro
INSTAGRAM: noisdeteatro

Crítico Semanal até 25/06

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TON ALMEIDA é artista multimídia, educador, produtor e gestor cultural. Desenvolve, individualmente e em sistema de colaboração com outros artistas, trabalhos de perfomance, instalação, intervenção urbana, que transversalizam técnicas e discursos referentes ao cinema e as artes visuais. Tem interesse nas relações entre memória, identidade, cinema expandido, performatividade, paisagens, território, envolvendo a prática comunitária como ferramenta de luta social.

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