Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Sobre os que olham para o céu e os que não enxergam além do umbigo

É um alívio que possamos falar apenas em “arte” hoje em dia. Simplesmente arte. Arte em geral. Consideramos superada a denominação genérica “belas artes” ou “artes plásticas”. E, embora ainda haja problemas com a denominação “artes visuais”, ela é (provisoriamente) adequada na medida em que não exclui os meios tradicionais e inclui as práticas recentes. Não se trata de um estilo que se possa reconhecer por algum traço comum, como nos “ismos” abundantes do século XX. É sobre a possibilidade de se fazer arte com “qualquer coisa”. O que é legítimo. Desejável. Portanto, para ser artista não é preciso ser pintor, escultor, poeta, músico… Se é artista. Artista em geral, artista simplesmente.

Mas permanece o hábito de classificar com base em gostos, hierarquias e origens. Parece que ainda é necessário situar um artista entre o culto e o popular, entre o acadêmico e o autodidata, entre arte de rua e arte de galeria… Parece que ainda é necessário apresentar artistas dizendo se são ou não do sudeste, se “fazem sucesso na Europa” e se “começaram a carreira muito jovem”. Sabemos a quem este tipo de “introdução” interessa. E sabemos que a manutenção ou o questionamento do status quo da arte contemporânea cabe a nós. Cabe a quem legitima e institucionaliza a arte, expondo, criticando, escrevendo, divulgando, comprando e vendendo. Então, por que ainda insistimos em determinados rótulos e vícios?

Essa semana, teve gente importante passando vergonha no bacanal VIP da crítica de arte*. Evidentemente, acredito (acima de tudo) na liberdade de expressão. Tem gente que tem orgulho de ser reaça e tudo bem: essas pessoas também devem ser ouvidas. Maaas opinião é uma coisa. Preconceito é outra. Quem inventa discurso sobre vingança é quem não está acostumado a perder. Na “guerra” entre o high e o low, entre o pop e o erudito, só perde quem ainda não entendeu que tem espaço para madonas e Madonnas. Quem escreve uma crítica chamando o trabalho de um artista de “brega”, não tem senso crítico at all.

Enfim. Esta coluna é sobre a exposição “O reinado da Lua” – individual de Derlon Almeida na galeria Artur Fidalgo (RJ). Fiquei dando muitas voltas antes de conseguir escrever a primeira linha. Nessas voltas, estava fugindo dos adjetivos-problema: autodidata, arte popular, arte urbana… Por isso, todo esse discurso de abertura, até perceber o óbvio: o próprio Derlon não está interessado nessa discussão. Seu trabalho visa uma comunicação simples, direta, próxima às pessoas. Na simplicidade do preto e branco e na afetividade dos temas, estamos diante de uma arte que se comunica diretamente com o público.

Sua primeira expressão foi o grafite. E logo veio a inspiração que se tornaria a principal marca identitária do seu trabalho: a xilogravura. A partir das narrativas do cordel, Derlon encontrou um espaço híbrido entre a madeira e o muro, no qual vem desenvolvendo uma poética própria que não se conforma nem com a rua, nem com a galeria: é livre e pessoal como as histórias que conta. Suas obras já estiveram ao lado de Samico e J. Borges. Mas a produção de Derlon expira um ar novo, instigante, com notas de manguebeat. Com um olhar renovado sobre as tradições populares, ele cria um trabalho atual e de entendimento universal. Vemos claramente sua motivação na cultura de origem, enraizada. Mas a extrapolação dos suportes tradicionais, atualiza seu fazer artístico em consonância com as transformações socioculturais que vivenciamos no Brasil de hoje.

Em “O reinado da Lua” o artista apresenta 10 pinturas, um mural site-specific, uma pequena série de tridimensionais e uma instalação do lado de fora da galeria. Numa primeira mirada, nossos olhos são enganados e acreditamos estar diante de xilogravuras. Mas basta botar reparo para ter a certeza de que suas obras são feitas com pincéis e spray diretamente sobre a madeira. A impressão de que goivas foram usadas, surpreende nossos sentidos tanto pela liberdade de sua técnica particular, como pelo nosso exagerado maquinismo que condiciona estilos a determinados suportes.

A relação entre o sol, a lua e a Terra é a base da pesquisa desenvolvida para essa individual. A lua é a protagonista e os efeitos de suas fases na nossa vida terrena é que ditam o enredo. Entre a astronomia e a cultura popular, existe um conhecimento específico, uma poética intrínseca. Existe “A melhor hora para namorar” e “A melhor hora para pescar”: duas pinturas que se dividem entre o dia e a noite. Já as pinturas sobre branco revelam as “Fases da lua, aparecimento da sereia” e “O encontro da lua com o sol”. A influência do satélite natural sobre mar rendeu, inclusive, “Maré – Homenagem a Dorival Caymi”.

Em oposição aos fundos brancos, a série “São Francisco” é formada por paisagens noturnas. O pequeno e solitário barco protegido por uma carranca avança sobre a escuridão do mar que se mistura ao preto do céu. Na ausência de um horizonte aparente, é a lua que orienta a navegação e coordena as fases naturais e circulares de fartura e escassez. É ciência transmitida com romance. Coisa de gente que se propõe mais a observar e a experimentar, do que teorizar. Nossos ciclos são regidos pelos astros e há de se considerar a atração que a arte exerce sobre a vida.

Além das pinturas, no corredor de acesso à galeria, um enorme e cenográfico barco-peixe embutido da figura da sereia navega sem sair do chão. No interior do espaço expositivo, pequenas luas flutuantes e humanoides pendem do teto. É como se os trabalhos nas paredes criassem uma analogia direta às gravuras e as obras tridimensionais se relacionassem com os ambientes urbanos e arquitetônicos – as duas espacialidades que Derlon funde em sua produção. Assim como justapõe as figurações perenes do conhecimento popular com as formas fluidas do contemporâneo. Uma exposição simples e forte.

Termino minhas voltas acreditando que a lua reina sobre os artistas que nasceram artistas. Nem todos são regidos pelas fases da academia ou da crítica. Alguns dirão que é brega, que é ingênuo. Mas a gente tem sempre a opção de virar as costas. Alguns observam o céu e outros não enxergam além do umbigo.

*https://cultura.estadao.com.br/blogs/sheila-leirner/bacanal-narcisista-no-louvre/

 

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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